quinta-feira, 23 de maio de 2013

O acto solitário de ver uma exposição sem companhia (252)

"A Filha do Chinês Diante do Lago de Todas as Palavras"

Incluído na exposição colectiva "Histórias Públicas...Mundo Privados"

Módulo, Centro Difusor de Arte, Lisboa.

Num mundo assim podia eu viver. Ainda que fosse curta a duração da felicidade, limitada no tempo e reservada como na poesia que apenas aspira ao reconhecimento da alegria interior. Poucos partilham de tão elegante princípio que é este de ser servido pela liberdade. Num mundo assim podia eu viver. Num mundo melhor, foi o que quis dizer.

Tenho dias em que me apetece subir de uma vez dez montanhas. É assim que hoje me sinto. E nesses dias, como hoje, pintar é irresistível. Mas nem sempre me sinto assim, dado que o subir implica o descer com a mesma capacidade. A viagem vertical faz-se nos dois sentidos e é interior. A par desta sensação, e de outra meia dúzia de coisas de que se esqueceu Kant, e que é sem dúvida uma outra forma de morrer, percorre-me na pele um formigueiro de coisas. Não haverá mais luz no céu só por se tentar pintar aquilo tudo com as tonalidades que julgamos existir no céu. O céu é verde, por mais que me digam que não. É verde sobre uma base de violenta cor alaranjada. É assim o céu, e não de outra forma. Há terras dessa cor onde dormem ferros avermelhados. O Sol dá-lhes uma dimensão marciana e, assim, eis toda a pintura: um mergulho no abismo, sob pena de não voltar à superfície.

Um dia meti na cabeça que eram necessários muitos tubos de tinta para pintar. Muitas cores distintas para chegar a cores diferentes, para fazer com que a pintura, por exemplo, fosse diferente na cor. Um dia deixei de pintar. Foi assim de um momento para o outro, há cerca de dois anos. Acabou-se, disse, daqui não sai mais nada para lado nenhum. Por ter inventado uma crise fundada na falta de tubos de tinta na minha gaveta das tintas, durante dois anos nao pintei. Mesmo que os fabricantes de tintas me tivessem dado todas as cores possíveis, eu diria não as ter todas, e continuaria, teimosamente, nesse tempo a não pintar. E não estava errado, não senhor. Mas olhem, nos últimos dias a mão está de volta, depois de uma longa espera e muito tubos de tinta perdidos. E voltou com uma energia a que não posso chamar outra que não seja pintar. Foi do efeito de A Filha do Chinês Diante do Lago de Todas as Palavras, que vi no Módulo, no outro dia, foi o que foi. É uma belíssima colectiva, a mostra do Módulo. Ide ver.

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