sábado, 11 de maio de 2013

Marmeladinha (248)

Carvalhus Carvalhus

(Espécie latina de caralho, muito apreciada na antiguidade clássica, e noutros tempos mais pós-modernos).

Apetece-me marmelada. Quero dizer, doce de fruta, compota de marmelos. Mas já não tenho, comeu-se quando foi tempo dela, e no super-mercado não compro. Estou azedo, é por isso.

Acordei hoje para o lado da bicicleta, a pensar subir o lado nascente dos Pirinéus. E partia daqui feliz, acreditem, da saloiada, até onde as pernas me permitissem levar uma ideia. E fazia-o não fosse outra coisa que me prende. É uma prisão viver de sonhos neste país. Estes nossos sonhos, vivem-se, infelizmente, do lado de fora. O efeito mecânico de pedalar, associado a uma cadência constante, traz-me sempre novidades. Ideias arejadas multiplicam-se na paisagem ao selim. Somando-se ao que exactamente ainda não é, ao que está para ser, mas mais à frente. Voltaria se voltasse.

Logo pela manhã o dia foi um jorro de luz que me entrou pela janela do quatro. Juntou-se aos espirros, aos pássaros, e a todas as formas de arte a que não rendo evidência, uma irritação!

Estou cansado de coisas que querem ser por força do bom senso, a mais significativa manifestação de génio, de singularidade, de jeito, de talento, de sei lá mais o quê. Imposições da treta, é o que são. Tenho um fartote de tipos cheios de si e empáfia. Mas que, como os pólens da tosse, se multiplicam de norte a sul, da costa ao interior, sem a mínima graça, nem ar de graça. Mas o pior, na geografia humana, é mesmo o interior e as suas aldeias, à imagem do litoral e das suas capitais: capelas de génios das letras, copistas de sacristia, uma espécie de padralhada erecta que, com frequência ejacula sem frémito pontos finais e vírgulas; babam-se doutores que vivem na sombra (há sempre gajos inúteis na sombra de outros inúteis que já viveram na sombra de alguém - muito mediterrâneo, e temperados de alhos, cebolas e coentros).

Uma coisa aqui, outra acolá. Cada macaco no seu galho. Tudo muito apertadinho, com cus de galinha e a falar baixo, para que se não ultrapassem uns ao outros. Hipersensível é a genialidade. Antigos pobrezinhos, foram estudantes remediados, aplicados nos estudos. À força fizeram-se cabrões de elevada qualidade, escorneiam com investidas que se não se fazem avisar. Algumas chegam pelo correio, o electrónico - mais confortável. Computador, diz-se, por aqui, computadorii! TV regiões, farturas e lagartixas.

Se se olhar de longe, voilá, é um tapetinho muito jeitoso ao estilo Arraiolos, ou uma manta colorida cujo ponto, facilmente copiado pela industria chinesa (mais barato e duradoiro), faz da mantinha curta um descobre pés, um arrefecedouro. E mostra o que não devia mostrar; todas as fragilidades dos tolos, em forma de obra medíocre e sem qualidade.

A casa gasta uma mercadoria longamente apreciada a esta parte. Uma verdadeira indústria de toleimas alimenta conferências, conferencistas, charlatães, cães de caça grossa, patos finos, loiça delicada e bordados, tipos de esquerda e de direita, opinantes sugestivos, digestivos, e sei lá quantos mais. Mal por mal, o padre Fontes: rosado e risonho, juntava a si, em Trás-os-Montes, todo o tipos de curas e, já agora, as maleitas. Do suco do simpático lacrau sem espinhas, aplicado com sucesso em cataplasmas para inúmeros males, até ao chá de pívia para calar a tosse, o santo padre, o seu mercedes e a governante - uma prima da Régua, apareciam enquanto a festa durava.

Pequeno, pequenino, temeroso, tuberculoso, rançoso, bafiento, sem Sul, sem norte: Portugal, Portugal, e agora com letra minúscula, portugal. Meias letras, tristes tintas, obras de ínfima má qualidade apresentam-se em palestras e moderações, grandes encomendas do estado, grandes ditames e gravatas às riscas (para pessoas ariscas). E lá vão eles (um dia hão-de chegar a pedestal da estátua equestre, no ermo central da praça, na rua principal, e há-de vir a charanga a rufar tambores, e eles hão-de ser grandes pela graça de Deus).

Tenho visto gente pendurada em tudo o que se pode pendurar, verdadeiros cidadãos. Até parece que andam com o tapete de rolo vermelhinho debaixo do braço e que o desembrulham para passar, para serem vistos bispos da cultura, cardeais da sabedoria, acólitos de pouca coisa e pasteis de nata de imitação.

No meu país, que fica na mais recôndita província do Universo, o carvalho do montado sofre muito,(coitadinhas das árvores e da arte ecológica). E, infelizmente, aprece nada haver fazer.

 

 

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