sábado, 23 de março de 2013

Fazer render o peixe (237)

Navio parte hoje para o Porto. Já deveria estar na estrada, em andamento, a rolar rumo ao Porto. Mas ainda aqui estou.

Navio apresenta-se no Porto, no Gato Vadio, às 17h. Amigos.

Vou ler o texto do meu amigo Luis Serra sobre o livro Navio.

 

E la nave va

Luis Serra

1.Se apresentar um livro é difícil, apresentar um livro de poesia é muito mais. Hannah Harendt, num ensaio incluído em Homens em Tempos Sombrios, escreve, com exactidão, “falar dos poetas é uma tarefa incómoda; os poetas são para os citarmos, e não para falarmos deles.”

Imagino quase sempre o público destas sessões de apresentação, dizendo entre dentes em direcção ao orador: “diz qualquer coisa de original, diz qualquer coisa de original”, e penso no Nanni Moretti (num dos seus filmes) em frente à televisão: “diz qualquer coisa de esquerda, diz qualquer coisa de esquerda” D' Alema di' una cosa di sinistra. Mas, convenhamos, dizer qualquer coisa de esquerda, sobretudo hoje, é mais fácil do que dizer alguma coisa de original sobre um livro de poesia.

A um livro de poesia só se pode responder, como toda a gente sabe, poeticamente. O ensaísmo e os seus avatares são sempre um pouco penetras na wild party que pode ser a poesia.

2. Dito isto, perguntemo-nos, o livro do José Miguel Gervásio, Navio, tem ou não tem? Tem. O quê? Swing. Não é um livro de pensamentos, mas antes um livro onde, em primeiro lugar, se tenta cumprir um conselho do Marquês de Sade (Sobre os Romances): não ponhas a tua palidez naquilo que escreves. Mas isso não quer dizer que estes textos não estejam carregadinhos de melancolia. Só que esta é ultrapassada pela direita por um desassossego que convoca Kerouak ou Baudelaire. O JMG, que costuma dizer-se muito da Abissínia da Fonseca (Fonseca é um dos outros apelidos do JM), sabe, como Rimbaud, que “o mais provável é que uma pessoa vá para onde não quer, que faça o que não queria, e viva e morra de um modo totalmente diferente do que sempre desejou”(Cartas da Abissínia, & etc,p.76), mas não desiste de ser na literatura, na pintura e etc, “a vizinha louca como uma rainha distraída que tece à porta de casa um pano vermelho sem fim”(p.16, Navio).

3. A bordo deste navio vai muita bicharada¸ mas destaca-se a presença do cão, que imediatamente associo a Diógenes, o cínico, e à sua escola de liberdade, de recusa do poder, de apologia da margem. Todos os poetas são cães vadios:

- p. 13, Pulgas;

- p. 40,Olho de Cão;

- p.50, Não ser à sombra das oliveiras.

Portanto, ser à margem: recusa do desejo de poder.

No entanto, não se recusa aqui o poder do desejo, havendo nestes textos lugar para o amor aos próximos ( e é aí que entra também a melancolia), não ao próximo (nada de beatices!), que perdemos e vamos perder.

Um dos textos mais tocantes que estão na esfera desta melancolia é o da -p. 25, Coscorões e mel dos mortos

O que é dito e o que não é dito, neste livro, comove.

4. Para concluir: a poesia do JM tem uma qualidade, que é ser poesia. Cesari Pavesi dizia que a poesia tinha começado quando um tipo chegou ao pé do mar e disse: parece azeite. As palavras, nos textos do JM, estão combinadas de tal forma, ou desconcertadas de tal forma, que delas se desprendem a energia e a vivacidade que nos permitem vislumbrar “o que falta para tocar o fundo”( Herberto Hélder). Como num filme do Fellini, la nave va, poeticamente: não há aqui prosa disfarçada de poesia, apesar dos textos terem, quase todos, a forma de prosa.

Voltando à imagem do azeite, e para terminar, se este livro fosse azeite seria um azeite que sabia a azeite, não um desses azeites extra-extra virgens feitos para quem não gosta de azeite.

 

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