segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

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As pessoas azuis sentam-se onde podem quando está muito calor. Abanam-se sem compromisso, fecham as janelas de casa por volta da hora do almoço, tiram os canários dos pregos das paredes e devolvem-nos à frescura do interior das cozinhas sem luz. Nos dias rosados do céu do estio as pessoas da minha cidade distraem-se tanto nos seus gestos sem importância que não dão conta do tempo passar. Sem aviso, passam por cima das suas cabeças nuvens, ventos que empurram nuvens, brisas que vêm do mar carregadas de sal, almas invisíveis, coisas terríveis sem definição enciclopédica, objectos de categorias que não me apetece descrever. A luz muda e mudam cores e as sombras cheias de cores, e mudam as tonalidades das folhas das árvores. Há dias sem sombras no chão. Como qualquer pessoa de outro lado qualquer, as pessoas das outras cidades também se dispersam nos seus próprios gestos que parecem ser aquisições oníricas ou reflexos da infância feliz. Os dias de calor produzem vapores que se transformam em imagens. Num desses dias, levado por um vendaval vindo de um deserto distante, entrou um veado desarvorado na minha cidade. Percorreu-a num galope desabrido, ofegante, espumoso até, e desapareceu nos montes. Apesar do alvoroço, poucos foram os que se aperceberam do que aconteceu, de tal forma estavam absorvidos nas suas tarefas improdutivas, de olhos postos nas suas inquietações, a olhar para dentro de um túnel de distrações que possuem, como varrer a entrada de casa da sumidade do tempo. Alguns, muito poucos, não acreditam no que vêem e regressaram à vida sem assunto. Nesse dia caiu uma árvore na rua do fundo. Os barcos, sem explicação razoável, afundaram-se no mar sem esperança. A terra optou por não arrefecer e tornou-se quente para distração das pessoas da minha cidade. Insectos voavam por cima de todos nós e havia uma música sublime que se ouviu igual em todo o lado. Desfilaram, então, elefantes e banqueiros sem dentes em todas as praças. E ninguém deu por nada. Ninguém deu por nada. Ninguém deu por nada.

Dez bêbedos cantaram ao sol. O sol não conseguiu ouvi-los, explodiu em calores.

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