quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Os dias que seguem aos dias seguintes (272)

Moulin de la Galette, segundo um amigo holandês.

O vinho é feito de uma espécie de luz que atravessa o mundo vindo das montanhas. Apesar da luz das montanhas ser mais crua, mais densa, e, segundo alguns cientistas de renome, ser mais complexa na sua estrutura atómica, ela adoça o vinho que se transforma em luz e a luz em almoço e o almoço em carne. Impressão ao Sol do meio dia, vespas e figo.

 

 

sábado, 12 de outubro de 2013

Foi na semana passada que aconteceu e havia Sol que se fartava (271)

Foi na semana passada que aconteceu o que vi. Ao vir da mina de água reparei numa afloração de seres ao fundo no quintal que surgia. E fiquei ali a olhar espctante a ver no que dava aquilo tudo. Eram mulheres que saíam da terra e por fim um homem em tronco nu que se apoiava num guarda-chuva. - "Estamos prontos" -, disse um deles, e partiram saltando sobre a veação. No buraco nasceu um limoeiro de cheiro. Está lá para que fique lá. Foi na semana passada e vai ficar no Módulo até se sentir o Novembro que se aproxima.

 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A pesca é uma arte difícil (270)

O Verão que ela usava tinnha nos sapatos a cor dos seus pés

FIGURES & GROUNDS (FADIGA E LASSIDÃO)

 

Quando lá chegaram estavam afogueados de tanto correr. Tinham vindo de longe. A viagem fizeram-na guardados na mala do carro por causa da chuva. Papeis rebeldes que insistem em enrolar-se para o sítio que a gente não quer. Ao fim do dia já estavam pendurados nas paredes à espera de serem vistos. A pesca é uma arte difícil.

Dia 5 de Outubro, encontramo-nos todos lá no sítio da Calçada dos Mestres, às 18h.

 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

História das duas Luas de Veneza (269)

"História das duas Luas de Veneza"

Vai no ar uma espécie de festa no atelier. Não sei se a alegria contida nestes desenhos contagiará os outros. Não foi esse o objectivo. Mas existe, está lá. De papel para papel, vai no ar uma espécie de conversa que elas todas têm tido umas com as outras. Aquilo tudo junto aviva-se e eu também.

Dia 5 de Outubro, no Módulo, às 18h, eu serei aquele de camisa vermelha para vos dar a conhecer "O Verão que ela usava tinha nos sapatos a cor dos seus pés".

Até lá.

 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Duzentos e tal... é um convite! Apareçam.

 

Os Verão que ela usava tinha nos sapatos a cor dos seus pés

Figures and Grounds, (Fadiga & Lassidão)

Há neste conjunto de trabalhos um quadro vermelho. Foi a partir do vermelho desse quadro que imaginei toda montagem na galeria (Módulo). Nesse quadro existem duas personagens, o Ferreiro de Urano, e a Mulher Cabeça de Veado. Fazem ambos parte de uma composição-colagem cheia de elementos que organizam o campo visual e onde se agarra um admirável mundo que suponho dar a ver. Têm ambos uma história, ou fazem parte de uma história que por agora não interessa contar. O quadro chama-se "O Verão que ela usava tinha nos sapatos a cor dos seus pés". Nesta exposição, anuncio, sem ponta de tristeza, o fim de um ciclo e o princípio de um outro.

domingo, 8 de setembro de 2013

As sombras que árvores dão (267)

Ontem, de debaixo de uma generosa árvore, abri uma mala cheia de coisas que fiz. "A árvores do Sr. Gervásio" tinha livros repletos de desenhos e textos, significantes poéticos dentro de caixas de saladas de outros dias quentes, uma peça de arquitectura que se destina à cidade imaginária Aurora da Liberdade, cadernos de desenho puro, uma caixa com uma imagem de um retrato de uma família muito especial - por onde se espreitava, funcionando como câmara lúcida. Postais de exposições que realizei e os meus dois livrinhos editados pela & etc. A minha pequena instalação tinha a possibilidade de ser explorada: os livros abertos e lidos, as coisas tocadas.

"Oferecem-se sombras", um projecto da autoria da Vera Mantero. A luz de Setembro encheu o dia, comi maçãs e bebi água. Vi gente que se sentou a ler os riscos que faço das minhas mãos.

 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Da Metafísica das coisas (266)

 

Estaremos todos desculpados aqueles que, em Lisboa, se proponham a falar da Metafísica. Ali, lá, onde quer que se encontre Lisboa, aos nossos pés ou mais distante no Universo, Metafísica e Lisboa estarão de braço dado para todo sempre. Unidas no provável infinto sentésimal do conehcimento. Uma coisa é Lisboa dos turistas, outra é a cidade onde a Metafísica está para o vinho como estão os chocolates e o vinho para a vida com profundo significado ontológico. É toda uma cosmogonia, percebem?, um desiderato intelectual. As coisas são como são e os dias, sendo de Sol a Sol, quase todos iguais, contém em si a Metafísica de que vos falo: a das coisas que são a sede, os seres automatizados, as diferentes categorias de cada uma das cores conhecidas, etc., existe sempre um além de possibilidades. Dias longos não contam para nada, digo-vos eu.

 

sábado, 17 de agosto de 2013

Goya, revisitado (263)

Podia viver de outras coisas, mas se pudesse ficaria saciado com generosas talhadas de melão e presunto às fatias, pão e vinho, café.

A montagem já existe na cabeça à algum tempo, tendo-se definido recentemente o alinhamento, entre as sombras e a luz, permito-me apresentar a amante do Goya em versão da companhia das Índias.

 

A 5 DE OUTUBRO, NO MÓDULO, LISBOA, SEGUE-SE:

Figures and Grounds (Fadiga & Lassidão)

Os limites visíveis são os dos muitos caminhos possíveis, tal como a vida no planeta se multiplicou com a finalidade de o habitar. Assim, o erro entende-se, mas não se pode confundir o todo com as suas partes, ainda que sejam mais ou menos importantes, para o todo, a soma das suas partes. O título da mostra é, pois, Figures and Grounds (fadiga e Lassidão). Este quase texto, este título, secundado por um subtítulo referido em surdina é meio furtado a um artigo sobre Barkley L. Hendricks pintor negro norte-americano contemporâneo.

A presente exposição traduz-se num "novíssimo" conjunto de imagens. Submeto-me nela à Interpretatio Moderna de toda uma herança artística que dá forma a configurações mais ou menos canónicas. E digo isto, na medida em que as formas desta aventura passaram ao longo da história sem terem sido negligenciadas até atingirem um estado crítico reconhecível em museus e catálogos luxuosamente encadernados e escritos, mas é também um lugar onde tudo poderá ainda estar ligado e indiferenciado.

A minha história faz-se de inúmeros pintores. Sobretudo das suas imagens, podendo, a partir delas, quase certamente escolher um caminho como se se tratasse da travessia de um rio por cima das pedras para atingir a outra margem.

No entanto, advirto que, este tipo de poesia, este tipo de representação, este tipo de arte, não faz apelo directo à história e, singularmente, aos recursos da própria história, na medida em que tem origem naquilo que não pertence à história, mas sim ao momento exactamente anterior à história cujo campo é o do domínio do mito e da literatura.

Ainda que entre outros pintores admire Poussin, a possibilidade de seguir uma linha de pintor-filósofo parece-me claramente distante. Em primeiro lugar, a minha limitada capacidade de reflexão sobre os temas clássicos e, depois, o talento que não tenho para ir tão longe. Utilizei, é certo, alguns dos elementos que podemos identificar em Poussin, tanto na composição, como na construção da imagem: a paisagem e a origem literária dos temas. Tenho em conta outras fontes, provavelmente mais próximas do meu tempo. O Manet, segundo a permanência da inconclusividade que se observa no seu Le déjeuner sur l'herbe, está para as minhas figuras, cujo grau de realismo é bastante aceitável de acordo com a minha mão que está sujeita a um tempo de trabalho fragmentado devido à profissão que exerço (confesso nunca ter tido coragem para passar fome), como estará uma condição referencial de excelência para outros. Como esteve o Poussin para o Balthus - ver o rosto do primeiro pintado no rochedo à esquerda, no quadro do segundo La Montagne (L'Été).

Barkley L. Hendricks é, como já disse, uma referência importante neste conjunto de trabalhos. As suas personagens negras vestidas de branco tornam-se visíveis variando o seu grau de realismo.

As pessoas que desenhei para esta série existem na realidade, têm nome e Cartão de Cidadão. Existem, também, nestes desenhos de acordo com uma segunda vida que desejei providenciar-lhes. Como se não contente com a minha tivesse utilizado aquilo que tenho ao meu alcance para projectar nos outros a necessidade absoluta da poesia, do profundo impacto que a poesia deveria ter na vida quotidiana. A ruptura que este aspecto pudesse implicar na vida diária.

Desenhei literalmente às escuras, procurando na escuridão a luz, como se tudo isto pudesse ter outro sentido para além dos títulos e dos papeis que apresento.

Foi um Verão de poetas este que passou. De mudanças e estados de espírito contraditórios que me levaram a contar os dias em desenhos, a pensar em desenhos, a reflectir no limite físico do papel.

Reclamo para mim, correndo o risco danado de me não ligarem nenhuma, ou pensarem os críticos de arte que lhes estou a roubar o trabalho, a intenção pintada das figuras do Barkley, um certo Hockney com ares de pintor amaneirado renascentista, o aroma da escolinha de Barbizon, o actor de teatro pintado pelo Manet, a Alice Neel, a Charley Toroop, Irwin Lani, Alan Feltus, entre outros, mas também o gesto seguro e reflectido para além da abstracção (não quero dizer que a abstração não seja reflectida, mas neste momento considero a arte de características abstractas coisa decorativa e ao serviço do ambiente visual).

Os desenhos que apresento nesta série necessitam de contemplação para que se tornem válidos. As exigências do tempo social que vivemos, e penso, muito sinceramente ter há muito perdido o comboio e viver fora dele em termos artísticos, implicam a realidade (não o realismo), mas a realidade como fonte segura de um referencial mesmo que criativo, acima dos estados e das excepções financeiras. Este é um tempo de bandeiras, do vermelho e do negro. Não pretendo, como certamente se pode observar, a realidade documental, que me parece aborrecida, ainda que possa ter sentido em certos contextos artísticos. Gostaria com o correr dos dias de atingir um nível de exigência do olhar sobre a qualidade do instantâneo.

Sentia-me muito mais feliz se existisse um movimento de ideias claras e transparentes, coisa que ultrapassasse as pudicas fronteiras do ser e do tempo. Uma coisa baseada na diferença e na liberdade.

Ou há canone, ou não há arte!