quarta-feira, 21 de agosto de 2013
sábado, 17 de agosto de 2013
Goya, revisitado (263)
Podia viver de outras coisas, mas se pudesse ficaria saciado com generosas talhadas de melão e presunto às fatias, pão e vinho, café.
A montagem já existe na cabeça à algum tempo, tendo-se definido recentemente o alinhamento, entre as sombras e a luz, permito-me apresentar a amante do Goya em versão da companhia das Índias.
A 5 DE OUTUBRO, NO MÓDULO, LISBOA, SEGUE-SE:
Figures and Grounds (Fadiga & Lassidão)
Os limites visíveis são os dos muitos caminhos possíveis, tal como a vida no planeta se multiplicou com a finalidade de o habitar. Assim, o erro entende-se, mas não se pode confundir o todo com as suas partes, ainda que sejam mais ou menos importantes, para o todo, a soma das suas partes. O título da mostra é, pois, Figures and Grounds (fadiga e Lassidão). Este quase texto, este título, secundado por um subtítulo referido em surdina é meio furtado a um artigo sobre Barkley L. Hendricks pintor negro norte-americano contemporâneo.
A presente exposição traduz-se num "novíssimo" conjunto de imagens. Submeto-me nela à Interpretatio Moderna de toda uma herança artística que dá forma a configurações mais ou menos canónicas. E digo isto, na medida em que as formas desta aventura passaram ao longo da história sem terem sido negligenciadas até atingirem um estado crítico reconhecível em museus e catálogos luxuosamente encadernados e escritos, mas é também um lugar onde tudo poderá ainda estar ligado e indiferenciado.
A minha história faz-se de inúmeros pintores. Sobretudo das suas imagens, podendo, a partir delas, quase certamente escolher um caminho como se se tratasse da travessia de um rio por cima das pedras para atingir a outra margem.
No entanto, advirto que, este tipo de poesia, este tipo de representação, este tipo de arte, não faz apelo directo à história e, singularmente, aos recursos da própria história, na medida em que tem origem naquilo que não pertence à história, mas sim ao momento exactamente anterior à história cujo campo é o do domínio do mito e da literatura.
Ainda que entre outros pintores admire Poussin, a possibilidade de seguir uma linha de pintor-filósofo parece-me claramente distante. Em primeiro lugar, a minha limitada capacidade de reflexão sobre os temas clássicos e, depois, o talento que não tenho para ir tão longe. Utilizei, é certo, alguns dos elementos que podemos identificar em Poussin, tanto na composição, como na construção da imagem: a paisagem e a origem literária dos temas. Tenho em conta outras fontes, provavelmente mais próximas do meu tempo. O Manet, segundo a permanência da inconclusividade que se observa no seu Le déjeuner sur l'herbe, está para as minhas figuras, cujo grau de realismo é bastante aceitável de acordo com a minha mão que está sujeita a um tempo de trabalho fragmentado devido à profissão que exerço (confesso nunca ter tido coragem para passar fome), como estará uma condição referencial de excelência para outros. Como esteve o Poussin para o Balthus - ver o rosto do primeiro pintado no rochedo à esquerda, no quadro do segundo La Montagne (L'Été).
Barkley L. Hendricks é, como já disse, uma referência importante neste conjunto de trabalhos. As suas personagens negras vestidas de branco tornam-se visíveis variando o seu grau de realismo.
As pessoas que desenhei para esta série existem na realidade, têm nome e Cartão de Cidadão. Existem, também, nestes desenhos de acordo com uma segunda vida que desejei providenciar-lhes. Como se não contente com a minha tivesse utilizado aquilo que tenho ao meu alcance para projectar nos outros a necessidade absoluta da poesia, do profundo impacto que a poesia deveria ter na vida quotidiana. A ruptura que este aspecto pudesse implicar na vida diária.
Desenhei literalmente às escuras, procurando na escuridão a luz, como se tudo isto pudesse ter outro sentido para além dos títulos e dos papeis que apresento.
Foi um Verão de poetas este que passou. De mudanças e estados de espírito contraditórios que me levaram a contar os dias em desenhos, a pensar em desenhos, a reflectir no limite físico do papel.
Reclamo para mim, correndo o risco danado de me não ligarem nenhuma, ou pensarem os críticos de arte que lhes estou a roubar o trabalho, a intenção pintada das figuras do Barkley, um certo Hockney com ares de pintor amaneirado renascentista, o aroma da escolinha de Barbizon, o actor de teatro pintado pelo Manet, a Alice Neel, a Charley Toroop, Irwin Lani, Alan Feltus, entre outros, mas também o gesto seguro e reflectido para além da abstracção (não quero dizer que a abstração não seja reflectida, mas neste momento considero a arte de características abstractas coisa decorativa e ao serviço do ambiente visual).
Os desenhos que apresento nesta série necessitam de contemplação para que se tornem válidos. As exigências do tempo social que vivemos, e penso, muito sinceramente ter há muito perdido o comboio e viver fora dele em termos artísticos, implicam a realidade (não o realismo), mas a realidade como fonte segura de um referencial mesmo que criativo, acima dos estados e das excepções financeiras. Este é um tempo de bandeiras, do vermelho e do negro. Não pretendo, como certamente se pode observar, a realidade documental, que me parece aborrecida, ainda que possa ter sentido em certos contextos artísticos. Gostaria com o correr dos dias de atingir um nível de exigência do olhar sobre a qualidade do instantâneo.
Sentia-me muito mais feliz se existisse um movimento de ideias claras e transparentes, coisa que ultrapassasse as pudicas fronteiras do ser e do tempo. Uma coisa baseada na diferença e na liberdade.
Ou há canone, ou não há arte!
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Uma semana em Évora (1)
Tem sido uma semana e tanto. O outro amor da minha vida mudou-se para a Rua 5 de Outubro, em Évora. A porta já está aberta, as prateleiras estão já cheias de livros que tenho ajudado a organizar letra por letra os autores dos livros. A Fonte respira e vai ganhando vida, transpira novidades. Acho esta Fonte mais bonita que a original, apesar de na primeira ter lá nascido o meu filho, por morar lá o outro amor da minha vida. Não foi a vida que mudou, têm-nos feito mudar de vida. E a gente muda, enquanto as letras encherem fontes de torrentes de vida, a gente muda. Agora é Évora que é uma cidade bonita e cheia de japoneses.
Tem sido uma semana para não esquecer, passada entre parafusos e pó; vi arder, literalmente, uma aparelhagem que tocava um disco do Tartini. Hoje já não tenho pés que aguentem a ansiedade da abertura. Às portas do Giraldo, entre a Sé e o céu de Évora cheio de pássaros que não sei o nome, mora a nova Fonte de Letras. A porta tem o número 51.
(Nas vitrines), o Arcimboldi apareceu e ficou de um lado, no outro, a cabeça mecânica do Haussmann parece não querer sair dali. Isto promete.
As portas abrem, oficialmente, amanhã que é Sábado, dia 27 de Julho, às 18h
domingo, 14 de julho de 2013
O critico de arte (261)
O crítico de Arte, atarantado com a luz que emanava das coisas, vivia num jogo de sombras.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Carta ao Crato (260)
A forma como ouso tratar-te não é desrespeitosa, acredita. É para que melhor nos entendamos naquilo que te pretendo dizer. Sendo tu e eu ambos professores, teremos, certamente, muito em comum relativamente à profissão que exercemos; e é por isso que a ti me dirijo desta forma, colocando-te olhos nos olhos, à mercê do que te vou dizer, à altura exacta a que deveriam estar todos os professores deste país. Olhos nos olhos Nuno, nós nos teus e tu nos nossos.
Quero dizer-te que nunca vi no meu local de trabalho tão vivo sentimento de solidariedade entre os meus colegas professores. Como bem sabes, quando cheira a esturro, a classe docente tem por hábito unir-se. Mas, desta vez, estamos para além do espírito corporativo, ou da cega sensação de pertença a um grupo profissional. A experiência rara que vivemos tem uma razão. E eu vou-te dizer qual é: estamos unidos defendendo os nossos postos de trabalho. De facto, acredita que, a nossa luta, se resume simplesmente à defesa do direito ao trabalho.
Quero que saibas que não odiamos e que não queremos prejudicar nem alunos, nem o sistema de ensino, nem, tão pouco, o governo na pessoa deste ou daquele governante, ainda que tenhamos duras criticas a fazer-vos sobre a forma como tendes governado. Não somos descartáveis Nuno. Não se resolve um problema de má gestão despedindo indiscriminadamente quem tão diligentes provas tem dado no seu desempenho profissional.
Meu caro Nuno, como sei que és professor, tal como eu sou, tenho-me perguntado se poderás dormir tu descansado quanto te preparas, em nome do governo e de estranhíssimas instâncias internacionais, para executar o maior número de despedimentos entre os professores de que há memória em Portugal? Sabendo nós deste lado, que és, desse lado daí, também professor, custa-nos a acreditar que o teu sono possa ser sossegado.
Daqui te prometo o melhor que sei fazer, resiliência e dedicação.
Com os meus melhores cumprimentos.
José Miguel Gervásio
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Estar em greve. (259)
Distante do mundo é o lugar sem nome onde processo algumas coisas. Define-se em volta de um círculo de alfinetes este imaginado espaço. Tem uma rebelde fronteira que me recuso para já a cruzar. Saído dali sou outra pessoa mesmo que carregue nas mão vestígios do delicado trabalho de subir e descer para apanhar significativos e pérolas. Dali para fora sou outra coisa, aborreço-me. No limite do árduo, sonha-se, igualmente, bem. É por isso que não me interessa que ignorem o que faço, ou que não me entendam vizinhos e conhecidos. Incomoda-me estar ao mesmo nível da simplicidade e do agrado comum.
Apetece-me uma cerveja gelada enquanto percorro emoções a fio. Mas não tenho nem copos altos de beber cerveja, nem, tão pouco, à mão uma cerveja que se beba. Gosto de cerveja, entre outras coisas. Ainda por cima chove e, a esta hora, não haverá nada aberto em lado nenhum. Assim, satisfazer o meu desejo seria tarefa difícil. Para além de gostar de ouvir o barulho que a chuva faz ao bater nas folhas das árvores do terraço. A temperatura é amena e entra pela janela aberta o perfume da humidade.
Andei à procura de coisas que me permitissem começar o que pretendo dizer, enquanto tento esquecer a cerveja. Já dei, nesse sentido, meia dúzia de voltas ao texto. Encontrei ali, na estante dos livros, meia dúzia de mortos geniais cujas palavras poderiam dar forma ao que pretendo. Já foi tudo feito, e eu tenho uma boa parte desse feito em livros dos outros.
Hoje não haverá lugar para o tão conveniente e bem aceite meio termo. O tipo que pensa e que performa actos e gestos em função do que possam pensar outros tipos como ele, não terá hoje o dia facilitado. Hoje não será o dia de agradar infantilmente a todos. Hoje, ou se faz, ou se não faz greve. Sei que o dia de hoje será um pesadelo para quem gosta de agradar. Não se pode fazer a revolução com a foice e o martelo dos outros. Hoje decidiremos o lado em queremos estar. Ou estamos do lado lá, ou estamos do lado de cá.
Do lado de lá vive quem não tem pejo em alterar o que não lhe agrada em função dos objectivos que se pretende a atingir. Se for preciso alterar uma Lei altera-se e pronto. Torna-se legal aquilo que, até desvigorar a Lei anterior, era absolutamente legal.
Do lado de cá vive um morto de faces rosadas.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
Histórias Públicas...Mundos Privados (256)
Continua, no Módulo, Centro Difusor de Arte, em Lisboa, até 25 de Junho, Histórias Públicas...Mundos Privados.









