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Mensagens

Um porco numa casa cheia de hóspedes (255)

"Metafísica Dos Portões"Da série: miniaturas pintadas em forma de metafísica das coisas.Acrílico s/ madeira preparada, 37,5cm x 55 cm 2013. Durante a noite inventava nomes de coisas que sabia não existir. Mostrava-se com o mesmo cabelo do ano anterior e ouvia vozes que percorriam os corredores da casa. Bebia pequenas porções de chá e comia bolachas de sementes. Deus descia-lhe por uma orelha e juntos brincavam sobre a alcatifa da sala grande. Ela, no nome de outra pessoa, e Deus no papel de filho, viam juntos nascer o dia sempre que a noite se alongava. No momento de abrir as cortinas de folhos que cobriam as janelas e emudeciam o interior, caíam cansados numa cama de fogo e açoitavam-se com prazer.Postado com o Blogsy

Teimosia (254)

"A Liberdade guiando o povo nas dunas da Galé" "A Liberdade guiando o ovo nas dunas da Galé" "A Liberdade guinando o novo nas dunas da Galé"É um esboço, para uma coisinha maior. Lápis gordo e macio sobre papel fraquinho. 2012.Ontem não estive aqui. Conheço este sítio onde estou, mas não estive aqui no dia de ontem. Ou pelo menos não me lembro de ter estado. Por vezes, dado que são muito semelhantes os espaços e as pessoas, não me lembro de ter aqui realizado esta ou aquela acção. Como sou obrigado por uma força maior que a minha a vir para este local, tendo a esquecer-me de tudo. Isto aqui é um trabalho que eu tenho, que me paga as contas, e outras coisas que me habituei a utilizar. Muitas pessoas passam por aqui, parece que têm urgência em resolver assuntos, ou então passam por aqui por ficar no caminho. As pessoas passam por aqui, mas pelo lado de fora. Isto tem vidros e vê-se tudo lá fora, e eu trabalho aqui. Não gosto do trabalho que faço e por isso a…

KULTURA, e o caraças (253)

"A Paisagem Metafísica com Portões de Ferro". Miniatura pintada a acrílico sobre madeira preparada. 2013. Vi hoje a revista GRANTA. Vi, não li. Ou melhor, li mas não li muita coisa. Apenas umas linhas da primeira página à laia de me introduzir na revista. E lá fiquei na primeira página até ao fim do artigo (editorial), a pensar que revista tem pinta do ponto de vista gráfico; parece um livro, mas é uma revista. Engana. Mas só durante os primeiros minutos. Depois uma pessoa desengana-se e volta ao seu mundo. Foi o que me aconteceu, voltei ao sítio de onde tinha descido. Sabem, estava à espera de umas lâmpadas que haveriam de chegar da Bélgica, através de uma empresa que vende lâmpadas para os lados de Sintra. Uma caixa de luzinhas que serve para iluminar a Broadway, tal é a potência delas. Como as lâmpadas não chegavam encontrei no fim da GRANTA o Walter Hugo Mãe todo nu. Bom, é um tipo cheio de pêlos no corpo com cara de Walter Hugo Mãe todo nu. Felizmente as lâmpadas cheg…

O acto solitário de ver uma exposição sem companhia (252)

"A Filha do Chinês Diante do Lago de Todas as Palavras"Incluído na exposição colectiva "Histórias Públicas...Mundo Privados" Módulo, Centro Difusor de Arte, Lisboa. Num mundo assim podia eu viver. Ainda que fosse curta a duração da felicidade, limitada no tempo e reservada como na poesia que apenas aspira ao reconhecimento da alegria interior. Poucos partilham de tão elegante princípio que é este de ser servido pela liberdade. Num mundo assim podia eu viver. Num mundo melhor, foi o que quis dizer.Tenho dias em que me apetece subir de uma vez dez montanhas. É assim que hoje me sinto. E nesses dias, como hoje, pintar é irresistível. Mas nem sempre me sinto assim, dado que o subir implica o descer com a mesma capacidade. A viagem vertical faz-se nos dois sentidos e é interior. A par desta sensação, e de outra meia dúzia de coisas de que se esqueceu Kant, e que é sem dúvida uma outra forma de morrer, percorre-me na pele um formigueiro de coisas. Não haverá mais luz…

Os jacintos vivem em pratinhos (251)

Estranhas coisas nascem em estranhos sítios. São vistas a movimentarem-se pela casa fora, a deshoras e quando menos se espera. Postado com o Blogsy

"O cão dos De Colleville." (250)

Jean Baptiste Henri Deshayes De Colleville - A half-naked woman reclining together with a dog.Postado com o Blogsy

"E o cão, minha senhora, vesti-mo-lo com quê?"(249)

Arthur Devis - a completly naked woman being dressed by her maid and the gaping dog. Postado com o Blogsy

Marmeladinha (248)

Carvalhus Carvalhus (Espécie latina de caralho, muito apreciada na antiguidade clássica, e noutros tempos mais pós-modernos). Apetece-me marmelada. Quero dizer, doce de fruta, compota de marmelos. Mas já não tenho, comeu-se quando foi tempo dela, e no super-mercado não compro. Estou azedo, é por isso.Acordei hoje para o lado da bicicleta, a pensar subir o lado nascente dos Pirinéus. E partia daqui feliz, acreditem,da saloiada, até onde as pernas me permitissem levar uma ideia. E fazia-o não fosse outra coisa que me prende. É uma prisão viver de sonhos neste país. Estes nossos sonhos, vivem-se, infelizmente, do lado de fora. O efeito mecânico de pedalar, associado a uma cadência constante, traz-me sempre novidades. Ideias arejadas multiplicam-se na paisagem ao selim. Somando-se ao que exactamente ainda não é, ao que está para ser, mas mais à frente. Voltaria se voltasse.Logo pela manhã o dia foi um jorro de luz que me entrou pela janela do quatro. Juntou-se aos espirros, aos pássaros, …

O olho da esquerda tem andado vermelho (247)

Ela um dia fartou-se de pôr à janela bandeiras ao vento e comeu uma perna ao Goya. Comeu-lhe uma perna que viu num retrato pintado, num livro que tinha imagens de violência e guerra. Um livro muito velho que falava de uma guerra que lhe tinham falado os velhos da sua aldeia. Um que tinha um livro de fotografias de pinturas era o que lhe falava do tal Goya. Ela comeu-lhe uma perna feita de papel.Postado com o Blogsy

A mãe dele foi ao leite e disse-lhe que voltava já (246)

Burra-bolha (245)

Ladrilhos de Abril (244)

As plantas nascem onde querem (242)

O homem do chapéu de feltro (241)

Chá verde (240)

A santa do skate ia lá casa pela Páscoa (239)

Quando chegava aquele fraterno tempo de nozes e azevias, a Santa dos Rolamentos pegava no seu skate e percorria meio país até chegar a casa das pessoas. E chegando, sentava-se logo à mesa e ouvia-os enquanto comia e bebia. Não lhe davam tréguas e queixavam-se dos males do corpo e de todas as dores que os tinham afligido o ano inteiro. Os sofrimentos saíam dos baús como as restantes relíquias da família e apareciam a brilhar nos distintos peitos das tias, nos pulsos dos tios, nos decotes das afilhadas e dos restante elementos comensais que se juntavam a comemorar a efeméride. Era um ai Jesus, sentados à mesa do fartote, com a Santa a comer e a beber. Copos de vinhos e fazendas caras de fazer fatinhos, doces feitos com a mesma mão que fazia a caridade de limpar os cus dos que o já não podiam limpar. E quanto à Santa, se não estava a comer ou a beber, estava, certamente, a dormir no sofá de veludo vermelho, ou a olear as rodas do skate, ou a ouvi-los com tudo aquilo que traziam na alma.…

I la nave va (238)

No Gato Vadio não cheguei a ler o "Le chien qui fume". Deveria tê-lo lido por ser uma coisa do Porto. Fica para a próxima.Obrigado aos amigos.Postado com o Blogsy

Fazer render o peixe (237)

Navio parte hoje para o Porto. Já deveria estar na estrada, em andamento, a rolar rumo ao Porto. Mas ainda aqui estou.Navio apresenta-se no Porto, no Gato Vadio, às 17h. Amigos.Vou ler o texto do meu amigo Luis Serra sobre o livro Navio.E la nave vaLuis Serra1.Se apresentar um livro é difícil, apresentar um livro de poesia é muito mais. Hannah Harendt, num ensaio incluído em Homens em Tempos Sombrios, escreve, com exactidão, “falar dos poetas é uma tarefa incómoda; os poetas são para os citarmos, e não para falarmos deles.”Imagino quase sempre o público destas sessões de apresentação, dizendo entre dentes em direcção ao orador: “diz qualquer coisa de original, diz qualquer coisa de original”, e penso no Nanni Moretti (num dos seus filmes) em frente à televisão: “diz qualquer coisa de esquerda, diz qualquer coisa de esquerda” D' Alema di' una cosa di sinistra. Mas, convenhamos, dizer qualquer coisa de esquerda, sobretudo hoje, é mais fácil do que dizer alguma coisa de original …

Cartas do vale às coisas que sei (236)

Queridas pedras. Fiquei outra vez por aqui. Não me mexi a manhã toda. Um centímetro sequer para matar a sede ou realizar outro assunto do desejo. Não, não é verdade. Andei pela casa e fui até à varanda de onde melhor se avista o vale. Mas as nuvens tomaram-lhe a garganta toda, fazem da paisagem um buraco cinzento e sem fundo. Afundam-se pela terra adentro, parecendo levar consigo as coisas do mundo nas correntes de ar onde circulam. Não se vê mais nada. Virão flores, estou certo disso. Postado com o Blogsy