Quando chegava aquele fraterno tempo de nozes e azevias, a Santa dos Rolamentos pegava no seu skate e percorria meio país até chegar a casa das pessoas. E chegando, sentava-se logo à mesa e ouvia-os enquanto comia e bebia. Não lhe davam tréguas e queixavam-se dos males do corpo e de todas as dores que os tinham afligido o ano inteiro. Os sofrimentos saíam dos baús como as restantes relíquias da família e apareciam a brilhar nos distintos peitos das tias, nos pulsos dos tios, nos decotes das afilhadas e dos restante elementos comensais que se juntavam a comemorar a efeméride. Era um ai Jesus, sentados à mesa do fartote, com a Santa a comer e a beber. Copos de vinhos e fazendas caras de fazer fatinhos, doces feitos com a mesma mão que fazia a caridade de limpar os cus dos que o já não podiam limpar. E quanto à Santa, se não estava a comer ou a beber, estava, certamente, a dormir no sofá de veludo vermelho, ou a olear as rodas do skate, ou a ouvi-los com tudo aquilo que traziam na alma. Escutava de boca cheia as mazelas de domínio geral, os padecimentos e as perdas, os suspiros variados e assimétricos, as pequenas enfermidades de borbulhagem e o resto que são as cores com que os outros os pintavam. Ah, a família desfrutava da quadra feliz e a santa que gostava de sopa de peru, esticava o pucarinho com um sorriso avermelhado de satisfação a pedir mais. E figos, ainda os há? Perguntava a rematar.
No Gato Vadio não cheguei a ler o "Le chien qui fume". Deveria tê-lo lido por ser uma coisa do Porto. Fica para a próxima.
Obrigado aos amigos.
Navio parte hoje para o Porto. Já deveria estar na estrada, em andamento, a rolar rumo ao Porto. Mas ainda aqui estou.
Navio apresenta-se no Porto, no Gato Vadio, às 17h. Amigos.
Vou ler o texto do meu amigo Luis Serra sobre o livro Navio.
E la nave va
Luis Serra
1.Se apresentar um livro é difícil, apresentar um livro de poesia é muito mais. Hannah Harendt, num ensaio incluído em Homens em Tempos Sombrios, escreve, com exactidão, “falar dos poetas é uma tarefa incómoda; os poetas são para os citarmos, e não para falarmos deles.”
Imagino quase sempre o público destas sessões de apresentação, dizendo entre dentes em direcção ao orador: “diz qualquer coisa de original, diz qualquer coisa de original”, e penso no Nanni Moretti (num dos seus filmes) em frente à televisão: “diz qualquer coisa de esquerda, diz qualquer coisa de esquerda” D' Alema di' una cosa di sinistra. Mas, convenhamos, dizer qualquer coisa de esquerda, sobretudo hoje, é mais fácil do que dizer alguma coisa de original sobre um livro de poesia.
A um livro de poesia só se pode responder, como toda a gente sabe, poeticamente. O ensaísmo e os seus avatares são sempre um pouco penetras na wild party que pode ser a poesia.
2. Dito isto, perguntemo-nos, o livro do José Miguel Gervásio, Navio, tem ou não tem? Tem. O quê? Swing. Não é um livro de pensamentos, mas antes um livro onde, em primeiro lugar, se tenta cumprir um conselho do Marquês de Sade (Sobre os Romances): não ponhas a tua palidez naquilo que escreves. Mas isso não quer dizer que estes textos não estejam carregadinhos de melancolia. Só que esta é ultrapassada pela direita por um desassossego que convoca Kerouak ou Baudelaire. O JMG, que costuma dizer-se muito da Abissínia da Fonseca (Fonseca é um dos outros apelidos do JM), sabe, como Rimbaud, que “o mais provável é que uma pessoa vá para onde não quer, que faça o que não queria, e viva e morra de um modo totalmente diferente do que sempre desejou”(Cartas da Abissínia, & etc,p.76), mas não desiste de ser na literatura, na pintura e etc, “a vizinha louca como uma rainha distraída que tece à porta de casa um pano vermelho sem fim”(p.16, Navio).
3. A bordo deste navio vai muita bicharada¸ mas destaca-se a presença do cão, que imediatamente associo a Diógenes, o cínico, e à sua escola de liberdade, de recusa do poder, de apologia da margem. Todos os poetas são cães vadios:
- p. 13, Pulgas;
- p. 40,Olho de Cão;
- p.50, Não ser à sombra das oliveiras.
Portanto, ser à margem: recusa do desejo de poder.
No entanto, não se recusa aqui o poder do desejo, havendo nestes textos lugar para o amor aos próximos ( e é aí que entra também a melancolia), não ao próximo (nada de beatices!), que perdemos e vamos perder.
Um dos textos mais tocantes que estão na esfera desta melancolia é o da -p. 25, Coscorões e mel dos mortos
O que é dito e o que não é dito, neste livro, comove.
4. Para concluir: a poesia do JM tem uma qualidade, que é ser poesia. Cesari Pavesi dizia que a poesia tinha começado quando um tipo chegou ao pé do mar e disse: parece azeite. As palavras, nos textos do JM, estão combinadas de tal forma, ou desconcertadas de tal forma, que delas se desprendem a energia e a vivacidade que nos permitem vislumbrar “o que falta para tocar o fundo”( Herberto Hélder). Como num filme do Fellini, la nave va, poeticamente: não há aqui prosa disfarçada de poesia, apesar dos textos terem, quase todos, a forma de prosa.
Voltando à imagem do azeite, e para terminar, se este livro fosse azeite seria um azeite que sabia a azeite, não um desses azeites extra-extra virgens feitos para quem não gosta de azeite.
Queridas pedras.
Fiquei outra vez por aqui. Não me mexi a manhã toda. Um centímetro sequer para matar a sede ou realizar outro assunto do desejo. Não, não é verdade. Andei pela casa e fui até à varanda de onde melhor se avista o vale. Mas as nuvens tomaram-lhe a garganta toda, fazem da paisagem um buraco cinzento e sem fundo. Afundam-se pela terra adentro, parecendo levar consigo as coisas do mundo nas correntes de ar onde circulam. Não se vê mais nada. Virão flores, estou certo disso.