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Mensagens

Dining at Mekong's, London, UK (235)

Querida Tarantantan.Não sei se sobre o vale acontecerá a aberta que tanto desejo, para que se afastem as nuvens, para o ver florido. Anseio por essa espécie de Primavera, sabendo de antemão que logo virá o estio e a seguir o Outono. Ainda que quase tudo passará a um outro ciclo de vida que tão bem conhecemos, fazia-me falta esse estado de natureza mais ameno, ainda que verde. Mas o tempo apresenta-se alterado, com ligeiras diferenças, relativamente ao dia de ontem. Menos frio, apesar da humidade que se entranha no corpo. Passei parte da manhã a ver nuvens no céu. É rio aquilo que corre lá em cima em direcção ao vale de que te tenho falado que vejo à janela. Cheguei mesmo a pegar numa fita métrica e a medi-las à medida que passavam. Sabias que algumas medem mais de 60 cm, por 30 de largura? É um espanto a natureza que aqui se pode observar.Postado com o Blogsy

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Querida prima. Acordei bem disposto apesar do acidente de ontem. Abri os olhos com o cantar dos pássaros que aqui são muitos e cantam-me à janela do quarto. Por vezes até entram pelo quarto, apesar de lhes ter dado ordens no sentido de o não fazerem. Gosto, como bem sabes, dormir até tarde. Mas, como deves calcular, não consigo fazer-me ouvir a todos os pássaros que há por aqui. Nem imaginas quantos são. Por isso, hoje, deixei que me acordassem para não lhes interromper o guizo. Saltei da cama e dei comigo pelo corredor verde até à casa de banho e em chinelos de quarto. Pus sem demoras a água quente a correr no lavatório. Fiz outras necessidades, enquanto a água corria. Barbei-me e imaginei que pintava um retrato meu. Fiz poses e carantonhas como se fosse um homem louco. Espalhei a espuma no rosto, na cabeça erma e vi-me neste preparos ao espelho. Fiz riscos na espuma branca. Mando-te uma fotografia que tirei da minha cara naquele estado Amanhã hei-de ir até à cidade buscar outro par …

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Querida prima. Hoje cortei um dedo ao pequeno almoço. Logo pela manhã a passar manteiga nas torradas a faca afiada veio beijar-me com suavidade a pele e sangrei desalmadamente. Fiz um curativo, acabei o jejum e dirigi-me à janela que dá para o quintal. Lá em baixo passava um pastor e o rebanho. O pastor acenou-me. Sou dele conhecido, costumamos conversar na rua quando nos cruzamos entre as cabras que guarda. Dei sem grande história uma volta pelas redondezas. Do campo vê-se um vale e apetece ir mais longe, mas a chuva que tem caído com abundância não me encorajou. A humidade destes dias desagrada-me. Voltei a casa e pintei um jacinto antes da hora do almoço. Postado com o Blogsy

233

Tenho no corpo oito coisas de cada vez e um fio de cabelo que não me pertence. Certa vez deram-me uma orelha, ou terei pedido emprestada para usar três na cabeça, e não duas. Veio junto com um sorriso e selos de correio, postais e envelopes. Vou escrevendo. Dou novidades.Postado com o Blogsy

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Querida prima, depois da diarreia de ontem não me consigo mexer. Dói-me o cu todo e mal consigo andar. Tenho ingerido a conselho médico muitos líquidos, e feito autênticas purgas de jejum. Água e mais água e coisas grelhadas que me sabem mal. Alimento-me das vistas do sítio onde estou, destes vales, e das nuvens que parecem inofensivas baleias do céu. Tenho estado sentado sabes onde? Perto de um prado que começa a encher-se de flores. Hoje choveu e caminhei utilizando um caminho entre as ervas altas e agora estou sentado aí, nesse sítio que te digo. Estou a ouvir o cantar das cobras que tem a forma de um silêncio de vidro, muito delicado e facilmente quebrável. Escrevo-te amanhã novamente, pela hora do entardecer a dar novas do meu estado de saúde.
Postado com o Blogsy

231

Aviso à navegação e ao público amigo em geral.Estão todos convidados. Vai ser uma festa. Prometo que vai. E quando digo todos, quero mesmo dizer todos. Todos, com uma pequena excepção. Uma coisa de circunstância, um detalhe que caracteriza a excepção e que não vou com ele agora perder tempo. Todos são todos, e pronto. Por isso digam de boca em boca, ou gritem alto, façam como queriam. Digam por aí que vai haver festa na Fonte de Letras. O artista/ poeta é da casa e apresenta-se na sua única primeira pessoa.Estão todos convidados, volto a dizer. É a festa oficial do lançamento do NAVIO à água. É verdade, o barquito parte no Domingo, dia 24 de Fevereiro. Espera-se que parte bem. NAVIO é uma edição &etc. A &etc é uma casa antiga recheada de artistas, poetas e escritores. Todos marinheiros de primeira qualidade. Talvez consiga arrancar o Vitor Tavares, editor de cânones e sinfonias literárias da Rua da Emenda. Talvez o consiga trazer, do conforto de Lisboa, até à Fonte do Alentejo…

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Ao 18º dia, desenvaginadas, surgiram dos destroços as duas pérolas da tripulação. Miss I, enfermeira espacial, e Paula Bushenkova, cosmonauta especialista em comunicações inter-planetárias. No momento da explosão que se seguiu ao embate, estavam em hiper-hibernação nas cápsulas de sono. Herméticos e perfeitos, os casulos protegeram-nas, escapando ilesas do choque, do incêndio de grandes proporções, da destruição generalizada. Quando apareceram na frente do Capitão Flint que se esforçava por manter a moral dos companheiros ao nível do aceitável, nasceu um momento de esperança. A súbita alegria do reencontro contaminou os corações de plástico dos imediatos e do sargento especialista. O olhar de Flint brilhou no negrume da situação. A esperança espalhou-se viral. Trocaram beijos, abraços e palavras de conforto espacial ainda que, no íntimo de cada um, pairasse o espectro da condenação.Paula Bushenkova entrou rapidamente no espírito que é necessário para construir uma equipa vencedora. Na…

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Navio largou hoje de Lisboa, dia 30 de Janeiro. O Vitor Silva Tavares enviou-me por correio azul, embalagem postal, os primeiros 10 exemplares saídos da Minerva. Parece que está muito bonito, disse-me pelo telefone. Está bonito por dentro e por fora. Quando se abre tem entre os desenhos poesia lá dentro. É uma caixa de música. Parece-me uma caixa de música.Quem quer um, quem quer? Postado com o Blogsy

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Ao fim do dia, sem esperança de encontrar uma pedra de sal, uma gota de água que fosse para além da imensidão de plástico, regressaram aos destroços da nave. O capitão Flint, que usava uma tampa vermelha na cabeça, na companhia dos seus dois imediatos, o tenente George Eucalipto e o mais-que-tenente Alves Brick, acercou-se do sargento especialista Joe Gold Caparica. O tenente Alves Brick estava exausto, tinha sede e já quase não se tinha de pé. Desde os tempos da academia que sofria de uma espécie de cegueira histérica que se manifestava nos momentos de aflição. Via apenas sombras e procurava desesperado a origem dos sons para se orientar. O pequeno robot de serviço estava completamente destruído, sem hipótese de concerto. No rosto inexpressivo do racional George, escrito a silêncio, era visível o anunciar da tragédia. Joe Gold Caparica perdera um braço durante a aterragem forçada, decepado numa porta automática de emergência. Esforçava-se por concertar o astro-rádio com a mão útil.…

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Depois daquela entrada descontrolada na atmosfera a nave embateu com estrondo na superfície deserta do planeta. Uma coluna de fumo assinalava o local. Estavam perdidos. O Capitão Flint não o escondia. Agora lutavam contra os elementos na planície de plástico que se estendia interminável e azul cinzenta. Para manter o equilíbrio mental necessário à sobrevivência, Flint assobiava. Partiram dos destroços tomando uma direcção incerta e fazia tempo que caminhavam sem esperança de encontrar socorro. O Capitão Flint que era um tipo alto que usava uma tampa vermelha na cabeça, disse a certa altura para os outros, dificilmente encontraremos o caminho de regresso. O mais baixo, o sargento especialista Joe Gold Caparica e o pequeno robot de seerviço que usava os braços em cruz, concordaram.Flint que procurava manter a cabeça fria, observava uma e outra vez o horizonte, e determinava o melhor percurso. Os companheiros de aventura seguiam-no em silêncio. Tinham aterrado na planície da morte.�����…

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A filha dos embaixadores

Postado com o Blogsy

227

Primeiro foi aquilo tudo. Palavra atrás de palavra. Rescrevi duma assentada um oceano de coisas. E li tudo, uma vez e outra vez, até que as palavras já se liam por si. Fiquei zonzo e ninguém deu conta disso, com cara de letra e cheio de sede aguentei-me numa dieta parca para não perder o tino com coisas desnecessárias. Matava a sede apenas aos Domingos, fazendo da secura um acto artístico. Depois, tratei de enroupar os pequenos contos e dar-lhes um nome de acordo com o seu corpo. E o ensaio foi difícil, quase Deleuziano. Pretendi ser o momento. Tudo é momento, ou tratável como um momento, como se não existisse mais nada, nem o depois, nem o antes. Vivi, assim, cada momento ainda que não saiba exactamente o quê. Aprendi que quando se presencia a acção já não estamos no bosque, mas sim na sua orla e é possível ver as montanhas e os caminhos. Obsessivamente, tratei de cada coisa no seu poiso e pretendi nesse outro momento transformar tudo numa imagem. A essência em ar respirável, pesei-…

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Eles abriram a porta que dava para o quintal. O ar tinha sido aromatizado pelo zimbro, pelo rosmaninho e outras flores do tempo. À porta já lá estava o tio mais velho a fumar. Usava um desportivo cachecol vermelho com insígnias e segurava um cão de caça pela trela. O cão obediente estava sentado. O campo recebeu-os a todos com um olhar invernoso. Cumprimentaram-se e puseram-se a caminho. Contornaram o monte de lenha que havia em frente à casa e subiram até ao topo de uma elevação entre as árvores despidas de folhagem. Em casa ficaram a Demetilia e as criadas. A Demetilia andava atarefada guardando desejos em frascos de vidro. Colava-lhes rótulos onde escrevia rigorosamente datas e outras referências. Rolhava-os com precisão e dava ordens para que os guardassem na despensa fria. Dizia, comem-se quando chegar o Verão. Bandos de pintassilgos voavam pela casa entre a cozinha e uma enorme sala que existia no piso térreo.Quando ao fim da tarde Demetilia se entretinha com preparos de iguaria…

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Há uns tipos que conduzem uns carros que são a cara deles. São desportivos tipo o carro deles, cheios de marcas e tiques nas mangas e que conduzem pelas veredas da vida com ar profissional de piloto de automóveis. Há uns tipos assim que eu não gramo e que conhecem os carros todos pelo nome.

O gato já não mora aqui não por causa dos carros dos outros. Tem muito pêlo. Tem farto de pêlo de fazer comichão. As mãos ficam vermelhas de fazer festas ao gato, nascem flores e bolores, crescem raminhos de erva de S. João, brotam bétulas e azeitonas vindas dos confins da pele das mãos, rebenta a alfavaca. O gato faz comichão ao pequeno marinheiro e foi, por isso, morar para o terraço. Não temos quem nos diga as horas.

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O capitão do Navio tem andado de bar em bar.Postado com o Blogsy

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nada de novo... repete-se a história de todos os anos.Postado com o Blogsy

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O Vocabulário da Lua. Postado com o Blogsy

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Um tipo qualquer.

Um dia qualquer um tipo qualquer com sapatos.

Na cabeça uma coisa qualquer, provavelmente uma ideia atrás da outra.

A vida que me sabe tão bem a bife panado desprende-se até à hora de me deitar.

É mais ou menos directo.



Postado com o Blogsy

221

Eles estavam sentados os dois perto de um grande reservatório de água.É um autêntico espelho - disse um deles.O outro nada disse.Caminharam pela beira do lago.O lado de lá fica longe - disse um deles.O outro continuou calado.Eles continuaram durante um dia e uma noite sem parar.Até que pararam e desistiram da ideia de alcançar o outro lado.Havia uma árvore nesse sítio amigável.Verteram mel nas mãos e separam-se.Eles nunca mais se viram.Postado com o Blogsy

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Levo uma ideia na cabeça.

Deito-lhe água por cima.

Verto mel lá para dentro.

Vou respirar o mais lentamente que conseguir.

Não vou ler mais nada daquela linha para lá.

Ser do vermelho, e das outras cores, sem receio.

Trazer a pele à superfície.

Verto mel outra vez.

Bebo água.

Respiro.

Dos passos.

Passeio num quintal arborizado.

Deito o olhar.

Desvio o olhar.

Dou passos e pergunto quanto é.

Safo-me mal.

Pede-me uma moeda.

Não dou moedas.

Um sorriso serve?

Sigo por ali, antes de lá chegar volto para trás.

Pede-me uma moeda outra vez.

Não tenho moedas.

Vou por outro sítio para onde quero ir.

Dou passos pesados.



Postado com o Blogsy