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Mensagens

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Querida prima. Acordei bem disposto apesar do acidente de ontem. Abri os olhos com o cantar dos pássaros que aqui são muitos e cantam-me à janela do quarto. Por vezes até entram pelo quarto, apesar de lhes ter dado ordens no sentido de o não fazerem. Gosto, como bem sabes, dormir até tarde. Mas, como deves calcular, não consigo fazer-me ouvir a todos os pássaros que há por aqui. Nem imaginas quantos são. Por isso, hoje, deixei que me acordassem para não lhes interromper o guizo. Saltei da cama e dei comigo pelo corredor verde até à casa de banho e em chinelos de quarto. Pus sem demoras a água quente a correr no lavatório. Fiz outras necessidades, enquanto a água corria. Barbei-me e imaginei que pintava um retrato meu. Fiz poses e carantonhas como se fosse um homem louco. Espalhei a espuma no rosto, na cabeça erma e vi-me neste preparos ao espelho. Fiz riscos na espuma branca. Mando-te uma fotografia que tirei da minha cara naquele estado Amanhã hei-de ir até à cidade buscar outro par …

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Querida prima. Hoje cortei um dedo ao pequeno almoço. Logo pela manhã a passar manteiga nas torradas a faca afiada veio beijar-me com suavidade a pele e sangrei desalmadamente. Fiz um curativo, acabei o jejum e dirigi-me à janela que dá para o quintal. Lá em baixo passava um pastor e o rebanho. O pastor acenou-me. Sou dele conhecido, costumamos conversar na rua quando nos cruzamos entre as cabras que guarda. Dei sem grande história uma volta pelas redondezas. Do campo vê-se um vale e apetece ir mais longe, mas a chuva que tem caído com abundância não me encorajou. A humidade destes dias desagrada-me. Voltei a casa e pintei um jacinto antes da hora do almoço. Postado com o Blogsy

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Tenho no corpo oito coisas de cada vez e um fio de cabelo que não me pertence. Certa vez deram-me uma orelha, ou terei pedido emprestada para usar três na cabeça, e não duas. Veio junto com um sorriso e selos de correio, postais e envelopes. Vou escrevendo. Dou novidades.Postado com o Blogsy

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Querida prima, depois da diarreia de ontem não me consigo mexer. Dói-me o cu todo e mal consigo andar. Tenho ingerido a conselho médico muitos líquidos, e feito autênticas purgas de jejum. Água e mais água e coisas grelhadas que me sabem mal. Alimento-me das vistas do sítio onde estou, destes vales, e das nuvens que parecem inofensivas baleias do céu. Tenho estado sentado sabes onde? Perto de um prado que começa a encher-se de flores. Hoje choveu e caminhei utilizando um caminho entre as ervas altas e agora estou sentado aí, nesse sítio que te digo. Estou a ouvir o cantar das cobras que tem a forma de um silêncio de vidro, muito delicado e facilmente quebrável. Escrevo-te amanhã novamente, pela hora do entardecer a dar novas do meu estado de saúde.
Postado com o Blogsy

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Aviso à navegação e ao público amigo em geral.Estão todos convidados. Vai ser uma festa. Prometo que vai. E quando digo todos, quero mesmo dizer todos. Todos, com uma pequena excepção. Uma coisa de circunstância, um detalhe que caracteriza a excepção e que não vou com ele agora perder tempo. Todos são todos, e pronto. Por isso digam de boca em boca, ou gritem alto, façam como queriam. Digam por aí que vai haver festa na Fonte de Letras. O artista/ poeta é da casa e apresenta-se na sua única primeira pessoa.Estão todos convidados, volto a dizer. É a festa oficial do lançamento do NAVIO à água. É verdade, o barquito parte no Domingo, dia 24 de Fevereiro. Espera-se que parte bem. NAVIO é uma edição &etc. A &etc é uma casa antiga recheada de artistas, poetas e escritores. Todos marinheiros de primeira qualidade. Talvez consiga arrancar o Vitor Tavares, editor de cânones e sinfonias literárias da Rua da Emenda. Talvez o consiga trazer, do conforto de Lisboa, até à Fonte do Alentejo…

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Ao 18º dia, desenvaginadas, surgiram dos destroços as duas pérolas da tripulação. Miss I, enfermeira espacial, e Paula Bushenkova, cosmonauta especialista em comunicações inter-planetárias. No momento da explosão que se seguiu ao embate, estavam em hiper-hibernação nas cápsulas de sono. Herméticos e perfeitos, os casulos protegeram-nas, escapando ilesas do choque, do incêndio de grandes proporções, da destruição generalizada. Quando apareceram na frente do Capitão Flint que se esforçava por manter a moral dos companheiros ao nível do aceitável, nasceu um momento de esperança. A súbita alegria do reencontro contaminou os corações de plástico dos imediatos e do sargento especialista. O olhar de Flint brilhou no negrume da situação. A esperança espalhou-se viral. Trocaram beijos, abraços e palavras de conforto espacial ainda que, no íntimo de cada um, pairasse o espectro da condenação.Paula Bushenkova entrou rapidamente no espírito que é necessário para construir uma equipa vencedora. Na…

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Navio largou hoje de Lisboa, dia 30 de Janeiro. O Vitor Silva Tavares enviou-me por correio azul, embalagem postal, os primeiros 10 exemplares saídos da Minerva. Parece que está muito bonito, disse-me pelo telefone. Está bonito por dentro e por fora. Quando se abre tem entre os desenhos poesia lá dentro. É uma caixa de música. Parece-me uma caixa de música.Quem quer um, quem quer? Postado com o Blogsy