sexta-feira, 8 de março de 2013

234

 

Querida prima. Acordei bem disposto apesar do acidente de ontem. Abri os olhos com o cantar dos pássaros que aqui são muitos e cantam-me à janela do quarto. Por vezes até entram pelo quarto, apesar de lhes ter dado ordens no sentido de o não fazerem. Gosto, como bem sabes, dormir até tarde. Mas, como deves calcular, não consigo fazer-me ouvir a todos os pássaros que há por aqui. Nem imaginas quantos são. Por isso, hoje, deixei que me acordassem para não lhes interromper o guizo. Saltei da cama e dei comigo pelo corredor verde até à casa de banho e em chinelos de quarto. Pus sem demoras a água quente a correr no lavatório. Fiz outras necessidades, enquanto a água corria. Barbei-me e imaginei que pintava um retrato meu. Fiz poses e carantonhas como se fosse um homem louco. Espalhei a espuma no rosto, na cabeça erma e vi-me neste preparos ao espelho. Fiz riscos na espuma branca. Mando-te uma fotografia que tirei da minha cara naquele estado

Amanhã hei-de ir até à cidade buscar outro par de meias de lã que faz muito frio e ando com dificuldade em manter os pés quentes.

 

233

Querida prima. Hoje cortei um dedo ao pequeno almoço. Logo pela manhã a passar manteiga nas torradas a faca afiada veio beijar-me com suavidade a pele e sangrei desalmadamente. Fiz um curativo, acabei o jejum e dirigi-me à janela que dá para o quintal. Lá em baixo passava um pastor e o rebanho. O pastor acenou-me. Sou dele conhecido, costumamos conversar na rua quando nos cruzamos entre as cabras que guarda. Dei sem grande história uma volta pelas redondezas. Do campo vê-se um vale e apetece ir mais longe, mas a chuva que tem caído com abundância não me encorajou. A humidade destes dias desagrada-me. Voltei a casa e pintei um jacinto antes da hora do almoço.

quarta-feira, 6 de março de 2013

233

Tenho no corpo oito coisas de cada vez e um fio de cabelo que não me pertence. Certa vez deram-me uma orelha, ou terei pedido emprestada para usar três na cabeça, e não duas. Veio junto com um sorriso e selos de correio, postais e envelopes. Vou escrevendo. Dou novidades.

 

terça-feira, 5 de março de 2013

232

Querida prima, depois da diarreia de ontem não me consigo mexer. Dói-me o cu todo e mal consigo andar. Tenho ingerido a conselho médico muitos líquidos, e feito autênticas purgas de jejum. Água e mais água e coisas grelhadas que me sabem mal. Alimento-me das vistas do sítio onde estou, destes vales, e das nuvens que parecem inofensivas baleias do céu. Tenho estado sentado sabes onde? Perto de um prado que começa a encher-se de flores. Hoje choveu e caminhei utilizando um caminho entre as ervas altas e agora estou sentado aí, nesse sítio que te digo. Estou a ouvir o cantar das cobras que tem a forma de um silêncio de vidro, muito delicado e facilmente quebrável. Escrevo-te amanhã novamente, pela hora do entardecer a dar novas do meu estado de saúde.

 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

231

 

Aviso à navegação e ao público amigo em geral.

Estão todos convidados. Vai ser uma festa. Prometo que vai. E quando digo todos, quero mesmo dizer todos. Todos, com uma pequena excepção. Uma coisa de circunstância, um detalhe que caracteriza a excepção e que não vou com ele agora perder tempo. Todos são todos, e pronto. Por isso digam de boca em boca, ou gritem alto, façam como queriam. Digam por aí que vai haver festa na Fonte de Letras. O artista/ poeta é da casa e apresenta-se na sua única primeira pessoa.

Estão todos convidados, volto a dizer. É a festa oficial do lançamento do NAVIO à água. É verdade, o barquito parte no Domingo, dia 24 de Fevereiro. Espera-se que parte bem.

NAVIO é uma edição &etc. A &etc é uma casa antiga recheada de artistas, poetas e escritores. Todos marinheiros de primeira qualidade. Talvez consiga arrancar o Vitor Tavares, editor de cânones e sinfonias literárias da Rua da Emenda. Talvez o consiga trazer, do conforto de Lisboa, até à Fonte do Alentejo. Navio está um livrivrinho bonito, quase metafísico e que se inscreve com gosto no idioma da poesia.

Mas a vamos a factos, no tal Domingo, nesse dia 24, à festa na livraria mais bonita MUNDO. Vamos lançar o NAVIO contra a corrente da vida. Espera-se bom tempo na costa, dado que a coisa feita de poesia como é, torna-se frágil e, por vezes, estas coisas voltam-se de borco.

Lá vos espero, no dia 24 de Fevereiro, na Fonte de Letras, às 5 de la tarde, eu, Capitão de mar e guerra, piloto experimentado em travessias perigosas e embarcações de recreio, e o meu amigo Luis Serra como primeiro imediato, conhecedor da palma da mão e de outros trilhos secretos que eu cá sei.

Lá vos esperamos. A vida é uma aventura. E eu gosto dela assim.

 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

232

Ao 18º dia, desenvaginadas, surgiram dos destroços as duas pérolas da tripulação. Miss I, enfermeira espacial, e Paula Bushenkova, cosmonauta especialista em comunicações inter-planetárias. No momento da explosão que se seguiu ao embate, estavam em hiper-hibernação nas cápsulas de sono. Herméticos e perfeitos, os casulos protegeram-nas, escapando ilesas do choque, do incêndio de grandes proporções, da destruição generalizada. Quando apareceram na frente do Capitão Flint que se esforçava por manter a moral dos companheiros ao nível do aceitável, nasceu um momento de esperança. A súbita alegria do reencontro contaminou os corações de plástico dos imediatos e do sargento especialista. O olhar de Flint brilhou no negrume da situação. A esperança espalhou-se viral. Trocaram beijos, abraços e palavras de conforto espacial ainda que, no íntimo de cada um, pairasse o espectro da condenação.

Paula Bushenkova entrou rapidamente no espírito que é necessário para construir uma equipa vencedora. Na academia de altos estudos espaciais formara-se com as melhores classificações, era uma mulher cheia de boa energia, e quando se empenhava a expressão do seu corpo espelhava o frémito do desejo, borbulhando de entusiasmo perante as dificuldades. Concertou num ápice o pequeno robot de serviço, substituindo-lhe os módulos queimados por novos que conseguiu montar a partir dos destroços da nave. Recuperou numa noite de trabalho a torre de telecomunicações, e encontrou forma de canalizar a energia das baterias da nave para a pôr a funcionar.

Miss I improvisou uma sala de operações e coseu o braço perdido de Joe Gold Caparica. Flint recuperava de um estado de melancolia profundo e voltava a comandar como se conhecera. Os imediatos, a postos, recolhiam peças dos destroços para construir um rover lunar que os levasse ao encontro da salvação.

 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

231

 

Navio largou hoje de Lisboa, dia 30 de Janeiro. O Vitor Silva Tavares enviou-me por correio azul, embalagem postal, os primeiros 10 exemplares saídos da Minerva. Parece que está muito bonito, disse-me pelo telefone. Está bonito por dentro e por fora. Quando se abre tem entre os desenhos poesia lá dentro. É uma caixa de música. Parece-me uma caixa de música.

Quem quer um, quem quer?

 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

230

Ao fim do dia, sem esperança de encontrar uma pedra de sal, uma gota de água que fosse para além da imensidão de plástico, regressaram aos destroços da nave. O capitão Flint, que usava uma tampa vermelha na cabeça, na companhia dos seus dois imediatos, o tenente George Eucalipto e o mais-que-tenente Alves Brick, acercou-se do sargento especialista Joe Gold Caparica.
O tenente Alves Brick estava exausto, tinha sede e já quase não se tinha de pé. Desde os tempos da academia que sofria de uma espécie de cegueira histérica que se manifestava nos momentos de aflição. Via apenas sombras e procurava desesperado a origem dos sons para se orientar. O pequeno robot de serviço estava completamente destruído, sem hipótese de concerto. No rosto inexpressivo do racional George, escrito a silêncio, era visível o anunciar da tragédia. Joe Gold Caparica perdera um braço durante a aterragem forçada, decepado numa porta automática de emergência. Esforçava-se por concertar o astro-rádio com a mão útil. Mas não era uma tarefa fácil, a hemorragia deixara-o demasiado fraco.
Quando a noite caiu naquele planeta azul cinzento acendeu-se uma luz junto à nave. Flint queimou numa pira os restos da tripulação. Ficou a observar o plástico que se derretia como um rio lamacento. Acendeu um cigarro e ficou a olhar o horizonte para lá da pira com um das mãos atrás das costas.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

229

Depois daquela entrada descontrolada na atmosfera a nave embateu com estrondo na superfície deserta do planeta. Uma coluna de fumo assinalava o local. Estavam perdidos. O Capitão Flint não o escondia. Agora lutavam contra os elementos na planície de plástico que se estendia interminável e azul cinzenta. Para manter o equilíbrio mental necessário à sobrevivência, Flint assobiava. Partiram dos destroços tomando uma direcção incerta e fazia tempo que caminhavam sem esperança de encontrar socorro. O Capitão Flint que era um tipo alto que usava uma tampa vermelha na cabeça, disse a certa altura para os outros, dificilmente encontraremos o caminho de regresso. O mais baixo, o sargento especialista Joe Gold Caparica e o pequeno robot de seerviço que usava os braços em cruz, concordaram.

Flint que procurava manter a cabeça fria, observava uma e outra vez o horizonte, e determinava o melhor percurso. Os companheiros de aventura seguiam-no em silêncio. Tinham aterrado na planície da morte.