sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

225

Há uns tipos que conduzem uns carros que são a cara deles. São desportivos tipo o carro deles, cheios de marcas e tiques nas mangas e que conduzem pelas veredas da vida com ar profissional de piloto de automóveis. Há uns tipos assim que eu não gramo e que conhecem os carros todos pelo nome.

O gato já não mora aqui não por causa dos carros dos outros. Tem muito pêlo. Tem farto de pêlo de fazer comichão. As mãos ficam vermelhas de fazer festas ao gato, nascem flores e bolores, crescem raminhos de erva de S. João, brotam bétulas e azeitonas vindas dos confins da pele das mãos, rebenta a alfavaca. O gato faz comichão ao pequeno marinheiro e foi, por isso, morar para o terraço. Não temos quem nos diga as horas.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

222

 

O Vocabulário da Lua.

222

 

Um tipo qualquer.

Um dia qualquer um tipo qualquer com sapatos.

Na cabeça uma coisa qualquer, provavelmente uma ideia atrás da outra.

A vida que me sabe tão bem a bife panado desprende-se até à hora de me deitar.

É mais ou menos directo.

 

sábado, 8 de dezembro de 2012

221

Eles estavam sentados os dois perto de um grande reservatório de água.

É um autêntico espelho - disse um deles.

O outro nada disse.

Caminharam pela beira do lago.

O lado de lá fica longe - disse um deles.

O outro continuou calado.

Eles continuaram durante um dia e uma noite sem parar.

Até que pararam e desistiram da ideia de alcançar o outro lado.

Havia uma árvore nesse sítio amigável.

Verteram mel nas mãos e separam-se.

Eles nunca mais se viram.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

220

 

 

 

Levo uma ideia na cabeça.

Deito-lhe água por cima.

Verto mel lá para dentro.

Vou respirar o mais lentamente que conseguir.

Não vou ler mais nada daquela linha para lá.

Ser do vermelho, e das outras cores, sem receio.

Trazer a pele à superfície.

Verto mel outra vez.

Bebo água.

Respiro.

Dos passos.

Passeio num quintal arborizado.

Deito o olhar.

Desvio o olhar.

Dou passos e pergunto quanto é.

Safo-me mal.

Pede-me uma moeda.

Não dou moedas.

Um sorriso serve?

Sigo por ali, antes de lá chegar volto para trás.

Pede-me uma moeda outra vez.

Não tenho moedas.

Vou por outro sítio para onde quero ir.

Dou passos pesados.

 

219

Vem aí um Navio, de poesia!

 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

217

Afectado por uma coisa que se chama carvão, vou estar a Bach o dia todo. O padecimento assemelha-se a uma espécie de Melancolia Candida Bilis. Coisa benigna que dá quando o lápis pensa a tracinhos. É caminho que gosto de fazer, desaparecer no branco.