quinta-feira, 1 de novembro de 2012

215

Ser uma perna. Ser um músculo dessa perna. Andar na perna. Ter a perna ao lado da outra. Andar com as duas pernas. Ser das pernas. Ter as pernas. Poder correr através das árvores do jardim. Ser um tipo de corrente de ar que corre sobre as pernas. Abrir os braços como a brisa entre as folhas das árvores. Ser um sorriso de vento verde. Folhear uma tarde de verão pelo murmurar da aragem a bater contra as coisas. Inquieto cair de corpo inteiro sobre a terra.À sombra da terra perder o olhar na imensidão dessa queda. Não levantar. Não ter pernas para mais andar. Sonhar, por ali sonhar.

 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

É o 211

 

À mesa, disse-me um amigo, não há muito tempo. Ele é como um grande coelho cor-de-rosa que passa nas costas de um grupo de jogadores de cartas. Ele é simultaneamente o coelho, os jogadores, o mobiliário onde se sentam e jogam, as cartas e a essência do jogo. Descreve o tempo, a solidão e a qualidade de cada momento, como se tudo, mas mesmo tudo, pudesse ser pintado no mesmo plano.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

209 do Hughes

Gosto das coisas que ele deixou escritas. Vi alguns dos episódios The shock of the New. Disse, ou escreveu contra uma certa arte contemporânea, daquela que me aborrece de morte, cheia de lantejoulas, de tachos e panelas, que sem inventiva habita os grandes palácios, que usa diamantes e crânios sem ideias e que come sopa em latinhas coloridas: "Na arte não há progresso, apenas flutuações de intensidade". Disse.
Também li aquela sua magnífica biografia sobre o Goya*. Os nossos monstros, são os monstros de toda a gente. Fico-lhe agradecido pelo livro. Sobretudo convencido, quem cria tem, ou teve, as mesma visões fantásticas do mundo; quando a moral adormece ( e é bom que ela adormeça) solta-se a imaginação.
Morreu o Hughes.
Ainda hoje te faço um desenho pá. Pode ser que gostes.

*Goya. Hughes, Robert. Vintage 2004.