O banco de jardim de Cadiz
(Um pé e parte de uma perna de biblioteca a fingir que são um auto-retrato)
Quando os dias aumentarem de tamanho, aumentarão em grandeza os sonhos, os bolos que existem nos sonhos, a água da boca que se põe nos sonhos, e, só então, os sonhos serão coisas parecidas com torrões de Alicante mas mais doces e menos consistentes. Enquanto esses dias não chegam ao calor da pele, suporto as infidelidades da sorte como golpes imerecidos.
Hoje é dia de achar piada. Rir de não sei o quê. Coçar as costas. Correr contra o vento. Saltar. Hoje é esse dia incerto e sem limites. Dia do riso. Rir. Morrer a rir, sem retorno. De boca aberta. Morte certa da boca escacarada para fora. Palavras.
Por vezes dói onde a dificuldade se junta a um canto. Ao sol que amadurece tudo perece aqui na terra.
Sou favorável à diferença por natureza do espírito aberto. Ouço dizer coisas contrárias, ligo pouco. Sento-me a ver cair no chão o ar denso das comversas. Falta-me a química para me levantar. Uso a força noutra direcção.
Agradam-me paralélipipedos. Uns, tios dos outros, fazem fila em frente ao pacote de leite gigante. Quando as portas se abrem desaguam todas as formas de explicar o branco. O mundo é branco retocado nos seus limites por um dourado aplicado por ourives.
As melhorias são visíveis, não se verificam atrapalhações. Antevejo um final feliz.