domingo, 29 de janeiro de 2012

164

Nunca gostei do Professor Cavaco Silva. É um autoritário. E como todos os autoritários, tem um ilimitado fundo de desonestidade. Aturamo-lo há demasiado tempo para que o tenhamos que aturar uma vez mais, aos seus dislates, aos seus números televisivos de homem pobre e honrado que andou muitas vezes de comboio antes de mandar fechar as linhas férreas.

Sr. Presidente, faça-nos a todos, e à sua família também, um enorme favor: abandone o cargo de PR, não está à altura da dignidade do povo português.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

163

Daqui saio todos os dias com o corpo às costas. Não penso em regressar, mas quando regresso, volto às costas do corpo. A pele, ao fim do dia, está, invariavelmente, durida. O espírito cresce da pele para dentro, tem as suas raízes na superfície da pele. Quando me abandono levo na pele o meu nome gravado no corpo. Sou como o estômago de um navio por encher. 


 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

161

 

Fosse o Hopper ou não, sentado à porta da tua rua dos marmelos, às voltas com as questões da luz, a decidir  entrar de novo no atelier para continuar tudo a aprtir daquele fio que perdi algures entre pó. 

 

(continua)

 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

158

 Sentado como um gato de pé que confiava no seu apurado sentido de prever as coisas do mundo que ainda não tinham acontecido, eis a visão.

 

sábado, 14 de janeiro de 2012

157



Lista de coisas importantes a levar em caso de partida urgente: seis tratados de lógicas esquecidas; as mãos da lama da morte da alma; uma música de fundo com capacidade para cobrir tudo de azul; um roupão de seda para os dias quentes; um crocodilo em lugar de um mastim de guarda; um obsodélito; quase todos os livros sobre feitos de cavalaria; uma cama pequena desmontável; um colchão semelhante; um copo para beber água durante a noite; dois pássaros canoros; fivelas de cinto; botões de osso; linhas e agulhas de coser; vidro moido em saquinhos; chá preto; canetas, tinteiros e papel para desenhar; se a partida for repentina, as cores ficam; um par de olhos novos; lenços de bolso; um bolo de chocolate; dois litros de stock de sarcasmo; uma mochila prática de sair ao mercado; um cesto para gatos; caixas com fósforos; borboletas; calças, cuecas e camisas lavadas; meias de malha inglesapara as botas de sempre; as botas e graxa; a máquina de costura da mãe de alguém; um moinho de vento em origami; um frasco com mar; outro de areia do mar; um pedaço de essência do sítio onde moro; gelatina em pó; antiácidos e bolinhas de papel.

O tempo está paralisado. Arrume-se a mala de levar tudo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

156

 


Os pés frios enfiados nas orelhas. As mãos dentro da cabeça a mexer no calor da memória. Os olhos fechados para sentir o tempo, como uma pedra fria, a roçar a pele, a tanger os nervos. Sem janelas o mundo é uma espécie de lugar sem luz. 

(continua)Y