segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

154




Eis um assim, em forma de bola de Berlim. Um gato de feltro a dormir. Um arame no sapato. Uma roda sem dentes e muitos pentes, e muitos pentes.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

152





As pessoas azuis sentam-se onde podem quando está muito calor. Abanam-se sem compromisso, fecham as janelas de casa por volta da hora do almoço, tiram os canários dos pregos das paredes e devolvem-nos à frescura do interior das cozinhas sem luz. Nos dias rosados do céu do estio as pessoas da minha cidade distraem-se tanto nos seus gestos sem importância que não dão conta do tempo passar. Sem aviso, passam por cima das suas cabeças nuvens, ventos que empurram nuvens, brisas que vêm do mar carregadas de sal, almas invisíveis, coisas terríveis sem definição enciclopédica, objectos de categorias que não me apetece descrever. A luz muda e mudam cores e as sombras cheias de cores, e mudam as tonalidades das folhas das árvores. Há dias sem sombras no chão. Como qualquer pessoa de outro lado qualquer, as pessoas das outras cidades também se dispersam nos seus próprios gestos que parecem ser aquisições oníricas ou reflexos da infância feliz. Os dias de calor produzem vapores que se transformam em imagens. Num desses dias, levado por um vendaval vindo de um deserto distante, entrou um veado desarvorado na minha cidade. Percorreu-a num galope desabrido, ofegante, espumoso até, e desapareceu nos montes. Apesar do alvoroço, poucos foram os que se aperceberam do que aconteceu, de tal forma estavam absorvidos nas suas tarefas improdutivas, de olhos postos nas suas inquietações, a olhar para dentro de um túnel de distrações que possuem, como varrer a entrada de casa da sumidade do tempo. Alguns, muito poucos, não acreditam no que vêem e regressaram à vida sem assunto. Nesse dia caiu uma árvore na rua do fundo. Os barcos, sem explicação razoável, afundaram-se no mar sem esperança. A terra optou por não arrefecer e tornou-se quente para distração das pessoas da minha cidade. Insectos voavam por cima de todos nós e havia uma música sublime que se ouviu igual em todo o lado. Desfilaram, então, elefantes e banqueiros sem dentes em todas as praças. E ninguém deu por nada. Ninguém deu por nada. Ninguém deu por nada.

Dez bêbedos cantaram ao sol. O sol não conseguiu ouvi-los, explodiu em calores.

domingo, 1 de janeiro de 2012

151

Chegámos à China de barco. Atravessámos um mar vasto para lá chegarmos mas, por fim, atingimos a costa da Imensa China. Agora, deleitamos-nos com as maravilhas do Oriente, com todos os detalhes da natureza desconhecida, os animais estranhos, o ar diferente do nosso ar, o céu mais azul que o nosso por estar próximo do paraíso, as árvores encolhidas em forma de poema e a música incompreensível. Ontem fomos ao cinema, hoje aprendemos a ler nas entranhas de um peixe que vivia num lago e que tinha a idade de um sábio que nos disseram ter vivido numa montanha perto do Sol; amanhã partiremos sem destino até encontrarmos o poço das delícias. E depois não sabemos mais nada.

150

Já hoje ali estive onde cantam estranhos pássaros sob um sol escaldante. Sim, estive ali por ser o dia incerto e cheio de novidades que não sei contar. Vou beber vinho até que assente o nevoeiro.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

149 e fatias de nada




Ali caem as coisas que caem podres da fonte de todas coisas simples.

148




Boletim emocionográfico do estado da alma do tempo: nem chuva, nem vento forte, apenas romances quiméricos e bolas de naftalinas, destas que se vendem nas pastelarias da rua onde moro e que têm o sinal do meu nariz. Espreitadelas furtivas no horizonte com previsão de entretelas de camisas velhas remetem para sinais de que alguma coisa estará para mudar. Obstáculos intransponíveis como nuvens vislumbram-se certos no ar. Ao longe tudo pode parecer pequeno e sem perigo, e assim, representando graça, somo levados a pensar que nada de mau acontecerá. Gomos de tangerina e pardais no céu azul do fim do dia anunciam alterações no clima do interior. E mais pardais vão chegando, dizem, daquele lado dali. Daqueles que anunciam outros estados que não a desgraça do espirito. Dias serenos avizinham-se pendurados em flores. Dias assim servem para olhar de frente os sonhos. Para olhar os sonhos um a um, e de frente, sem que seja preciso utilizar a saída de emergência situada mesmo ao lado da porta do paraíso, agora sem utilidade. Outras extravagancias, coisas sem nome, diletantes imagens. Talvez dragões, não sei ao certo.