Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

145

Já hoje numa folga que dei ao cigarro estive em frente a duas janelas.  A primeira tinha um sopro de vento que vindo de Sul agitava as árvores. A segunda um balde preso no alto de um mastro que existe numa fortaleza sem vida. Com ou sem memória, agita-se no teu cabelo cor de palha, (ou cor de fogo, ou sei lá a cor que tem a cor do teu cabelo quando o vento corre assim),  um jardim inteiro que gosto pensar ser só meu. É lá onde vejo as palavras que não sei dizer escritas pela ventania. Não estou para coisas simples. Tenho quase a certeza de pertencer à terra escura que é a imagem da segunda janela ao fim do dia.  Um pássaro preto pousou na antena da televisão do vizinho e disse-me: aqui no teu quintal, chove pelo mundo inteiro. Não te prantes mais que eu estou mesmo ao pé de ti.

144

Górgias, o leve ser das águas do lago, disse olhando a mulher-cabeça-de-lagarto, como és bela. A tua beleza crua, continuou, faz-me sorrir por dentro do meu corpo. Tudo quanto pretendo ao olhar-te é acariciar os teus seios. A mulher, da cor vermelha das romãs, despiu-se feliz. Górgias sentiu-a no toque das mãos e uma espécie de feltro caiu do céu em forma de curiosos farrapos sedosos.

143

Era azul por dentro mas não tão azul como possam imaginar. Era azul à volta pelo lado de dentro o suficiente para reflectir uma espécie de azul profundo, da cor dos lagos espessos, das árvores enormes e dos animais como nuvens no céu e para lá do céu e das outras coisas azuis. Azuis diferentes, diga-se. Azulino a que respeita o estado das coisas em geral, era o que se via do lado de fora, antes de entrar. E cogumelos. Cogumelos venenosos que atapetavam vias comunicantes ladeadas por vendavais.
Por vagas o vento sopra que é como dizer de outra forma insuflar. Contínuo, ondulante e azul. Uma coisa quando aparecesse, vê-se ao longe. Um dia azul, por exemplo, vê-se em todo o lado. . 

142 (da Lua Nova)

No aranhal nada de novo. Um prado novinho em folha ergueu-se no limite da floresta que circunda o pequeno lago. A mulher-cabeça-de-veado cortou a língua e entregou-a às outras mulheres. Recebeu-a a madressilva com as mãos postas num acto de serenidade. _Para que me dás tu a tua língua. _Para que me possas falar na minha língua. Disse com palavras empapadas em sangue. Mil cabeças de alfinetes voaram no céu desse dia. As flores cresceram e envolveram todas as cadeiras onde sentavam as mulheres, cobriram as mulheres que se uniram para sempre às flores. A água ferveu virulenta no centro do lago e ergue-se Górgias, o morto. O dia acabou com a imagem de um gato tranquilo a lamber uma pata através de um limoeiro.

141 da nova fase

O teu lago perfuma-se a si mesmo. Tem cada coisa o seu tempo. As palavras debotam-se de tanto se usarem. Morrem dentadas na fome. Queres uma bandeira em forma de floco de neve? Perguntou o mestre sapo ao rapaz descuidado. A memória aviva-se noutro sentido. Todas as perguntas que não tens na cabeça estão noutro sítio qualquer. Sou um pássaro.

140 é uma nova fase

A Lua preta no céu és tu às voltas com a morte. Um sapato, um cão, uma orelha, uma fivela de um cinto que caiu em desuso és tu também às voltas com tudo. A ver-te passar como és nas mãos abertas à tua espera, um suspiro de cão à Lua que aceita convites que se instalam ao desredor maravilhado do olhar, és, igualmente, tu. A tua árvore preferida plantada debaixo de um banco de jardim. Ali ao lado outro sapato, um homem sem sapatos, um lago verde. Uma mão perdida num aceno vago, indecisa. Uma mão lava, a outra encolhe. Chamas, por fim, alguém sai ai teu encontro.

139

Eu cá ia caindo da bicicleta abaixo por se me ter partido um pedal. Ficar sem pedal na bicicleta é como andar nos sapatos dos outros e, provavelmente, é pensar como os outros pensam, dizer igual o que os outros dizem. Estou sem pedal, portanto. Coxo do pedal esquerdo não posso ir e vir com é meu hábito.Ando, assim, pelos convenientes pés que levam e trazem.