A fotografia está tremida. Foi tirada num instantâneo que não deu tempo para pensar outros resultados. Uma nave espacial vinda de outros mundos saudou desfocada os operários no estaleiro. O tempo parou por alguns momentos de boca aberta ao espanto.
Os operários regressaram repletos de sal e histórias vélicas que sabem contar com Canoas da Picada e Botes de Fragata. Acenderam os fogaréu e olharam a obra ainda nua. Há que vestir o corpo das coisas procurando-lhes a forma. Assim têm feito.
Os operários tiraram o dia de folga, fizeram gazeta, sei lá. Bem-aventurados, enviaram-me uma imagem do sítio onde se encontram. Parece que foram a banhos para parte incerta junto ao mar. Deixaram no local da obra o tal guarda-livros que, para além de zelosa pessoa, gosta de figos, de melão e de especiarias aromáticas.
Deu-me hoje para não ser. Bebi água das jarras de flores que existem em casa. Visitei-me nos espelhos pendurados nos longos corredores onde se deposita a secura do estio. Abri janelas e flutuei nas correntes de ar que inundaram o espaço. Ouvi uma cigarra na chaminé de tijolo a esfregar as costas com energia estival. Hoje fiquei sem ser durante muito tempo. Hoje não fui. Às vezes sou assim.