quinta-feira, 30 de junho de 2011

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Lamento não ter outras palavras escritas. Mas tenho estado debaixo do sol e não consigo abrir os olhos com facilidade. De olhos fechados a luz intensa impede-me de ver. Fico na luz por mais um momento até que se me acabem os víveres.  Ainda tenho pão escuro, manteiga e seiva de ácer que bebo para matar a sede. Quando se acabar o pão, a manteiga, e o xarope hei-de voltar para dizer que o pão endurece a fome e a luz excessiva cega sem piedade.

domingo, 29 de maio de 2011

114




À Prudência
( Atenta tanto às coisas dos gatos, como às horas do dia. Também ao fio condutor que une a luz ao negrume que passa despercebido à maioria de nós).

Escolhi entre os meus livros um. Vou ler-te uma coisa que lá vem escrita (entenda-se escrever-te). Uma coisa que me parece ser de gato, delicada e subtil. Encontrei o Bataille a palavrear contra um certo leão castrado que, sem qualquer ambição intelectual bacoca da minha parte, te remeto.

Parece que "O homem vive confinado ao seu círculo - estreito na sua própria dimensão e distraído do universo dos planetas e estrelas onde a Terra que o suporta risca um traço de uma impressentível velocidade. Reduz o céu nocturno a um espectáculo de luzes e a sua visão diurna hesita, sem enfrentar esse foco deslumbrante que o ilumina e ele não pensa como estrela mas força insuportável que o seu olhar evita e só desafia se não medir os riscos de uma cegueira que o conduzirá às trevas. (...)"

E continua dizendo na introdução do mesmo livro que "(...) Todas as ilações devem ser caucionadas com alguma Prudência.(...)"

In O ânus solar (e outros textos), George Bataille, Introdução e Apresentação de Aníbal Fernandes.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

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NA PELE DA FLOR DA PELE E OUTRAS HISTÓRIAS


(Amanhã na Galeria Municipal de Montemor-o-Novo, 18:30h)

Seguia na proa do barco, de pernas cruzadas, sentado no chão a ver rasgar o rio com o nariz distraído. Cheirava aquilo que o vento trazia no seu corpo de corrente de ar, e tinha na palma da mão um fio do mundo que apertava cerrando o punho tal qual se faz quando se espreme uma laranja. Era isso mesmo, como uma laranja. A travessia de barco era curta sem dar tempo a que os olhos se perdessem na paisagem igual quase do tamanho de uma coisa do tamanho de uma laranja. Não vivia ainda na companhia da minha mulher e dos nossos mais insondáveis sonhos quando conheci o marroquino. Não lhe poderia, por isso, ter contado que bonançosos esperávamos o nascimento do nosso primeiro filho, nem que haveríamos de morar longe deste sítio a tocar o mar. O trajecto sobre o rio fazia-se através desta gente humana que trepava aos cumes das coisas que existem na natureza, árvores, montanhas de lodos, lamas e casas sem pessoas lá dentro, canções tocadas em flautas de pau. De nada serve a paisagem quando não há dia, quando tudo em volta é como a noite sem luz. Acontecia ao mundo, por vezes, ficar sem sombra debaixo deste céu. Tomado de um tom pálido era da cor da terra seca, sabia a sal, sentia-se muito quente o ar quente.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

113




É altura de voltar ao grande lago de marfim. Os canhões da tormenta já não se ouvem. Vou pela vereda abaixo, pelo caminho ferido, até encontrar uma pedra de sal com que hei-de temperar a carne viva. Digo-vos alguma coisa da experiência, quando lá chegar, não me vou esquecer disso, prometo.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

111



Os teus pés estão quase sempre frios à hora do chá, por isso tens um gato ao lume do colo quando te sentas.

sábado, 22 de janeiro de 2011

109a


CONTRA O CAVACO, CLARO!

A direita em Portugal é um produto da democracia nacional que se pode adquirir num supermercado perto de si, através de revistas de culto de sociedade, ou outros bens como o ar que se traz e o andar que se faz pelos corredores dos detergentes. A direita, ainda que exista, é uma coisa dificilmente classificável perante a ausência de uma estrutura filosófica e ideológica que produza no tecido social o reconhecimento de uma conduta politica característica. Pode traduzir-se, lato senso, por um conjunto de comportamentos que vão do politicamente correcto, ao beato extremista. E os pobres? Pergunta-se? Aos pobres dá a direita esmoler, esmola. E de resto, que se fodam os pobres.

Por exemplo, a direita é constituída por grupos sociais oriundos da cintura agrária de Beja, e de Évora, e do remanescente salazarismo católico predominante em certas zonas rurais do país, como são os mais recentes casos dos integristas católicos. Estes grupos, na maioria dos casos, são por sua vez compostos por pessoas cujo défice de informação não vai além da frequência assídua a touradas e a casas putas em Espanha, passando pelas tradicionais feiras de gado em Beja, Ovibeja, e na Golegã, Feira do Cavalo, missas e padralhada com fartura. E quanto a qualidades de debate e argumentação, o que melhor se pode dizer é a técnica da mocada, vide, por exemplo, a conversa da maioria dos taxistas da pátria.


Pois, a direita. La destra, o lado estático e imóvel, tem as suas castas que se distinguem entre si, e dos restantes seres humanos do planeta, pelo uso de patilhas, pelo tamanho do Mercedes e dos cachuchos que usam nos dedos – algumas senhoras de direita que conheci, também possuem por imperativo da genética patilhas, ou então, grandes perucas alouradas e armadas ao melhor estilo Rococó -, mas também a bota mandada fazer por encomenda e com salto de prateleira. Reforço, que para além do formal, poucas ideias tem a direita portuguesa. O caso do Dr. Paulo Portas é um caso de direita de qualidade? É sim senhor. Mas um caso mais sério, dado ser de uma ilusão pós Brideshead Revisited, ou as memorias sagradas e profanas do Capitão Charles Ryder. Uma colagem, dirão. Certamente, e ao melhor estilo pós-moderno, onde não falta o conjunto freudiano referencial, como é uso nestes casos. Do mesmo modo se poderá dizer que a série Dallas influenciou fortemente alguns grupos dominantes da direita rural nacional, como se viu durante a década de oitenta do século XX.


Um império de ruralidade atravessa, assim, a ideologia vigente da direita. Recentemente, juntaram-se às ordes de direita, os pais, as mães e os padres, dos filhos da direita que até então frequentavam o ensino particular e cooperativo, que o actual candidato da direita resolveu dar uma machadada, aquando da promulgação da Lei que diz que o Estado já não está para aturar grupos confessionais, quando oferece a melhor preço e de qualidade superior o ensino público logo ali ao lado. O Cavaco, nesse dia, estava certamente às escuras.


Nos anos oitenta a direita reviu-se no homem do leme que enterrou isto tudo. Outros se lhe juntaram sem saberem de que terra eram, sem possuírem nem bens, nem herdades, trazendo, sem sombra de dúvida, outra luz ao morganho: patos-bravos algarvios, construtores civis, jogadores de futebol, vendedores de jeeps e imóveis, agentes de seguros com jeito para a gestão autárquica, administradores de vários tipos coisas e gestores para toda a obra, jovens engravatados e filiados em jotas e esperançados num bom casamento com a filha do dono da fábrica dos lanifícios, todos, mas todos mesmo, sob a batuta do Professor Aníbal cavaco Silva que com a ajuda dos seus ministros desenvolveu este país ao ponto calamitoso que tão bem conhecemos. Quero dizer que na direita nacional cabe tudo, até mesmo o Vasco Pulido Valente e as suas crónicas – uma espécie de produto gourmet que a direita serve aqui e ali, com qualidades digestivas memoráveis - mas que não presta bons serviços. Etc., etc., etc..


Amanhã, dia 23 de Janeiro, temo que até os pastorinhos de Fátima irão votar no Cavaco.

Por isso, o melhor é não ir em sondagens. Votem, mas votem noutro, menos no Cavaco. Votem noutro que tenha realmente hipóteses de passar à segunda volta, para nos vermos livres do Cavaco.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

107a



Vous voyez?
Comme
je l'ai déjà dit, est entièrement fonctionnel malgré son âge. Et nous pouvons pisser heures de plaisir absolu.

106a


VENDE-SE

Uma preciosidade de outros tempos de valor incalculável. Penico no mais fino esmalte nacional, fundido segundo modelo à escala em forma de Palácio das Leoneiras, dito de Belém. Uma peça única, capaz de rivalizar em arte e bom gosto, em qualquer colecção particular. Apesar dos anos que tem apresenta-se perfeitamente funcional e com capacidade para satisfazer muitos litros de absoluto prazer matinal.

Advertência: o uso prolongado do Cavaco pode causar danos irreversíveis na sua saúde.