sábado, 22 de janeiro de 2011

109a


CONTRA O CAVACO, CLARO!

A direita em Portugal é um produto da democracia nacional que se pode adquirir num supermercado perto de si, através de revistas de culto de sociedade, ou outros bens como o ar que se traz e o andar que se faz pelos corredores dos detergentes. A direita, ainda que exista, é uma coisa dificilmente classificável perante a ausência de uma estrutura filosófica e ideológica que produza no tecido social o reconhecimento de uma conduta politica característica. Pode traduzir-se, lato senso, por um conjunto de comportamentos que vão do politicamente correcto, ao beato extremista. E os pobres? Pergunta-se? Aos pobres dá a direita esmoler, esmola. E de resto, que se fodam os pobres.

Por exemplo, a direita é constituída por grupos sociais oriundos da cintura agrária de Beja, e de Évora, e do remanescente salazarismo católico predominante em certas zonas rurais do país, como são os mais recentes casos dos integristas católicos. Estes grupos, na maioria dos casos, são por sua vez compostos por pessoas cujo défice de informação não vai além da frequência assídua a touradas e a casas putas em Espanha, passando pelas tradicionais feiras de gado em Beja, Ovibeja, e na Golegã, Feira do Cavalo, missas e padralhada com fartura. E quanto a qualidades de debate e argumentação, o que melhor se pode dizer é a técnica da mocada, vide, por exemplo, a conversa da maioria dos taxistas da pátria.


Pois, a direita. La destra, o lado estático e imóvel, tem as suas castas que se distinguem entre si, e dos restantes seres humanos do planeta, pelo uso de patilhas, pelo tamanho do Mercedes e dos cachuchos que usam nos dedos – algumas senhoras de direita que conheci, também possuem por imperativo da genética patilhas, ou então, grandes perucas alouradas e armadas ao melhor estilo Rococó -, mas também a bota mandada fazer por encomenda e com salto de prateleira. Reforço, que para além do formal, poucas ideias tem a direita portuguesa. O caso do Dr. Paulo Portas é um caso de direita de qualidade? É sim senhor. Mas um caso mais sério, dado ser de uma ilusão pós Brideshead Revisited, ou as memorias sagradas e profanas do Capitão Charles Ryder. Uma colagem, dirão. Certamente, e ao melhor estilo pós-moderno, onde não falta o conjunto freudiano referencial, como é uso nestes casos. Do mesmo modo se poderá dizer que a série Dallas influenciou fortemente alguns grupos dominantes da direita rural nacional, como se viu durante a década de oitenta do século XX.


Um império de ruralidade atravessa, assim, a ideologia vigente da direita. Recentemente, juntaram-se às ordes de direita, os pais, as mães e os padres, dos filhos da direita que até então frequentavam o ensino particular e cooperativo, que o actual candidato da direita resolveu dar uma machadada, aquando da promulgação da Lei que diz que o Estado já não está para aturar grupos confessionais, quando oferece a melhor preço e de qualidade superior o ensino público logo ali ao lado. O Cavaco, nesse dia, estava certamente às escuras.


Nos anos oitenta a direita reviu-se no homem do leme que enterrou isto tudo. Outros se lhe juntaram sem saberem de que terra eram, sem possuírem nem bens, nem herdades, trazendo, sem sombra de dúvida, outra luz ao morganho: patos-bravos algarvios, construtores civis, jogadores de futebol, vendedores de jeeps e imóveis, agentes de seguros com jeito para a gestão autárquica, administradores de vários tipos coisas e gestores para toda a obra, jovens engravatados e filiados em jotas e esperançados num bom casamento com a filha do dono da fábrica dos lanifícios, todos, mas todos mesmo, sob a batuta do Professor Aníbal cavaco Silva que com a ajuda dos seus ministros desenvolveu este país ao ponto calamitoso que tão bem conhecemos. Quero dizer que na direita nacional cabe tudo, até mesmo o Vasco Pulido Valente e as suas crónicas – uma espécie de produto gourmet que a direita serve aqui e ali, com qualidades digestivas memoráveis - mas que não presta bons serviços. Etc., etc., etc..


Amanhã, dia 23 de Janeiro, temo que até os pastorinhos de Fátima irão votar no Cavaco.

Por isso, o melhor é não ir em sondagens. Votem, mas votem noutro, menos no Cavaco. Votem noutro que tenha realmente hipóteses de passar à segunda volta, para nos vermos livres do Cavaco.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

107a



Vous voyez?
Comme
je l'ai déjà dit, est entièrement fonctionnel malgré son âge. Et nous pouvons pisser heures de plaisir absolu.

106a


VENDE-SE

Uma preciosidade de outros tempos de valor incalculável. Penico no mais fino esmalte nacional, fundido segundo modelo à escala em forma de Palácio das Leoneiras, dito de Belém. Uma peça única, capaz de rivalizar em arte e bom gosto, em qualquer colecção particular. Apesar dos anos que tem apresenta-se perfeitamente funcional e com capacidade para satisfazer muitos litros de absoluto prazer matinal.

Advertência: o uso prolongado do Cavaco pode causar danos irreversíveis na sua saúde.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

105a



O taparuére é um homem do povo, e por isso, e só por isso, se sente desobrigado de qualquer tipo de exame público.


O Cavaco prejudica gravemente a saúde da democracia!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

104a, em Braga foi de estalo


Retrato da entrada triunfal do candidato Cavaco Silva, e da sua Sra. D.ª Maria Cavaco y Silva (pensionista auferindo qualquer coisa como 800,00€/ mês), em Braga, aplaudidos pelo povaréu em manifestação de espontânea alegria.
(Escola portuguesa, Séc. XXI - Museo Nacional de los Coches, Europa)

domingo, 16 de janeiro de 2011

103a


Ex-Voto

Milagre que fez N. Sra. do Pagode quando um cão danado conhecido pelo nome de "O Povo" atacou e tentou ferir o Sr. Cavaco Silva e a sua senhora, D.ª Maria Cavaco y Silva. O cão que se havia soltado dos grilhões que o seguravam, saltou o portão da casa dos seus donos, e tomando
por vulgares ladrões o simpático casal e a comitiva que os acompanhavam pelo país em campanha eleitoral, logo rosnou e ladrou, atacando-os sem piedade. Valeu-lhes N. Sra. do Pagode, que serena interveio junto dos acossados, salvando-os do grande azar de ferimentos provocados pelo animal irado, evitando o pior dos cenários. Ainda assim, a divina intervenção não foi capaz de evitar que a Sra. D.ª Maria se virasse de pantanas, enquanto que o seu marido se punha aos pinotes gritando por albuminado socorro.

102a A reforma da minha Maria

O CAVACO E A SUA SENHORA SAUDANDO A MULTIDÃO EXULTANTE, LOGO APÓS O CANDIDATO TER CONTADO AO POVO E ÀS CRIANÇAS O MONTANTE DA MÍSERA REFORMA DE D.ª MARIA CAVACO Y SILVA.

sábado, 15 de janeiro de 2011

100a Cavacowares


CONCURSO

Envie-me a sua melhor frase sujeita ao tema:
"Porque razão é quase impossível distinguir
o candidato Cavaco Silva dos Tupperwares?"

Prémios de sonho em calçado ortopédico

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

97


No calor da quadra, ofereço-vos o meu preferido conto de Natal. É do Kafka.
O Abutre
Era um abutre que não parava de me dar bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias e começava agora a atacar-me os próprios pés. Investia sem parar, levantava voo, esvoaçava inquieto à minha volta, em círculos, e retomava o seu trabalho. Apareceu então um senhor que ficou a observar aquilo durante algum tempo, até que me perguntou porque é que eu suportava as investidas do abutre:"Ele apareceu e quando começou com as bicadas é claro que o quis enxotar. Na verdade até tentei estrangulá-lo, mas um bicho destes tem imensa força. E depois também já tentou saltar-me para a cara, por isso preferi sacrificar os pés, que agora já estão quase despedaçados." "Como pode permitir que o torturem dessa maneira", insistiu o senhor, "um tiro e acabou-se o abutre." "Acha que sim?", perguntei. "E então não pode tratar disso?" "Com todo o gosto", disse o senhor."Só tenho que ir a casa buscar a espingarda. Consegue esperar mais meia hora?" "Isso é que eu já não sei", respondi, e mantive-me assim, paralisado pela dor, durante algum tempo, até que disse: "Por favor, tente lá, seja como for." "Está bem", disse o senhor, "vou apressar-me". Durante a conversa o abutre tinha ficado sossegado, à escuta, olhando ora para mim, ora para o senhor. Pude então ver que percebera tudo, pois levantou voo, dobrou-se para trás tanto quanto podia, para ganhar balanço, e, como um lançador de dardo, espetou com toda a força o bico dentro da minha boca. Em queda, pude ainda sentir, liberto, como ele se afogava, sem hipótese de salvação, no oceano transbordante e sem fundo do meu sangue.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

96


Na sua generosa herança deixou-me o meu pai os seus genes. Uma mesa e um par de cadeiras robustas. Um casaco que pode atravessar o inverno sem me comprometer de frio. Deixou-me um especial sentido para olhar as coisas, escolher pares de botas e de lhes dar sebo para não molhar os pés quando chove. Legou-me uma particular maneira de ver a vida com persistência. Pude assim correr atrás do mundo e encontrar outros lugares por me ter dado uma espécie de inquietação que até há bem pouco tempo não sabia como usar. Mas agora sei. Clarifico-a em caldos de paciência e solidão. Sirvo-a quente aos amigos e digo piadas ordinárias que os fazem rir. Deixou-me o meu pai depois de morrer algumas coisas especiais. Ensinou-me a ensinar a fazer coisas poupando as palavras enquanto se conservam malaguetas em frascos de azeites. Nunca me deu conselhos, e por isso sempre fiz o que quis. Eis minha herança.