domingo, 16 de janeiro de 2011

102a A reforma da minha Maria

O CAVACO E A SUA SENHORA SAUDANDO A MULTIDÃO EXULTANTE, LOGO APÓS O CANDIDATO TER CONTADO AO POVO E ÀS CRIANÇAS O MONTANTE DA MÍSERA REFORMA DE D.ª MARIA CAVACO Y SILVA.

sábado, 15 de janeiro de 2011

100a Cavacowares


CONCURSO

Envie-me a sua melhor frase sujeita ao tema:
"Porque razão é quase impossível distinguir
o candidato Cavaco Silva dos Tupperwares?"

Prémios de sonho em calçado ortopédico

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

97


No calor da quadra, ofereço-vos o meu preferido conto de Natal. É do Kafka.
O Abutre
Era um abutre que não parava de me dar bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias e começava agora a atacar-me os próprios pés. Investia sem parar, levantava voo, esvoaçava inquieto à minha volta, em círculos, e retomava o seu trabalho. Apareceu então um senhor que ficou a observar aquilo durante algum tempo, até que me perguntou porque é que eu suportava as investidas do abutre:"Ele apareceu e quando começou com as bicadas é claro que o quis enxotar. Na verdade até tentei estrangulá-lo, mas um bicho destes tem imensa força. E depois também já tentou saltar-me para a cara, por isso preferi sacrificar os pés, que agora já estão quase despedaçados." "Como pode permitir que o torturem dessa maneira", insistiu o senhor, "um tiro e acabou-se o abutre." "Acha que sim?", perguntei. "E então não pode tratar disso?" "Com todo o gosto", disse o senhor."Só tenho que ir a casa buscar a espingarda. Consegue esperar mais meia hora?" "Isso é que eu já não sei", respondi, e mantive-me assim, paralisado pela dor, durante algum tempo, até que disse: "Por favor, tente lá, seja como for." "Está bem", disse o senhor, "vou apressar-me". Durante a conversa o abutre tinha ficado sossegado, à escuta, olhando ora para mim, ora para o senhor. Pude então ver que percebera tudo, pois levantou voo, dobrou-se para trás tanto quanto podia, para ganhar balanço, e, como um lançador de dardo, espetou com toda a força o bico dentro da minha boca. Em queda, pude ainda sentir, liberto, como ele se afogava, sem hipótese de salvação, no oceano transbordante e sem fundo do meu sangue.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

96


Na sua generosa herança deixou-me o meu pai os seus genes. Uma mesa e um par de cadeiras robustas. Um casaco que pode atravessar o inverno sem me comprometer de frio. Deixou-me um especial sentido para olhar as coisas, escolher pares de botas e de lhes dar sebo para não molhar os pés quando chove. Legou-me uma particular maneira de ver a vida com persistência. Pude assim correr atrás do mundo e encontrar outros lugares por me ter dado uma espécie de inquietação que até há bem pouco tempo não sabia como usar. Mas agora sei. Clarifico-a em caldos de paciência e solidão. Sirvo-a quente aos amigos e digo piadas ordinárias que os fazem rir. Deixou-me o meu pai depois de morrer algumas coisas especiais. Ensinou-me a ensinar a fazer coisas poupando as palavras enquanto se conservam malaguetas em frascos de azeites. Nunca me deu conselhos, e por isso sempre fiz o que quis. Eis minha herança.

95


Há coisas do existir que sabem a nada. Outras que explodem em partículas e que nunca mais se podem voltar a ver como eram. Há ganchos por aí, e pentes para cabelos ermos. Bigornas, gruas gigantescas, e armazéns de ferro velho. Para variados fins e usos indeterminados, máquinas de todas as cores. Há coisas do existir em todo o lado. Livros descrevem-nas, uns melhor que outros. Bibliotecas inteiras repletas de coisas que sabemos existir. Delas, muitas, reconhecemos o nosso interesse na forma que têm. Nada interessa tanto como tudo o que há, e mesmo aquilo que não existe, tem reconhecido mérito. Serão as formas de existir o elemento único da visibilidade?

Perguntaram-me a que horas passava o autocarro. Respondi que não os há por aqui. Anda-se a pé.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

94


Pôs no sítio das orelhas as orelhas de cão e chamou à sua presença o olhar cinzento do cão da casa. Sentou-se à altura dos olhos do cão e disse-lhe com gestos vírgulas e cedilhas no ar das palavras na língua de cão que ia partir e que lhe deixava toda a fortuna que tinha acumulada em cofres e baús espalhados pela casa. Disse-lhe tudo isto enquanto vestia a melhor roupa de sair, de forma serena, respirando entre palavras como se debitasse mel nas curvas das ideias. Falou-lhe para dentro das orelhas de cão e o cão muito atento pôs a cabeça de lado e entendeu tudo o que ouviu. Despediu-se de tudo que tinha pendurado nas paredes e mergulhou na água da sanita com a ajuda do pássaro vermelho de porcelana da China. No tubo que o havia de levar ao mar encontrou-se com o Lorca e fumaram um charuto na redondilha do fumo, que é uma espécie de poesia, que é uma espécie de poesia em forma de poesia de fumar. Perdeu-se num qualquer canto do mundo, é o que se sabe. Certo é que o cão e o pássaro vermelho de porcelana da China se tornaram donos de um bem sucedido negócio de vinhos e mercearias finas ao bom estilo inglês.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

93


Como são feitos de vapor, os habitantes da cidade não podem deslocar-se sem correr o risco de perder uma parte de si em qualquer lado. São desfocados e dificilmente aparecem inteiros nas imagens recolhidas. Há uns que são bastante completos e que vivem em casas de vidros. Mas isolados dos outros perdem rapidamente o interesse pela vida mundana e acabam por petrificar. A maioria perde a totalidade da sua forma original várias vezes ao dia, e pouco se sabe se se reconstituem ou não. Os seus perdidos vapores permanecem no ar a uma altura não muito superior à da estatura média de uma árvore de grande porte. É do conhecimento geral que perdem os sapatos quando se lhes evaporam os pés e que os há aos milhões espalhados pelas ruas em virtude do facto. Mas também anéis desaparecem se os dedos das mãos se esfumam, ou outros objectos que se poderiam usar noutros sítios corpóreos se vão se o corpo que os segura se vai. O vapor é mais intenso a certas horas do dia: ao meio-dia, por exemplo, há sempre mais vapor que ao fim da tarde. Também as condições atmosféricas têm um efeito directo no mistério da evaporação.

domingo, 7 de novembro de 2010

92



Vou encerrar para balanço. Aproveito a ocasião para mudar as peças gastas e verificar os vários níveis em que me encontro. Vou fazer uma revisão geral à doutrina que venho afincadamente seguindo por forma a alterar a rotina. E depois? Depois sei lá. Provavelmente atiro-me de novo às contas da vida.
Volto depois do dia 5 de Dezembro
com uma nova colecção de imagens para que as usem durante todo o Inverno a vosso bel-prazer.


Obrigado pela atenção dispensada.

domingo, 17 de outubro de 2010

91


Tenho estado do lado de lá da crosta dura do pão. É por isso que por aqui não tenho passado. Tenho estado do lado dos outros que têm pouco pão e que não têm mais nada que um pouco de nada. É aí que tenho estado, na terra onde a sopa é feita de nada e temperada de sal e pedras da terra. É aí que tenho passado os últimos dias.

sábado, 9 de outubro de 2010

90


Coisas lamentáveis me esperam. A todos a sua parte e não só a mim. Coisas deploráveis nos aguardam enquanto descemos ao próximo patamar do inferno. É isto que penso dos dias que virão a seguir a este. Hoje pleno de satisfação. Amanhã, enfim, sem certezas, espero encontrar alimento que me assente no estômago no lugar de uma dúvida colorida em forma de caracol. Caminho devagar, eu sei disso. O mundo perde as penas e torna-se grisalho ao vê-lo como o vejo. Vou entre as pedras que se plantam à falta de quem as pode e caminho lentamente entre os rochedos que aqui existem. Junta-se-lhe o frio. O arrefecimento nocturno, que que me retira a serenidade do calor no corpo e que me tolhe os músculos ao ponto da dor, faz-me acreditar que hoje iniciei um novo ciclo. Este é mais pleno e interior. Espalha-se mais fundo. Entranha-se de outra forma na gente.