No calor da quadra, ofereço-vos o meu preferido conto de Natal. É do Kafka. O Abutre Era um abutre que não parava de me dar bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias e começava agora a atacar-me os próprios pés. Investia sem parar, levantava voo, esvoaçava inquieto à minha volta, em círculos, e retomava o seu trabalho. Apareceu então um senhor que ficou a observar aquilo durante algum tempo, até que me perguntou porque é que eu suportava as investidas do abutre:"Ele apareceu e quando começou com as bicadas é claro que o quis enxotar. Na verdade até tentei estrangulá-lo, mas um bicho destes tem imensa força. E depois também já tentou saltar-me para a cara, por isso preferi sacrificar os pés, que agora já estão quase despedaçados." "Como pode permitir que o torturem dessa maneira", insistiu o senhor, "um tiro e acabou-se o abutre." "Acha que sim?", perguntei. "E então não pode tratar disso?" "Com todo o gosto", dis…