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Mensagens

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Há coisas do existir que sabem a nada. Outras que explodem em partículas e que nunca mais se podem voltar a ver como eram. Há ganchos por aí, e pentes para cabelos ermos. Bigornas, gruas gigantescas, e armazéns de ferro velho. Para variados fins e usos indeterminados, máquinas de todas as cores. Há coisas do existir em todo o lado. Livros descrevem-nas, uns melhor que outros. Bibliotecas inteiras repletas de coisas que sabemos existir. Delas, muitas, reconhecemos o nosso interesse na forma que têm. Nada interessa tanto como tudo o que há, e mesmo aquilo que não existe, tem reconhecido mérito. Serão as formas de existir o elemento único da visibilidade?

Perguntaram-me a que horas passava o autocarro. Respondi que não os há por aqui. Anda-se a pé.

94

Pôs no sítio das orelhas as orelhas de cão e chamou à sua presença o olhar cinzento do cão da casa. Sentou-se à altura dos olhos do cão e disse-lhe com gestos vírgulas e cedilhas no ar das palavras na língua de cão que ia partir e que lhe deixava toda a fortuna que tinha acumulada em cofres e baús espalhados pela casa. Disse-lhe tudo isto enquanto vestia a melhor roupa de sair, de forma serena, respirando entre palavras como se debitasse mel nas curvas das ideias. Falou-lhe para dentro das orelhas de cão e o cão muito atento pôs a cabeça de lado e entendeu tudo o que ouviu. Despediu-se de tudo que tinha pendurado nas paredes e mergulhou na água da sanita com a ajuda do pássaro vermelho de porcelana da China. No tubo que o havia de levar ao mar encontrou-se com o Lorca e fumaram um charuto na redondilha do fumo, que é uma espécie de poesia, que é uma espécie de poesia em forma de poesia de fumar. Perdeu-se num qualquer canto do mundo, é o que se sabe. Certo é que o cão e o pássaro verm…

93

Como são feitos de vapor, os habitantes da cidade não podem deslocar-se sem correr o risco de perder uma parte de si em qualquer lado. São desfocados e dificilmente aparecem inteiros nas imagens recolhidas. Há uns que são bastante completos e que vivem em casas de vidros. Mas isolados dos outros perdem rapidamente o interesse pela vida mundana e acabam por petrificar. A maioria perde a totalidade da sua forma original várias vezes ao dia, e pouco se sabe se se reconstituem ou não. Os seus perdidos vapores permanecem no ar a uma altura não muito superior à da estatura média de uma árvore de grande porte. É do conhecimento geral que perdem os sapatos quando se lhes evaporam os pés e que os há aos milhões espalhados pelas ruas em virtude do facto. Mas também anéis desaparecem se os dedos das mãos se esfumam, ou outros objectos que se poderiam usar noutros sítios corpóreos se vão se o corpo que os segura se vai. O vapor é mais intenso a certas horas do dia: ao meio-dia, por exemplo, há se…

92

Vou encerrar para balanço. Aproveito a ocasião para mudar as peças gastas e verificar os vários níveis em que me encontro. Vou fazer uma revisão geral à doutrina que venho afincadamente seguindo por forma a alterar a rotina. E depois? Depois sei lá. Provavelmente atiro-me de novo às contas da vida.
Volto depois do dia 5 de Dezembro
com uma nova colecção de imagens para que as usem durante todo o Inverno a vosso bel-prazer.

Obrigado pela atenção dispensada.

91

Tenho estado do lado de lá da crosta dura do pão. É por isso que por aqui não tenho passado. Tenho estado do lado dos outros que têm pouco pão e que não têm mais nada que um pouco de nada. É aí que tenho estado, na terra onde a sopa é feita de nada e temperada de sal e pedras da terra. É aí que tenho passado os últimos dias.

90

Coisas lamentáveis me esperam. A todos a sua parte e não só a mim. Coisas deploráveis nos aguardam enquanto descemos ao próximo patamar do inferno. É isto que penso dos dias que virão a seguir a este. Hoje pleno de satisfação. Amanhã, enfim, sem certezas, espero encontrar alimento que me assente no estômago no lugar de uma dúvida colorida em forma de caracol. Caminho devagar, eu sei disso. O mundo perde as penas e torna-se grisalho ao vê-lo como o vejo. Vou entre as pedras que se plantam à falta de quem as pode e caminho lentamente entre os rochedos que aqui existem. Junta-se-lhe o frio. O arrefecimento nocturno, que que me retira a serenidade do calor no corpo e que me tolhe os músculos ao ponto da dor, faz-me acreditar que hoje iniciei um novo ciclo. Este é mais pleno e interior. Espalha-se mais fundo. Entranha-se de outra forma na gente.

89

Estava a ver o solque se vinha pondo lá longe no fio do mundo que separa o céu da terra. Estava a vê-lo tingido de uma especial tonalidade de outono. Caía lentamente num cerro de nuvens. O ar já não tem aquela poeira da secura que fica presa nas palavras que se não dizem quando aspiramos o calor. Estou sentado nas telhas da minha casa, outra vez, de costas voltadas para a cascata que vem de cima. Vou mudar a pele, pensei. Em breve mudo a minha pele. Depois disso pode chover quando à natureza lhe der nas ganas que estarei preparado. Entretanto que venha o som do outono que já cá estou de malas feitas para o receber. E assim, o sol, desapareceu atrás da chaminé da cozinha e perfez outro dia. Acho que caiu em cima de Lisboa, ou talvez não.