domingo, 7 de novembro de 2010

92



Vou encerrar para balanço. Aproveito a ocasião para mudar as peças gastas e verificar os vários níveis em que me encontro. Vou fazer uma revisão geral à doutrina que venho afincadamente seguindo por forma a alterar a rotina. E depois? Depois sei lá. Provavelmente atiro-me de novo às contas da vida.
Volto depois do dia 5 de Dezembro
com uma nova colecção de imagens para que as usem durante todo o Inverno a vosso bel-prazer.


Obrigado pela atenção dispensada.

domingo, 17 de outubro de 2010

91


Tenho estado do lado de lá da crosta dura do pão. É por isso que por aqui não tenho passado. Tenho estado do lado dos outros que têm pouco pão e que não têm mais nada que um pouco de nada. É aí que tenho estado, na terra onde a sopa é feita de nada e temperada de sal e pedras da terra. É aí que tenho passado os últimos dias.

sábado, 9 de outubro de 2010

90


Coisas lamentáveis me esperam. A todos a sua parte e não só a mim. Coisas deploráveis nos aguardam enquanto descemos ao próximo patamar do inferno. É isto que penso dos dias que virão a seguir a este. Hoje pleno de satisfação. Amanhã, enfim, sem certezas, espero encontrar alimento que me assente no estômago no lugar de uma dúvida colorida em forma de caracol. Caminho devagar, eu sei disso. O mundo perde as penas e torna-se grisalho ao vê-lo como o vejo. Vou entre as pedras que se plantam à falta de quem as pode e caminho lentamente entre os rochedos que aqui existem. Junta-se-lhe o frio. O arrefecimento nocturno, que que me retira a serenidade do calor no corpo e que me tolhe os músculos ao ponto da dor, faz-me acreditar que hoje iniciei um novo ciclo. Este é mais pleno e interior. Espalha-se mais fundo. Entranha-se de outra forma na gente.

sábado, 25 de setembro de 2010

89




Estava a ver o sol que se vinha pondo lá longe no fio do mundo que separa o céu da terra. Estava a vê-lo tingido de uma especial tonalidade de outono. Caía lentamente num cerro de nuvens. O ar já não tem aquela poeira da secura que fica presa nas palavras que se não dizem quando aspiramos o calor. Estou sentado nas telhas da minha casa, outra vez, de costas voltadas para a cascata que vem de cima. Vou mudar a pele, pensei. Em breve mudo a minha pele. Depois disso pode chover quando à natureza lhe der nas ganas que estarei preparado. Entretanto que venha o som do outono que já cá estou de malas feitas para o receber. E assim, o sol, desapareceu atrás da chaminé da cozinha e perfez outro dia. Acho que caiu em cima de Lisboa, ou talvez não.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

88


Ela não tinha flores no cabelo, nem acreditava no fim do mundo. Era uma singular torre com cobertura de zinco perdida na verticalidade do horizonte infinito. Os dias amenos roubaram-lhe a plenitude, a elegância, o zigue-zague dos ferros e os parafusos, quando aos seus pés se depositou amarela a inquietude do verão.



quarta-feira, 8 de setembro de 2010

84



Oitenta e quatro é um número sereno. A filha mais velha saiu cedo de casa ao romper da aurora e levou pela mão o irmão mais novo. A casa ficará como sempre esteve e nenhum mal lhe virá. Os que ficarem continuarão a sentar-se em frente ao pessegueiro para o ver rebentar em flores. Talvez a sorte venha a proferir benefícios da cor da flor do pessegueiro. O dia será longo, como um longo dia de Verão.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Oitenta e três vezes




O barco que ele tinha seguia-o para todo o lado como um cão segue o dono. Chegava mesmo a sentar-se consigo à mesa, a dormir aos pés da sua cama e a suspirar pelos mesmos agravos da vida. Por vezes, em sonhos, quando dormiam, partilhavam a mesma expressão de maresia de quem gosta das coisas do mar.