terça-feira, 10 de agosto de 2010

81

Princípio e substância.
Quantas vezes serei capaz de dizer o mesmo quadro de cor?
A imagem é um facto artístico. Enquanto lugar de visibilidade considero-a mesmo o elemento reflexivo do mundo.
Um princípio é uma preposição de onde deriva o conhecimento para outras preposições que enumeram factos a partir dos quais se consideram outros factos. O princípio que detém esta extensa série de pintura, expressa-se na ideia de um processo de evolução ontológica.
Neste conjunto de pinturas integro os valores do património das sociedades, assimilados na permanência do acto de fazer que os abstractiza e caricaturiza. As figuras pintadas apresentam sempre um determinado grau de pureza e de autenticidade e servem a representação pictórica e, consequentemente, a imaginação.
Apresento uma espécie de viagem que denuncia os modos, as experiências, as convicções, as convenções e os dogmas das chamadas belas-artes, é certo; mas a evidência das representações dos meus objectos (identificáveis monstros e outras quiméricas efabulações), no seu significado simbólico são a medida da reprodução da memória e dos sentidos. Denunciam nas formas, na ilusão, na ironia e na inquietude, reverberações visuais e substâncias sem nome.
A confluência aqui produzida constitui um momento decididamente pessoal de expressão artística, que amplia a realidade visível, a capacidade de simulação e de encarnação, traduzidas num certo figurativismo que pertence por inteiro à pintura.
Vou estar no Módulo, Centro Difusor de Arte, em Lisboa, na Calçada dos Mestres, n.º 34 A, a partir de dia 11 de Setembro de 2010.
Estão convidados a ir ver.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

80

(De momento sem hipótese de incluir uma imagem)

A ilha acaba onde a estrada termina. Um curto abismo que deixa o coração a bater mais forte traz a brisa marítima à ponta do olfacto perdido. Nos lábios, na boca toda, sente-se-lhe o sal. A terra naquele ponto dá lugar ao mar tocado pelo vento ameno. Mesmo em frente ergue-se um gigantesco rochedo irmão da ilha. Uma coisa tamanha que os olhos não conseguem abarcar na totalidade, e, ainda assim, pequena que ninguém lá habita para além das aves. Pedaços mais pequenos, rochas menores, aparecem à superfície criando em conjunto com as ondas um outro ritmo, como um homem que coxeia enquanto anda, quase dançante. E o ar é quente, e o ar é doce, e ar debaixo deste céu coberto de nuvens é feito de uma delicada filigrana que faz parte do nosso suspirar. Sopra um arejo de norte para sul que faz abanar as abas do meu chapéu, uma coisa sem importância que mereça outro reparo.
Ao fim de alguns dias na ilha estou tocado pela graça da sua natureza que me provocou uma insana distracção dos males do mundo. Reparei, por exemplo, nas pessoas com quem me cruzei, almas com quem já me tinha encontrado no café, no ponto de compra dos jornais com actualizações do dia de ontem, na entrada do hotel, na hora do pequeno-almoço pela manhã. Ficámos estreitos ao ponto de nos saudarmos em bons dias. Mas ninguém arriscou a perder a sua solidão singular. Numa ilha estamos entregues à nossa pele. Saudamos perdidos ao ver passar o nosso corpo de ilhéu emprestado nos passos dos outros.
Este espaço serve para respirar e para tomar o sabor do mar. Estamos impregnados pelo mar.
Passo o tempo que não estou entregue à caneta dos desenhos de mel a entrar pelo azul. Trago de lá um secreto sorriso de felicidade no rosto. Nada mais.
A água é transparente. O mar desaparece escuro na linha do horizonte. Vê-se o fundo e as nossas pernas tortas a caírem para o fundo arenoso. Quase não há pedras deste lado da ilha, apenas uma areia de cor amarela que aqui foi deixada para delícia dos que a pisam.
Vou um dia aqui voltar, tenho a certeza que voltarei a viajar para sul para me servir deste mar outra e outra vez.

domingo, 11 de julho de 2010

79


História física de um quadro
dia 3

Foi então que começaram a aparecer os outros, logo depois de teres aparecido ao portão do jardim. Eu vi-os com que olhos te olhavam. Com a tua nova plumagem parecias uma espécie de rei nascido num pais exótico.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

78


História física de um quadro
dia 2


Devagar com essas botas soldado. Vê onde as poisas que este caminho é feito de pés descalços. Vê lá bem, anda com cuidado com essas botas que se usam nos caminhos que têm pedras e urtigas.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

77


História física de um quadro.
Dia 1.

É ainda um corpo sem palavras este corpo sem palavras. Aparenta ter uma mão atrás do corpo que ostenta bandeiras e mais nada.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

76




Que odor tens tu hoje que mal te cheirei o dia todo? Será essa essência a do alguidar verde de plástico que ressequiu à secura do ar uma consequência do estado do meu nariz? Sensível! Olha, trouxe os berlindes todos, queres um? Ou preferes um arroto de miolo de pão? Foi tudo o que encontrei no meus bolsos, berlindes e pão de ontem.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

75



Eu pedi a todos para que se sentassem no pátio a olhar para a objectiva de uma câmara fotográfica. E ao meu pedido apareceram quase todos a disfarçar o embaraço destas coisas onde se junta muita gente mas com um pingo de sentido de festa, que aquilo que eu vi por lá foram sorrisos e mais conversa a ver o que iria acontecer. E como sempre acontece no momento do retrato que antecede a boda, aqui, a coisa, também levou o seu tempo, e precisou de um arranjo na composição da cena e tudo. E foi assim que ficámos, mesmo em frente ao velho bloco de aulas, debaixo daquele céu cuja luz não ajudou, mas que nos poupou ao calor dos dias anteriores. Ficaram os que lá estiveram, elas e eles, quase todos a fazer um pequeno mar de gente a boiar sentados no pátio da escola mesmo à mão de semear da minha lente, a olhar o passarinho verde que eu tinha pousado no ombro. Adeus ó velha escola. Venha a nova, venha a nova.

A todos o meu abraço, e um muito obrigado sentido por terem aderido à iniciativa dos alunos do CEF-OF, da Escola Secundária de Montemor-o-novo.

domingo, 16 de maio de 2010

74


Na rua um cão comeu outro cão. Um olho viu outro olho e um sapato e uma mão; uma taça de vidro e uma pedra no chão. Na rua uma lâmpada e um clarão têm em comum a essência da luz, mas são o que são. Na rua, um cão, um cigarro e um homem sentado viram no céu um momento de silêncio que atravessava o mundo. E o dia dia ficou subitamente à espera de mais coisas que não chegaram a acontecer. Na rua um cão viu outro cão. Um olho comeu um gato à descrição.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

73



As minhas mãos enterradas no meloal entoaram canções que te fizeram rir até aos pontinhos que animavam a orografia do algodão que te cobria o peito. A madrugada serena tinha-se aproximado do meu sono e mimara-o como há muito tempo não o fazia. És tu outra vez na forma do teu lindíssimo par de mamas, perguntei? És tu outra vez não és, repeti? Sabias àquela hora do dia à romã da fruta, ao melão da horta, às ervas doces do mundo bizalho. Eras tu como sempre. E sei que eras tu pela forma a que sabias, como te tomei no meu gosto. Eu sei ao que sabes, (pelo menos acho que sei). Sei ao que sabem os tons da tua pele quando a lambo para dentro de mim. Eras tu, pronto! E agora sou eu, novamente como o gato arisco que sempre conheceste a escrever, a escrever como que a empurrar as palavras para longe da minha boca que às vezes é uma folha de papel. E fiquei assim a passear a minha distracção no olhar octogonal enquanto tu bebias o café da manhã.

sábado, 10 de abril de 2010

72


És como a paisagem daquele país que um dia vimos sob o calor que lá se sentia. Os corvos de vinhos e as rochas ressequidas esperavam que tu e eu lhes oferecêssemos a água que guardámos esse tempo todo na nossa boca. De nadar noutros oceanos enchemos a boca com água do mar salgado e assim ficámos em silêncio para não entornar a sede. Bebi a tua água em beijos de madrugada que sabiam a queijo, e sem dares conta
voltámos ao nosso terraço depois de enfiarmos nos pés uns sapatos novos que comprámos. Abrasada como sempre já podias falar outra vez. E foi o que fizeste. E eu ouvi tudo como se me entrasse a flor verão pelo corpo adentro.