segunda-feira, 28 de junho de 2010

77


História física de um quadro.
Dia 1.

É ainda um corpo sem palavras este corpo sem palavras. Aparenta ter uma mão atrás do corpo que ostenta bandeiras e mais nada.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

76




Que odor tens tu hoje que mal te cheirei o dia todo? Será essa essência a do alguidar verde de plástico que ressequiu à secura do ar uma consequência do estado do meu nariz? Sensível! Olha, trouxe os berlindes todos, queres um? Ou preferes um arroto de miolo de pão? Foi tudo o que encontrei no meus bolsos, berlindes e pão de ontem.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

75



Eu pedi a todos para que se sentassem no pátio a olhar para a objectiva de uma câmara fotográfica. E ao meu pedido apareceram quase todos a disfarçar o embaraço destas coisas onde se junta muita gente mas com um pingo de sentido de festa, que aquilo que eu vi por lá foram sorrisos e mais conversa a ver o que iria acontecer. E como sempre acontece no momento do retrato que antecede a boda, aqui, a coisa, também levou o seu tempo, e precisou de um arranjo na composição da cena e tudo. E foi assim que ficámos, mesmo em frente ao velho bloco de aulas, debaixo daquele céu cuja luz não ajudou, mas que nos poupou ao calor dos dias anteriores. Ficaram os que lá estiveram, elas e eles, quase todos a fazer um pequeno mar de gente a boiar sentados no pátio da escola mesmo à mão de semear da minha lente, a olhar o passarinho verde que eu tinha pousado no ombro. Adeus ó velha escola. Venha a nova, venha a nova.

A todos o meu abraço, e um muito obrigado sentido por terem aderido à iniciativa dos alunos do CEF-OF, da Escola Secundária de Montemor-o-novo.

domingo, 16 de maio de 2010

74


Na rua um cão comeu outro cão. Um olho viu outro olho e um sapato e uma mão; uma taça de vidro e uma pedra no chão. Na rua uma lâmpada e um clarão têm em comum a essência da luz, mas são o que são. Na rua, um cão, um cigarro e um homem sentado viram no céu um momento de silêncio que atravessava o mundo. E o dia dia ficou subitamente à espera de mais coisas que não chegaram a acontecer. Na rua um cão viu outro cão. Um olho comeu um gato à descrição.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

73



As minhas mãos enterradas no meloal entoaram canções que te fizeram rir até aos pontinhos que animavam a orografia do algodão que te cobria o peito. A madrugada serena tinha-se aproximado do meu sono e mimara-o como há muito tempo não o fazia. És tu outra vez na forma do teu lindíssimo par de mamas, perguntei? És tu outra vez não és, repeti? Sabias àquela hora do dia à romã da fruta, ao melão da horta, às ervas doces do mundo bizalho. Eras tu como sempre. E sei que eras tu pela forma a que sabias, como te tomei no meu gosto. Eu sei ao que sabes, (pelo menos acho que sei). Sei ao que sabem os tons da tua pele quando a lambo para dentro de mim. Eras tu, pronto! E agora sou eu, novamente como o gato arisco que sempre conheceste a escrever, a escrever como que a empurrar as palavras para longe da minha boca que às vezes é uma folha de papel. E fiquei assim a passear a minha distracção no olhar octogonal enquanto tu bebias o café da manhã.

sábado, 10 de abril de 2010

72


És como a paisagem daquele país que um dia vimos sob o calor que lá se sentia. Os corvos de vinhos e as rochas ressequidas esperavam que tu e eu lhes oferecêssemos a água que guardámos esse tempo todo na nossa boca. De nadar noutros oceanos enchemos a boca com água do mar salgado e assim ficámos em silêncio para não entornar a sede. Bebi a tua água em beijos de madrugada que sabiam a queijo, e sem dares conta
voltámos ao nosso terraço depois de enfiarmos nos pés uns sapatos novos que comprámos. Abrasada como sempre já podias falar outra vez. E foi o que fizeste. E eu ouvi tudo como se me entrasse a flor verão pelo corpo adentro.

sábado, 3 de abril de 2010

71 (Seventy one)



Apresto-me ao teu corpo com o corpo guardado nas mãos como uma concha de ver o mar. Apresto-me a isso e vou muito leve na direcção daquele horizonte azulado. Um suspiro transparente é o resultado do teu sono ao meu lado, uma viragem na noite, uma sinfonia galopante, uma luta de esgrima cristalina, uma rasgada melodia que me fazes cantar. Uma dor nas costas é o sentido da realidade a chamar por mim. Maçãs é tudo o que posso comer se sou uma concha nas mãos deste mar. E depois, dias iguais, dias iguais às palavras do meu livro.

segunda-feira, 29 de março de 2010

70


As mãos trocadas sobre o peito agarram-se aos cotovelos dos braços que lhes são opostos. Os braços cruzados daquela forma fazem a cabeça andar no ar a sentir a viragem do vento na nova estação. Um nariz de cão que é o que tenho e a que já dei melhor uso imprime às pernas um passo com ritmo mas não militar. Marcho pelas entranhas da terra com ritmo beat, quase a três tempos. E assim vou na direcção do acolá onde me disseram estar o que procuro. Foi um tipo gordo e baixo que me disse onde está aquilo que pretendo hoje ver. Disse-me que a coisa que pretendo está ali mais à frente, logo depois de se fazerem sentir todos os sortilégios da vida, na volta fresca das árvores, onde a curva se faz suave e a luz do Sol perturba menos. Agora, com as mãos livres, assobio de chapéu preto na cabeça e vou tirando dos bolsos as coisas que tenho vindo a guardar com o passar dos anos. Saco o que posso cá para fora sincopado pelo andar ligeiro que levo nas pernas, um, dois, três. Um, dois, três. Um, dois, três. Tenho, ora no bolso esquerdo do casaco, ora no direito, risonhos sapos que sabem muito sobre os assuntos da alma, cobras finas e longas conhecedoras de todos os verbos da gramática elementar de lamber chocolates e que também servem de atacadores de sapatos, lagartos de apitar nas corridas de bicicletas, as chuvas de outras monções, gatos de olhar acidulado, pedaços esboroados de pedra-pomes que sobraram de refeições menos ligeiras que fui obrigado a ingerir, estrelas do mar vermelhas para usar ao peito em dias de festas, ursos pardos e outros brancos, pó de talco em garrafinhas de plásticos, espelhos e vidros ópticos, brilhantes, colheres de pau de cabinda, chá verde em folhas, livros de contos eróticos - mas apenas as páginas mais interessantes -, rebuçados de naftalinas finas e todo um pedaço da Índia meridional que ainda ostenta tigres e pavões verdadeiros, alguns episódios da vida íntima daqueles que muito amei, outras coisas. Tenho mais. Tenho outras coisas. Tenho muito mais no fundo dos meus bolsos. Mas não vale a pena dizer tudo o que tenho. Tenho muitas coisas, pronto.

sábado, 27 de março de 2010

69


Estou da barriga para a frente a doer-me um ouvido que apita sempre que me sento ou me entrego a dormir. Nada, de resto, é tão simpático como o número 69 que são dois peixes que se mordem de prazer. E as ideias vão e vêm sem as pesar, por que se as meço logo a dona razão as trata de matar e a coisa a sair sai sem agilidade. Vai daí, hoje é dia de esticar a pernas e de cheirar as flores do campo, os marmelos virão mais tarde mas adivinham-se depois do estio, depois que nos varram os ventos quentes de Espanha até à secura dos ossos. Vou abrir todas as janelas cá de casa para que se misturem os móveis com os pólenes da estação, os tapetes com as ervas daninhas, as abóboras que despontam num canteiro especial com a literatura da prateleira bolorenta. Ouço cornetas, sanfonas e buzinas de luz que o tempo se pôs de modos mais temperados e que é como se nevasse em pleno Abril que ainda está para chegar.

terça-feira, 23 de março de 2010

68



Vai forte e pássaros vindos de todos os lados aquele rio que não é meu. Ouço-os, aos pássaros, voando no céu das nuvens que não me pertencem em círculos altos e febris. (Escrevo enquanto bebo água num copo). O meu rio é mais largo e mais espesso que este daqui. Os pássaros são iguais em todo o lado e não pertencem a ninguém, os rios sim, têm donos e pertencem sempre a alguém. São-nos dados antes de sermos homens feitos e crescem connosco, agarrados a nós, aos pés, às mãos, ao resto. Por isso é que têm segredos os rios, como os nomes das pessoas a quem pertencem, por vínculo natural dos que lhes querem como a irmãos. Se têm peixes, é certo que estes saibam dos assuntos do mundo que se podem ver nos seus olhos grandes e profundos. Mas só alguns de nós sabem ler essas histórias. Leva mais água o meu rio que este daqui e confunde-se na sua cor com o cheiro do mar. E eu estava nisto, sentado tarde dentro em frente das palavras a montá-las em silêncio como faço com as imagens quando vi um anjo negro a devorar ávido as folhas do limoeiro que tenho no terraço. Ficou ali a comer muito sôfrego e a olhar para mim. E eu nada, nem me mexi. Não gosto destes bichos, meios pássaros, meios homens, fazem-me impressão. E fazia música a sua queixada quadrada de burro a mastigar as folhas da árvore. Sim, era música, aquilo que lhe saía dos ouvidos enquanto mastigava. Fechei os olhos e deixei que me levasse aquela música, tal como Ulisses quando amarrado ao mastro do seu barco. Não me mexi. O som era de outras esferas, bem posso dizê-lo que não era deste lado da vida. Chegava-me à cabeça entrando pelos poros da pele. Limpou a boca no braço esquerdo, alisou a pele do corpo e sacudiu as escamas de reflexos azuis dos restos das folhas mastigadas, acenou-me e fez um gesto que se pareceu com um sorriso. Acenderam-se-lhe os foguetes presos nas costas e partiu na direcção do céu dos pássaros. Deixou um rasto de fumo preto com cheiro forte a querosene que me agoniou ao ponto do vómito. Ainda espreitei pela janela a vê-lo por ali acima a descrever uma curva muito subtil. Perdeu-se nas nuvens mais altas, já fora do alcance dos meus olhos. Contra a minha vontade choveu outra vez nessa tarde. (Bebi o resto da água e fui sentar-me debaixo do telheiro para ver cair a chuva de perto).