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Mensagens

75

Eu pedi a todos para que se sentassem no pátio a olhar para a objectiva de uma câmara fotográfica. E ao meu pedido apareceram quase todos a disfarçar o embaraço destas coisas onde se junta muita gente mas com um pingo de sentido de festa, que aquilo que eu vi por lá foram sorrisos e mais conversa a ver o que iria acontecer. E como sempre acontece no momento do retrato que antecede a boda, aqui, a coisa, também levou o seu tempo, e precisou de um arranjo na composição da cena e tudo. E foi assim que ficámos, mesmo em frente ao velho bloco de aulas, debaixo daquele céu cuja luz não ajudou, mas que nos poupou ao calor dos dias anteriores. Ficaram os que lá estiveram, elas e eles, quase todos a fazer um pequeno mar de gente a boiar sentados no pátio da escola mesmo à mão de semear da minha lente, a olhar o passarinho verde que eu tinha pousado no ombro. Adeus ó velha escola. Venha a nova, venha a nova.

A todos o meu abraço, e um muito obrigado sentido por terem aderido à iniciativa dos …

74

Na rua um cão comeu outro cão. Um olho viu outro olho e um sapato e uma mão; uma taça de vidro e uma pedra no chão. Na rua uma lâmpada e um clarão têm em comum a essência da luz, mas são o que são. Na rua, um cão, um cigarro e um homem sentado viram no céu um momento de silêncio que atravessava o mundo. E o dia dia ficou subitamente à espera de mais coisas que não chegaram a acontecer. Na rua um cão viu outro cão. Um olho comeu um gato à descrição.

73

As minhas mãos enterradas no meloal entoaram canções que te fizeram rir até aos pontinhos que animavam a orografia do algodão que te cobria o peito. A madrugada serena tinha-se aproximado do meu sono e mimara-o como há muito tempo não o fazia. És tu outra vez na forma do teu lindíssimo par de mamas, perguntei? És tu outra vez não és, repeti? Sabias àquela hora do dia à romã da fruta, ao melão da horta, às ervas doces do mundo bizalho. Eras tu como sempre. E sei que eras tu pela forma a que sabias, como te tomei no meu gosto. Eu sei ao que sabes, (pelo menos acho que sei). Sei ao que sabem os tons da tua pele quando a lambo para dentro de mim. Eras tu, pronto! E agora sou eu, novamente como o gato arisco que sempre conheceste a escrever, a escrever como que a empurrar as palavras para longe da minha boca que às vezes é uma folha de papel. E fiquei assim a passear a minha distracção no olhar octogonal enquanto tu bebias o café da manhã.

72

És como a paisagem daquele país que um dia vimos sob o calor que lá se sentia. Os corvos de vinhos e as rochas ressequidas esperavam que tu e eu lhes oferecêssemos a água que guardámos esse tempo todo na nossa boca. De nadar noutros oceanos enchemos a boca com água do mar salgado e assim ficámos em silêncio para não entornar a sede. Bebi a tua água em beijos de madrugada que sabiam a queijo, e sem dares conta voltámos ao nosso terraço depois de enfiarmos nos pés uns sapatos novos que comprámos. Abrasada como sempre já podias falar outra vez.E foi o que fizeste. E eu ouvi tudo como se me entrasse a flor verão pelo corpo adentro.

71 (Seventy one)

Apresto-me ao teu corpo com o corpo guardado nas mãos como uma concha de ver o mar. Apresto-me a isso e vou muito leve na direcção daquele horizonte azulado. Um suspiro transparente é o resultado do teu sono ao meu lado, uma viragem na noite, uma sinfonia galopante, uma luta de esgrima cristalina, uma rasgada melodia que me fazes cantar. Uma dor nas costas é o sentido da realidade a chamar por mim. Maçãs é tudo o que posso comer se sou uma concha nas mãos deste mar. E depois, dias iguais, dias iguais às palavras do meu livro.

70

As mãos trocadas sobre o peito agarram-se aos cotovelos dos braços que lhes são opostos. Os braços cruzados daquela forma fazem a cabeça andar no ar a sentir a viragem do vento na nova estação. Um nariz de cão que é o que tenho e a que já dei melhor uso imprime às pernas um passo com ritmo mas não militar. Marcho pelas entranhas da terra com ritmo beat, quase a três tempos. E assim vou na direcção do acolá onde me disseram estar o que procuro. Foi um tipo gordo e baixo que me disse onde está aquilo que pretendo hoje ver. Disse-me que a coisa que pretendo está ali mais à frente, logo depois de se fazerem sentir todos os sortilégios da vida, na volta fresca das árvores, onde a curva se faz suave e a luz do Sol perturba menos. Agora, com as mãos livres, assobio de chapéu preto na cabeça e vou tirando dos bolsos as coisas que tenho vindo a guardar com o passar dos anos. Saco o que posso cá para fora sincopado pelo andar ligeiro que levo nas pernas, um, dois, três. Um, dois, três. Um, dois…

69

Estou da barriga para a frente a doer-me um ouvido que apita sempre que me sento ou me entrego a dormir. Nada, de resto, é tão simpático como o número 69 que são dois peixes que se mordem de prazer. E as ideias vão e vêm sem as pesar, por que se as meço logo a dona razão as trata de matar e a coisa a sair sai sem agilidade. Vai daí, hoje é dia de esticar a pernas e de cheirar as flores do campo, os marmelos virão mais tarde mas adivinham-se depois do estio, depois que nos varram os ventos quentes de Espanha até à secura dos ossos. Vou abrir todas as janelas cá de casa para que se misturem os móveis com os pólenes da estação, os tapetes com as ervas daninhas, as abóboras que despontam num canteiro especial com a literatura da prateleira bolorenta. Ouço cornetas, sanfonas e buzinas de luz que o tempo se pôs de modos mais temperados e que é como se nevasse em pleno Abril que ainda está para chegar.