És como a paisagem daquele país que um dia vimos sob o calor que lá se sentia. Os corvos de vinhos e as rochas ressequidas esperavam que tu e eu lhes oferecêssemos a água que guardámos esse tempo todo na nossa boca. De nadar noutros oceanos enchemos a boca com água do mar salgado e assim ficámos em silêncio para não entornar a sede. Bebi a tua água em beijos de madrugada que sabiam a queijo, e sem dares conta voltámos ao nosso terraço depois de enfiarmos nos pés uns sapatos novos que comprámos. Abrasada como sempre já podias falar outra vez. E foi o que fizeste. E eu ouvi tudo como se me entrasse a flor verão pelo corpo adentro.
sábado, 10 de abril de 2010
72
És como a paisagem daquele país que um dia vimos sob o calor que lá se sentia. Os corvos de vinhos e as rochas ressequidas esperavam que tu e eu lhes oferecêssemos a água que guardámos esse tempo todo na nossa boca. De nadar noutros oceanos enchemos a boca com água do mar salgado e assim ficámos em silêncio para não entornar a sede. Bebi a tua água em beijos de madrugada que sabiam a queijo, e sem dares conta voltámos ao nosso terraço depois de enfiarmos nos pés uns sapatos novos que comprámos. Abrasada como sempre já podias falar outra vez. E foi o que fizeste. E eu ouvi tudo como se me entrasse a flor verão pelo corpo adentro.
sábado, 3 de abril de 2010
71 (Seventy one)
Apresto-me ao teu corpo com o corpo guardado nas mãos como uma concha de ver o mar. Apresto-me a isso e vou muito leve na direcção daquele horizonte azulado. Um suspiro transparente é o resultado do teu sono ao meu lado, uma viragem na noite, uma sinfonia galopante, uma luta de esgrima cristalina, uma rasgada melodia que me fazes cantar. Uma dor nas costas é o sentido da realidade a chamar por mim. Maçãs é tudo o que posso comer se sou uma concha nas mãos deste mar. E depois, dias iguais, dias iguais às palavras do meu livro.
segunda-feira, 29 de março de 2010
70
As mãos trocadas sobre o peito agarram-se aos cotovelos dos braços que lhes são opostos. Os braços cruzados daquela forma fazem a cabeça andar no ar a sentir a viragem do vento na nova estação. Um nariz de cão que é o que tenho e a que já dei melhor uso imprime às pernas um passo com ritmo mas não militar. Marcho pelas entranhas da terra com ritmo beat, quase a três tempos. E assim vou na direcção do acolá onde me disseram estar o que procuro. Foi um tipo gordo e baixo que me disse onde está aquilo que pretendo hoje ver. Disse-me que a coisa que pretendo está ali mais à frente, logo depois de se fazerem sentir todos os sortilégios da vida, na volta fresca das árvores, onde a curva se faz suave e a luz do Sol perturba menos. Agora, com as mãos livres, assobio de chapéu preto na cabeça e vou tirando dos bolsos as coisas que tenho vindo a guardar com o passar dos anos. Saco o que posso cá para fora sincopado pelo andar ligeiro que levo nas pernas, um, dois, três. Um, dois, três. Um, dois, três. Tenho, ora no bolso esquerdo do casaco, ora no direito, risonhos sapos que sabem muito sobre os assuntos da alma, cobras finas e longas conhecedoras de todos os verbos da gramática elementar de lamber chocolates e que também servem de atacadores de sapatos, lagartos de apitar nas corridas de bicicletas, as chuvas de outras monções, gatos de olhar acidulado, pedaços esboroados de pedra-pomes que sobraram de refeições menos ligeiras que fui obrigado a ingerir, estrelas do mar vermelhas para usar ao peito em dias de festas, ursos pardos e outros brancos, pó de talco em garrafinhas de plásticos, espelhos e vidros ópticos, brilhantes, colheres de pau de cabinda, chá verde em folhas, livros de contos eróticos - mas apenas as páginas mais interessantes -, rebuçados de naftalinas finas e todo um pedaço da Índia meridional que ainda ostenta tigres e pavões verdadeiros, alguns episódios da vida íntima daqueles que muito amei, outras coisas. Tenho mais. Tenho outras coisas. Tenho muito mais no fundo dos meus bolsos. Mas não vale a pena dizer tudo o que tenho. Tenho muitas coisas, pronto.
sábado, 27 de março de 2010
69
Estou da barriga para a frente a doer-me um ouvido que apita sempre que me sento ou me entrego a dormir. Nada, de resto, é tão simpático como o número 69 que são dois peixes que se mordem de prazer. E as ideias vão e vêm sem as pesar, por que se as meço logo a dona razão as trata de matar e a coisa a sair sai sem agilidade. Vai daí, hoje é dia de esticar a pernas e de cheirar as flores do campo, os marmelos virão mais tarde mas adivinham-se depois do estio, depois que nos varram os ventos quentes de Espanha até à secura dos ossos. Vou abrir todas as janelas cá de casa para que se misturem os móveis com os pólenes da estação, os tapetes com as ervas daninhas, as abóboras que despontam num canteiro especial com a literatura da prateleira bolorenta. Ouço cornetas, sanfonas e buzinas de luz que o tempo se pôs de modos mais temperados e que é como se nevasse em pleno Abril que ainda está para chegar.
terça-feira, 23 de março de 2010
68

Vai forte e pássaros vindos de todos os lados aquele rio que não é meu. Ouço-os, aos pássaros, voando no céu das nuvens que não me pertencem em círculos altos e febris. (Escrevo enquanto bebo água num copo). O meu rio é mais largo e mais espesso que este daqui. Os pássaros são iguais em todo o lado e não pertencem a ninguém, os rios sim, têm donos e pertencem sempre a alguém. São-nos dados antes de sermos homens feitos e crescem connosco, agarrados a nós, aos pés, às mãos, ao resto. Por isso é que têm segredos os rios, como os nomes das pessoas a quem pertencem, por vínculo natural dos que lhes querem como a irmãos. Se têm peixes, é certo que estes saibam dos assuntos do mundo que se podem ver nos seus olhos grandes e profundos. Mas só alguns de nós sabem ler essas histórias. Leva mais água o meu rio que este daqui e confunde-se na sua cor com o cheiro do mar. E eu estava nisto, sentado tarde dentro em frente das palavras a montá-las em silêncio como faço com as imagens quando vi um anjo negro a devorar ávido as folhas do limoeiro que tenho no terraço. Ficou ali a comer muito sôfrego e a olhar para mim. E eu nada, nem me mexi. Não gosto destes bichos, meios pássaros, meios homens, fazem-me impressão. E fazia música a sua queixada quadrada de burro a mastigar as folhas da árvore. Sim, era música, aquilo que lhe saía dos ouvidos enquanto mastigava. Fechei os olhos e deixei que me levasse aquela música, tal como Ulisses quando amarrado ao mastro do seu barco. Não me mexi. O som era de outras esferas, bem posso dizê-lo que não era deste lado da vida. Chegava-me à cabeça entrando pelos poros da pele. Limpou a boca no braço esquerdo, alisou a pele do corpo e sacudiu as escamas de reflexos azuis dos restos das folhas mastigadas, acenou-me e fez um gesto que se pareceu com um sorriso. Acenderam-se-lhe os foguetes presos nas costas e partiu na direcção do céu dos pássaros. Deixou um rasto de fumo preto com cheiro forte a querosene que me agoniou ao ponto do vómito. Ainda espreitei pela janela a vê-lo por ali acima a descrever uma curva muito subtil. Perdeu-se nas nuvens mais altas, já fora do alcance dos meus olhos. Contra a minha vontade choveu outra vez nessa tarde. (Bebi o resto da água e fui sentar-me debaixo do telheiro para ver cair a chuva de perto).
segunda-feira, 22 de março de 2010
67
Vi nas pedras do chão da rua desvelar-se um desenho estendido no negrume. E segui-o como um fio. Era uma espécie de minhoca gráfica que se desenvolvia numa série interminável de monstros e outras aberrações. E foi através destes complexos enredos semelhantes a degenerescências biológicas que me deixei levar. Saltavam aos olhos, vorazes, horrendos, poéticos, sei lá. Aos olhos tinha-os cheios de comichões e lamentei agudamente cada grama de pó que entrou na festa da lágrima, mais parecia sessão no inferno que coisa deste mundo. As mãos, quentes de calor doentio, postas a coçar a cabeça a ponto de rebentar ao mínimo ruído, completavam o drama, mais umas pérolas de água e sal que afloravam na testa e outros sinais inerentes ao brotar da Primavera nos campos do meu país. Depois para o meio do dia o Sol que parecia ter vencido todas as suas preocupações instalou-se forte e contundente, e acordou-me de vez de um sonho que me derrubou da realidade. Fiquei a pensar em receitas antigas e arrastei-me até uma zona de sombra que já ali estava há muitos séculos sob o peso do futuro como se fosse uma pechincha de feira, recalcado a madrepérola e pegas douradas de latão. Aguardei para ver se passava. E passou.
quinta-feira, 18 de março de 2010
66
segunda-feira, 15 de março de 2010
65
Sou por um fio um homem preso aos meus braços. É dali que faço o gesto com que faço a minha vida toda quando me sento a pensar nas imagens, nas coisas que quero ver, nas que não vejo, naquilo tudo que não sei nomear. Prefiro sentir-me, mesmo vermelho e inchado de coisas para dizer, prefiro dizer-me que sou por um fio aquilo que sou preso aos meus braços quando me agito a fazer o que faço. Brotam sem nome outras coisas. Sabem do que escrevo.
64
O céu da boca do mundo estragou-se. Andava avariado por causa de um qualquer seu assunto interno que verdadeiramente desconheço. E recusava-se a entrar nos eixos, o céu da boca do mundo. Cendrou-se contra tudo o que era coisa infinita de se ver e mais além tomou conta dos espíritos da água, dos porcos-espinhos, dos pássaros de todas as espécies, das montanhas e dos vales outrora floridos, das nuvens perdidas, dos ventos iguais, do desejo de querer, do desejo de não querer.
Levantei-me vagaroso e peguei numa caneta afiada enquanto a luz se fazia sentir. Resolvi talhar o horizonte. Arei com longos traços em volta de uma mancha desigual o sentido do meu desenho. A realidade desengana-me sempre que me sinto dentro de mim. Voltei ao papel, voltei ao papel e espero as flores que hão-de nascer destes prados que invento a risco.
Levantei-me vagaroso e peguei numa caneta afiada enquanto a luz se fazia sentir. Resolvi talhar o horizonte. Arei com longos traços em volta de uma mancha desigual o sentido do meu desenho. A realidade desengana-me sempre que me sinto dentro de mim. Voltei ao papel, voltei ao papel e espero as flores que hão-de nascer destes prados que invento a risco.
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