Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

71 (Seventy one)

Apresto-me ao teu corpo com o corpo guardado nas mãos como uma concha de ver o mar. Apresto-me a isso e vou muito leve na direcção daquele horizonte azulado. Um suspiro transparente é o resultado do teu sono ao meu lado, uma viragem na noite, uma sinfonia galopante, uma luta de esgrima cristalina, uma rasgada melodia que me fazes cantar. Uma dor nas costas é o sentido da realidade a chamar por mim. Maçãs é tudo o que posso comer se sou uma concha nas mãos deste mar. E depois, dias iguais, dias iguais às palavras do meu livro.

70

As mãos trocadas sobre o peito agarram-se aos cotovelos dos braços que lhes são opostos. Os braços cruzados daquela forma fazem a cabeça andar no ar a sentir a viragem do vento na nova estação. Um nariz de cão que é o que tenho e a que já dei melhor uso imprime às pernas um passo com ritmo mas não militar. Marcho pelas entranhas da terra com ritmo beat, quase a três tempos. E assim vou na direcção do acolá onde me disseram estar o que procuro. Foi um tipo gordo e baixo que me disse onde está aquilo que pretendo hoje ver. Disse-me que a coisa que pretendo está ali mais à frente, logo depois de se fazerem sentir todos os sortilégios da vida, na volta fresca das árvores, onde a curva se faz suave e a luz do Sol perturba menos. Agora, com as mãos livres, assobio de chapéu preto na cabeça e vou tirando dos bolsos as coisas que tenho vindo a guardar com o passar dos anos. Saco o que posso cá para fora sincopado pelo andar ligeiro que levo nas pernas, um, dois, três. Um, dois, três. Um, dois…

69

Estou da barriga para a frente a doer-me um ouvido que apita sempre que me sento ou me entrego a dormir. Nada, de resto, é tão simpático como o número 69 que são dois peixes que se mordem de prazer. E as ideias vão e vêm sem as pesar, por que se as meço logo a dona razão as trata de matar e a coisa a sair sai sem agilidade. Vai daí, hoje é dia de esticar a pernas e de cheirar as flores do campo, os marmelos virão mais tarde mas adivinham-se depois do estio, depois que nos varram os ventos quentes de Espanha até à secura dos ossos. Vou abrir todas as janelas cá de casa para que se misturem os móveis com os pólenes da estação, os tapetes com as ervas daninhas, as abóboras que despontam num canteiro especial com a literatura da prateleira bolorenta. Ouço cornetas, sanfonas e buzinas de luz que o tempo se pôs de modos mais temperados e que é como se nevasse em pleno Abril que ainda está para chegar.

68

Vai forte e pássaros vindos de todos os lados aquele rio que não é meu. Ouço-os, aos pássaros, voando no céu das nuvens que não me pertencem em círculos altos e febris. (Escrevo enquanto bebo água num copo). O meu rio é mais largo e mais espesso que este daqui. Os pássaros são iguais em todo o lado e não pertencem a ninguém, os rios sim, têm donos e pertencem sempre a alguém. São-nos dados antes de sermos homens feitos e crescem connosco, agarrados a nós, aos pés, às mãos, ao resto. Por isso é que têm segredos os rios, como os nomes das pessoas a quem pertencem, por vínculo natural dos que lhes querem como a irmãos. Se têm peixes, é certo que estes saibam dos assuntos do mundo que se podem ver nos seus olhos grandes e profundos. Mas só alguns de nós sabem ler essas histórias. Leva mais água o meu rio que este daqui e confunde-se na sua cor com o cheiro do mar. E eu estava nisto, sentado tarde dentro em frente das palavras a montá-las em silêncio como faço com as imagens quando vi u…

67

Vi nas pedras do chão da rua desvelar-se um desenho estendido no negrume. E segui-o como um fio. Era uma espécie de minhoca gráfica que se desenvolvia numa série interminável de monstros e outras aberrações. E foi através destes complexos enredos semelhantes a degenerescências biológicas que me deixei levar. Saltavam aos olhos, vorazes, horrendos, poéticos, sei lá. Aos olhos tinha-os cheios de comichões e lamentei agudamente cada grama de pó que entrou na festa da lágrima, mais parecia sessão no inferno que coisa deste mundo. As mãos, quentes de calor doentio, postas a coçar a cabeça a ponto de rebentar ao mínimo ruído, completavam o drama, mais umas pérolas de água e sal que afloravam na testa e outros sinais inerentes ao brotar da Primavera nos campos do meu país. Depois para o meio do dia o Sol que parecia ter vencido todas as suas preocupações instalou-se forte e contundente, e acordou-me de vez de um sonho que me derrubou da realidade. Fiquei a pensar em receitas antigas e arras…

66

Hoje estou dado a uma sonolenta tarde de modorra que me despertou o intelecto para outras aragens. Por isso, sem mais delongas, aproveito para declarar guerra à arte-gadget. Sim, eu disse que declarei guerra à arte-gadget. Sorvetes, berloques, lavadeiras de Caneças, antigas profissões de Lisboa: padeiros e coleccionadores de arte, por exemplo. Não, obrigado. Prefiro viagens à Pérsia, mesmo que pela mão distante e desconhecida da senhora Schwarzenbach. Prefiro descobrir a palavra da enfermidade que agrava o mundo sem lhe encobrir o padecimento. Decididamente, viagens à Pérsia, mesmo que ela não exista. Gadgets, não, porra! Assim, sempre que me cruzar com um objecto arte-gadget não vou olhar. E se olhar não hei-de pensar no que aquilo possa ser, hei-de reflectir para dentro, sumariamente, olha uma coisa-gadget, voilá. Provavelmente nem será nada de especial. Modorro-me, por hoje, como um gato distraído das responsabilidades do mundo.

65

Sou por um fio um homem preso aos meus braços. É dali que faço o gesto com que faço a minha vida toda quando me sento a pensar nas imagens, nas coisas que quero ver, nas que não vejo, naquilo tudo que não sei nomear. Prefiro sentir-me, mesmo vermelho e inchado de coisas para dizer, prefiro dizer-me que sou por um fio aquilo que sou preso aos meus braços quando me agito a fazer o que faço. Brotam sem nome outras coisas. Sabem do que escrevo.