Estou da barriga para a frente a doer-me um ouvido que apita sempre que me sento ou me entrego a dormir. Nada, de resto, é tão simpático como o número 69 que são dois peixes que se mordem de prazer. E as ideias vão e vêm sem as pesar, por que se as meço logo a dona razão as trata de matar e a coisa a sair sai sem agilidade. Vai daí, hoje é dia de esticar a pernas e de cheirar as flores do campo, os marmelos virão mais tarde mas adivinham-se depois do estio, depois que nos varram os ventos quentes de Espanha até à secura dos ossos. Vou abrir todas as janelas cá de casa para que se misturem os móveis com os pólenes da estação, os tapetes com as ervas daninhas, as abóboras que despontam num canteiro especial com a literatura da prateleira bolorenta. Ouço cornetas, sanfonas e buzinas de luz que o tempo se pôs de modos mais temperados e que é como se nevasse em pleno Abril que ainda está para chegar.
sábado, 27 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
68

Vai forte e pássaros vindos de todos os lados aquele rio que não é meu. Ouço-os, aos pássaros, voando no céu das nuvens que não me pertencem em círculos altos e febris. (Escrevo enquanto bebo água num copo). O meu rio é mais largo e mais espesso que este daqui. Os pássaros são iguais em todo o lado e não pertencem a ninguém, os rios sim, têm donos e pertencem sempre a alguém. São-nos dados antes de sermos homens feitos e crescem connosco, agarrados a nós, aos pés, às mãos, ao resto. Por isso é que têm segredos os rios, como os nomes das pessoas a quem pertencem, por vínculo natural dos que lhes querem como a irmãos. Se têm peixes, é certo que estes saibam dos assuntos do mundo que se podem ver nos seus olhos grandes e profundos. Mas só alguns de nós sabem ler essas histórias. Leva mais água o meu rio que este daqui e confunde-se na sua cor com o cheiro do mar. E eu estava nisto, sentado tarde dentro em frente das palavras a montá-las em silêncio como faço com as imagens quando vi um anjo negro a devorar ávido as folhas do limoeiro que tenho no terraço. Ficou ali a comer muito sôfrego e a olhar para mim. E eu nada, nem me mexi. Não gosto destes bichos, meios pássaros, meios homens, fazem-me impressão. E fazia música a sua queixada quadrada de burro a mastigar as folhas da árvore. Sim, era música, aquilo que lhe saía dos ouvidos enquanto mastigava. Fechei os olhos e deixei que me levasse aquela música, tal como Ulisses quando amarrado ao mastro do seu barco. Não me mexi. O som era de outras esferas, bem posso dizê-lo que não era deste lado da vida. Chegava-me à cabeça entrando pelos poros da pele. Limpou a boca no braço esquerdo, alisou a pele do corpo e sacudiu as escamas de reflexos azuis dos restos das folhas mastigadas, acenou-me e fez um gesto que se pareceu com um sorriso. Acenderam-se-lhe os foguetes presos nas costas e partiu na direcção do céu dos pássaros. Deixou um rasto de fumo preto com cheiro forte a querosene que me agoniou ao ponto do vómito. Ainda espreitei pela janela a vê-lo por ali acima a descrever uma curva muito subtil. Perdeu-se nas nuvens mais altas, já fora do alcance dos meus olhos. Contra a minha vontade choveu outra vez nessa tarde. (Bebi o resto da água e fui sentar-me debaixo do telheiro para ver cair a chuva de perto).
segunda-feira, 22 de março de 2010
67
Vi nas pedras do chão da rua desvelar-se um desenho estendido no negrume. E segui-o como um fio. Era uma espécie de minhoca gráfica que se desenvolvia numa série interminável de monstros e outras aberrações. E foi através destes complexos enredos semelhantes a degenerescências biológicas que me deixei levar. Saltavam aos olhos, vorazes, horrendos, poéticos, sei lá. Aos olhos tinha-os cheios de comichões e lamentei agudamente cada grama de pó que entrou na festa da lágrima, mais parecia sessão no inferno que coisa deste mundo. As mãos, quentes de calor doentio, postas a coçar a cabeça a ponto de rebentar ao mínimo ruído, completavam o drama, mais umas pérolas de água e sal que afloravam na testa e outros sinais inerentes ao brotar da Primavera nos campos do meu país. Depois para o meio do dia o Sol que parecia ter vencido todas as suas preocupações instalou-se forte e contundente, e acordou-me de vez de um sonho que me derrubou da realidade. Fiquei a pensar em receitas antigas e arrastei-me até uma zona de sombra que já ali estava há muitos séculos sob o peso do futuro como se fosse uma pechincha de feira, recalcado a madrepérola e pegas douradas de latão. Aguardei para ver se passava. E passou.
quinta-feira, 18 de março de 2010
66
segunda-feira, 15 de março de 2010
65
Sou por um fio um homem preso aos meus braços. É dali que faço o gesto com que faço a minha vida toda quando me sento a pensar nas imagens, nas coisas que quero ver, nas que não vejo, naquilo tudo que não sei nomear. Prefiro sentir-me, mesmo vermelho e inchado de coisas para dizer, prefiro dizer-me que sou por um fio aquilo que sou preso aos meus braços quando me agito a fazer o que faço. Brotam sem nome outras coisas. Sabem do que escrevo.
64
O céu da boca do mundo estragou-se. Andava avariado por causa de um qualquer seu assunto interno que verdadeiramente desconheço. E recusava-se a entrar nos eixos, o céu da boca do mundo. Cendrou-se contra tudo o que era coisa infinita de se ver e mais além tomou conta dos espíritos da água, dos porcos-espinhos, dos pássaros de todas as espécies, das montanhas e dos vales outrora floridos, das nuvens perdidas, dos ventos iguais, do desejo de querer, do desejo de não querer.
Levantei-me vagaroso e peguei numa caneta afiada enquanto a luz se fazia sentir. Resolvi talhar o horizonte. Arei com longos traços em volta de uma mancha desigual o sentido do meu desenho. A realidade desengana-me sempre que me sinto dentro de mim. Voltei ao papel, voltei ao papel e espero as flores que hão-de nascer destes prados que invento a risco.
Levantei-me vagaroso e peguei numa caneta afiada enquanto a luz se fazia sentir. Resolvi talhar o horizonte. Arei com longos traços em volta de uma mancha desigual o sentido do meu desenho. A realidade desengana-me sempre que me sinto dentro de mim. Voltei ao papel, voltei ao papel e espero as flores que hão-de nascer destes prados que invento a risco.
63
domingo, 7 de março de 2010
62

Eu tinha um pescoço longo e esguio e quando caminhava pelas ruas da minha cidade ia nele pendurado para a frente. Um dia o meu pescoço partiu-se. Fracturou-se em mil pedaços de luz e dor.
Eu tinha umas mãos alongadas que pareciam umas patas delicadas de obreiro sem dono. Eram como perfeitos pêndulos, fosse o meu corpo um relógio de precisão. Um dia uma das mãos não quis responder aos pedidos do papel porque chovia e deixou de falar como estava habituado a que falasse.
Eu tinha umas pernas que aguentavam marchas de muitos quilómetros e andava nelas pelas distâncias do mundo sem me cansar muito. De tanto correr nas pernas gastei o músculo, perdi a voz e a razão.
Eu tinha umas mãos alongadas que pareciam umas patas delicadas de obreiro sem dono. Eram como perfeitos pêndulos, fosse o meu corpo um relógio de precisão. Um dia uma das mãos não quis responder aos pedidos do papel porque chovia e deixou de falar como estava habituado a que falasse.
Eu tinha umas pernas que aguentavam marchas de muitos quilómetros e andava nelas pelas distâncias do mundo sem me cansar muito. De tanto correr nas pernas gastei o músculo, perdi a voz e a razão.
Ah! Aqui as pedras falam como se fossem deuses.
terça-feira, 2 de março de 2010
61 do botão do casaco

Espero-te aqui na casa do casaco do botão partido. Quando voltares ainda cá estarei, prometo. Se não estiver aqui onde agora me encontro repara por mim mais abaixo. Ali mesmo, antes do virar da esquina, perto da casa dos alizares castanhos. Apontava para uma espécie de inferno divertido enquanto cerzia um fio de conversa sem resposta na ponta de um dedo: ainda cá estarei quando voltares, (gritava), talvez não saia daqui encostada ao muro de cal. Aquela que ali estiver hei-de ser eu. Daqui não saio nem vou a lado nenhum que o tempo não me chega a tanto, fico a olhar o céu, está bem? Seguiam-se considerações meteorológicas que ponteavam a conversa e a devolviam à realidade para lá da razão. E eu todo ouvidos. E logo eu capaz de a entender no mínimo detalhe sobre o que me era proposto. Eu cheio de atenção. É capaz de chover lá mais para a tarde, lá mais para o fim do dia. Vamos, despacha-te! Continuava a desfiar palavras suas que me prendiam. O afecto que lhe tinha manifestava-se nos meus sapatos inquietos que raspavam o chão esperando uma ordem de partida num tom mais determinado ainda. Era por isso que ainda ali estava, impregnado. Espero que não te demores que a cal larga de si e suja a roupa toda. Espero-te aqui encostada à parede, vai, anda! Quando já tomava o meu caminho ao largo gritou-me por cima do ombro apanhando-me no ouvido, à vinda passa pelo jardim que ainda lá deve estar o homem das castanhas a aguar os olhos. Faz-lhe um aceno. Diz-lhe que amanhã, se o tempo abrir, haveremos de passear pelo jardim a ver as flores. E eu fazia um gesto de quem tudo entendera e em pé de ir ficava tipo a minha figura toda em redondo feliz, vermelho em volta, desligado das distracções que o mundo dava. O botão do casaco de preto cabedal de que ela falava era o último a contar de cima. Um meio botão de plástico que existia lá em baixo perto da braguilha das calças onde não fazia falta um botão de apertar. Eu quase nunca utilizava este botão de que ela falava.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
60 e chove

Sabem que mais? Estou cheio de pressa. É isso mesmo, cheio de pressa. Nem tenho tempo para comer e só vesti meia manga do casaco e vou já sair daqui. (Ando a ver se encontro as chaves, a carteira e o boné para correr a voar daqui de um salto). Pois hoje é o dia em que vou voltar ao labirinto. Isso mesmo, ao labirinto. A bicharada espera-me lá ansiosa pelo meu regresso. Deixei-os apenas por alguns dias e parece que já andam a comer a cal das paredes. É tempo de regressar. Confesso que levei o espírito a vaguear a outras paragens, mas a borrasca é de tal ordem que me vejo aflito para andar enxuto, e por isso decidi regressar. Estou cheio de saudades dos meus clamorosos seres e terão eles minhas, certamente, que os trato bem. Quando lá chegar vou direito ao grande vermelho e faço-lhe uma daquelas festas no lombo que o gajo até revira os olhos de contente. Depois enrolado nas coisas que sempre têm para me dizer finto a realidade e faço um pão para o jantar. Hei-de senta-los à minha volta e com as mãos até que nos passe a fome haveremos de comer. Dão saltos de alegria, os meus bichos, quando me vêem chegar ao portão dos sonhos. Levo-lhes na sacola farelo doce e flores de jasmim, uma finíssima tinta de cor azul e um frasco de carbonato de chumbo que lhe dá aquele brilho mágico que o branco pode ter. E como brilham eles vistosos no escuro. Hoje vou voltar a mergulhar nas ruas delirantes do labirinto e talvez regresse de lá com um tapete tecido de histórias novas. Levo para mim café, gafanhotos de chocolate e mel da chuva. Fico uma semana, depois logo se vê.
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