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Mensagens

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Vai forte e pássaros vindos de todos os lados aquele rio que não é meu. Ouço-os, aos pássaros, voando no céu das nuvens que não me pertencem em círculos altos e febris. (Escrevo enquanto bebo água num copo). O meu rio é mais largo e mais espesso que este daqui. Os pássaros são iguais em todo o lado e não pertencem a ninguém, os rios sim, têm donos e pertencem sempre a alguém. São-nos dados antes de sermos homens feitos e crescem connosco, agarrados a nós, aos pés, às mãos, ao resto. Por isso é que têm segredos os rios, como os nomes das pessoas a quem pertencem, por vínculo natural dos que lhes querem como a irmãos. Se têm peixes, é certo que estes saibam dos assuntos do mundo que se podem ver nos seus olhos grandes e profundos. Mas só alguns de nós sabem ler essas histórias. Leva mais água o meu rio que este daqui e confunde-se na sua cor com o cheiro do mar. E eu estava nisto, sentado tarde dentro em frente das palavras a montá-las em silêncio como faço com as imagens quando vi u…

67

Vi nas pedras do chão da rua desvelar-se um desenho estendido no negrume. E segui-o como um fio. Era uma espécie de minhoca gráfica que se desenvolvia numa série interminável de monstros e outras aberrações. E foi através destes complexos enredos semelhantes a degenerescências biológicas que me deixei levar. Saltavam aos olhos, vorazes, horrendos, poéticos, sei lá. Aos olhos tinha-os cheios de comichões e lamentei agudamente cada grama de pó que entrou na festa da lágrima, mais parecia sessão no inferno que coisa deste mundo. As mãos, quentes de calor doentio, postas a coçar a cabeça a ponto de rebentar ao mínimo ruído, completavam o drama, mais umas pérolas de água e sal que afloravam na testa e outros sinais inerentes ao brotar da Primavera nos campos do meu país. Depois para o meio do dia o Sol que parecia ter vencido todas as suas preocupações instalou-se forte e contundente, e acordou-me de vez de um sonho que me derrubou da realidade. Fiquei a pensar em receitas antigas e arras…

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Hoje estou dado a uma sonolenta tarde de modorra que me despertou o intelecto para outras aragens. Por isso, sem mais delongas, aproveito para declarar guerra à arte-gadget. Sim, eu disse que declarei guerra à arte-gadget. Sorvetes, berloques, lavadeiras de Caneças, antigas profissões de Lisboa: padeiros e coleccionadores de arte, por exemplo. Não, obrigado. Prefiro viagens à Pérsia, mesmo que pela mão distante e desconhecida da senhora Schwarzenbach. Prefiro descobrir a palavra da enfermidade que agrava o mundo sem lhe encobrir o padecimento. Decididamente, viagens à Pérsia, mesmo que ela não exista. Gadgets, não, porra! Assim, sempre que me cruzar com um objecto arte-gadget não vou olhar. E se olhar não hei-de pensar no que aquilo possa ser, hei-de reflectir para dentro, sumariamente, olha uma coisa-gadget, voilá. Provavelmente nem será nada de especial. Modorro-me, por hoje, como um gato distraído das responsabilidades do mundo.

65

Sou por um fio um homem preso aos meus braços. É dali que faço o gesto com que faço a minha vida toda quando me sento a pensar nas imagens, nas coisas que quero ver, nas que não vejo, naquilo tudo que não sei nomear. Prefiro sentir-me, mesmo vermelho e inchado de coisas para dizer, prefiro dizer-me que sou por um fio aquilo que sou preso aos meus braços quando me agito a fazer o que faço. Brotam sem nome outras coisas. Sabem do que escrevo.

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O céu da boca do mundo estragou-se. Andava avariado por causa de um qualquer seu assunto interno que verdadeiramente desconheço. E recusava-se a entrar nos eixos, o céu da boca do mundo. Cendrou-se contra tudo o que era coisa infinita de se ver e mais além tomou conta dos espíritos da água, dos porcos-espinhos, dos pássaros de todas as espécies, das montanhas e dos vales outrora floridos, das nuvens perdidas, dos ventos iguais, do desejo de querer, do desejo de não querer.
Levantei-me vagaroso e peguei numa caneta afiada enquanto a luz se fazia sentir. Resolvi talhar o horizonte. Arei com longos traços em volta de uma mancha desigual o sentido do meu desenho. A realidade desengana-me sempre que me sinto dentro de mim. Voltei ao papel, voltei ao papel e espero as flores que hão-de nascer destes prados que invento a risco.

63

Era um dia vermelho aquele dia que chegou sem aviso prévio. Manchou tudo em volta da cor das cerejas. Todas as coisas ficaram vermelhas e os olhos inundados da luz vermelha viam tudo vermelho. Era um dia vermelho aquele dia assim.

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Eu tinha um pescoço longo e esguio e quando caminhava pelas ruas da minha cidade ia nele pendurado para a frente. Um dia o meu pescoço partiu-se. Fracturou-se em mil pedaços de luz e dor.
Eu tinha umas mãos alongadas que pareciam umas patas delicadas de obreiro sem dono. Eram como perfeitos pêndulos, fosse o meu corpo um relógio de precisão. Um dia uma das mãos não quis responder aos pedidos do papel porque chovia e deixou de falar como estava habituado a que falasse.
Eu tinha umas pernas que aguentavam marchas de muitos quilómetros e andava nelas pelas distâncias do mundo sem me cansar muito. De tanto correr nas pernas gastei o músculo, perdi a voz e a razão. Ah! Aqui as pedras falam como se fossem deuses.