segunda-feira, 22 de março de 2010

67


Vi nas pedras do chão da rua desvelar-se um desenho estendido no negrume. E segui-o como um fio. Era uma espécie de minhoca gráfica que se desenvolvia numa série interminável de monstros e outras aberrações. E foi através destes complexos enredos semelhantes a degenerescências biológicas que me deixei levar. Saltavam aos olhos, vorazes, horrendos, poéticos, sei lá. Aos olhos tinha-os cheios de comichões e lamentei agudamente cada grama de pó que entrou na festa da lágrima, mais parecia sessão no inferno que coisa deste mundo. As mãos, quentes de calor doentio, postas a coçar a cabeça a ponto de rebentar ao mínimo ruído, completavam o drama, mais umas pérolas de água e sal que afloravam na testa e outros sinais inerentes ao brotar da Primavera nos campos do meu país. Depois para o meio do dia o Sol que parecia ter vencido todas as suas preocupações instalou-se forte e contundente, e acordou-me de vez de um sonho que me derrubou da realidade. Fiquei a pensar em receitas antigas e arrastei-me até uma zona de sombra que já ali estava há muitos séculos sob o peso do futuro como se fosse uma pechincha de feira, recalcado a madrepérola e pegas douradas de latão. Aguardei para ver se passava. E passou.

quinta-feira, 18 de março de 2010

66

Hoje estou dado a uma sonolenta tarde de modorra que me despertou o intelecto para outras aragens. Por isso, sem mais delongas, aproveito para declarar guerra à arte-gadget. Sim, eu disse que declarei guerra à arte-gadget. Sorvetes, berloques, lavadeiras de Caneças, antigas profissões de Lisboa: padeiros e coleccionadores de arte, por exemplo. Não, obrigado. Prefiro viagens à Pérsia, mesmo que pela mão distante e desconhecida da senhora Schwarzenbach. Prefiro descobrir a palavra da enfermidade que agrava o mundo sem lhe encobrir o padecimento. Decididamente, viagens à Pérsia, mesmo que ela não exista. Gadgets, não, porra! Assim, sempre que me cruzar com um objecto arte-gadget não vou olhar. E se olhar não hei-de pensar no que aquilo possa ser, hei-de reflectir para dentro, sumariamente, olha uma coisa-gadget, voilá. Provavelmente nem será nada de especial. Modorro-me, por hoje, como um gato distraído das responsabilidades do mundo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

65


Sou por um fio um homem preso aos meus braços. É dali que faço o gesto com que faço a minha vida toda quando me sento a pensar nas imagens, nas coisas que quero ver, nas que não vejo, naquilo tudo que não sei nomear. Prefiro sentir-me, mesmo vermelho e inchado de coisas para dizer, prefiro dizer-me que sou por um fio aquilo que sou preso aos meus braços quando me agito a fazer o que faço. Brotam sem nome outras coisas. Sabem do que escrevo.

64


O céu da boca do mundo estragou-se. Andava avariado por causa de um qualquer seu assunto interno que verdadeiramente desconheço. E recusava-se a entrar nos eixos, o céu da boca do mundo. Cendrou-se contra tudo o que era coisa infinita de se ver e mais além tomou conta dos espíritos da água, dos porcos-espinhos, dos pássaros de todas as espécies, das montanhas e dos vales outrora floridos, das nuvens perdidas, dos ventos iguais, do desejo de querer, do desejo de não querer.
Levantei-me vagaroso e peguei numa caneta afiada enquanto a luz se fazia sentir. Resolvi talhar o horizonte. Arei com longos traços em volta de uma mancha desigual o sentido do meu desenho. A realidade desengana-me sempre que me sinto dentro de mim. Voltei ao papel, voltei ao papel e espero as flores que hão-de nascer destes prados que invento a risco.

63


Era um dia vermelho aquele dia que chegou sem aviso prévio. Manchou tudo em volta da cor das cerejas. Todas as coisas ficaram vermelhas e os olhos inundados da luz vermelha viam tudo vermelho. Era um dia vermelho aquele dia assim.

domingo, 7 de março de 2010

62



Eu tinha um pescoço longo e esguio e quando caminhava pelas ruas da minha cidade ia nele pendurado para a frente. Um dia o meu pescoço partiu-se. Fracturou-se em mil pedaços de luz e dor.
Eu tinha umas mãos alongadas que pareciam umas patas delicadas de obreiro sem dono. Eram como perfeitos pêndulos, fosse o meu corpo um relógio de precisão. Um dia uma das mãos não quis responder aos pedidos do papel porque chovia e deixou de falar como estava habituado a que falasse.
Eu tinha umas pernas que aguentavam marchas de muitos quilómetros e andava nelas pelas distâncias do mundo sem me cansar muito. De tanto correr nas pernas gastei o músculo, perdi a voz e a razão.
Ah! Aqui as pedras falam como se fossem deuses.

terça-feira, 2 de março de 2010

61 do botão do casaco


Espero-te aqui na casa do casaco do botão partido. Quando voltares ainda cá estarei, prometo. Se não estiver aqui onde agora me encontro repara por mim mais abaixo. Ali mesmo, antes do virar da esquina, perto da casa dos alizares castanhos. Apontava para uma espécie de inferno divertido enquanto cerzia um fio de conversa sem resposta na ponta de um dedo: ainda cá estarei quando voltares, (gritava), talvez não saia daqui encostada ao muro de cal. Aquela que ali estiver hei-de ser eu. Daqui não saio nem vou a lado nenhum que o tempo não me chega a tanto, fico a olhar o céu, está bem? Seguiam-se considerações meteorológicas que ponteavam a conversa e a devolviam à realidade para lá da razão. E eu todo ouvidos. E logo eu capaz de a entender no mínimo detalhe sobre o que me era proposto. Eu cheio de atenção. É capaz de chover lá mais para a tarde, lá mais para o fim do dia. Vamos, despacha-te! Continuava a desfiar palavras suas que me prendiam. O afecto que lhe tinha manifestava-se nos meus sapatos inquietos que raspavam o chão esperando uma ordem de partida num tom mais determinado ainda. Era por isso que ainda ali estava, impregnado. Espero que não te demores que a cal larga de si e suja a roupa toda. Espero-te aqui encostada à parede, vai, anda! Quando já tomava o meu caminho ao largo gritou-me por cima do ombro apanhando-me no ouvido, à vinda passa pelo jardim que ainda lá deve estar o homem das castanhas a aguar os olhos. Faz-lhe um aceno. Diz-lhe que amanhã, se o tempo abrir, haveremos de passear pelo jardim a ver as flores. E eu fazia um gesto de quem tudo entendera e em pé de ir ficava tipo a minha figura toda em redondo feliz, vermelho em volta, desligado das distracções que o mundo dava. O botão do casaco de preto cabedal de que ela falava era o último a contar de cima. Um meio botão de plástico que existia lá em baixo perto da braguilha das calças onde não fazia falta um botão de apertar. Eu quase nunca utilizava este botão de que ela falava.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

60 e chove



Sabem que mais? Estou cheio de pressa. É isso mesmo, cheio de pressa. Nem tenho tempo para comer e só vesti meia manga do casaco e vou já sair daqui. (Ando a ver se encontro as chaves, a carteira e o boné para correr a voar daqui de um salto). Pois hoje é o dia em que vou voltar ao labirinto. Isso mesmo, ao labirinto. A bicharada espera-me lá ansiosa pelo meu regresso. Deixei-os apenas por alguns dias e parece que já andam a comer a cal das paredes. É tempo de regressar. Confesso que levei o espírito a vaguear a outras paragens, mas a borrasca é de tal ordem que me vejo aflito para andar enxuto, e por isso decidi regressar. Estou cheio de saudades dos meus clamorosos seres e terão eles minhas, certamente, que os trato bem. Quando lá chegar vou direito ao grande vermelho e faço-lhe uma daquelas festas no lombo que o gajo até revira os olhos de contente. Depois enrolado nas coisas que sempre têm para me dizer finto a realidade e faço um pão para o jantar. Hei-de senta-los à minha volta e com as mãos até que nos passe a fome haveremos de comer. Dão saltos de alegria, os meus bichos, quando me vêem chegar ao portão dos sonhos. Levo-lhes na sacola farelo doce e flores de jasmim, uma finíssima tinta de cor azul e um frasco de carbonato de chumbo que lhe dá aquele brilho mágico que o branco pode ter. E como brilham eles vistosos no escuro. Hoje vou voltar a mergulhar nas ruas delirantes do labirinto e talvez regresse de lá com um tapete tecido de histórias novas. Levo para mim café, gafanhotos de chocolate e mel da chuva. Fico uma semana, depois logo se vê.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

59



Ah! Vou hoje deixar aos pássaros todos os meus pertences e haveres. Tudo quanto tenho será deles pois temo que se perca o encanto de possuir. Os retalhos de papel onde desenhei as receitas da vida incerta, as fotografias de família que mostram aquelas pessoas de quem perdi o nome da memória, os colares de missangas vindos das aldeias mágicas de certas regiões da África, as penas das aves muito raras e as bolas de naftalina que herdei da minha mãe, tudo, mas tudo mesmo, será deles, dos pássaros. Também lhes darei os meus frascos de cheiros onde guardei anos a fio os aromas das minhas romãs de jardim. Outras coisas. Hei-de dar-lhes outras coisas que são tudo o que tenho. Assim, aos pardais da cidade,
por exemplo, quero deixar-lhes um especial bolor azul-esverdeado que guardo do pão velho que não comi. Aos melros o assobio das manhãs pela rua fora até ao sítio dos pastéis de natas. Aos noitibós, aquela hora especial da madrugada que o sono não chega a tocar. Deixo aos milhafres, em troca de cores para fundos brancos de linhos crus, quase todas as imagens do infinito. Aos outros deixo-lhes o que sobrar do meu espólio pessoal de inventos sem pretensão, de inutilidades, as máquinas que construí para as guerras que não cheguei a travar. Já decidi, vai tudo para os pássaros. E não é de agora esta decisão. Já a tomei há muito tempo. Faltou-me mais cedo a coragem. Deixo-lhes tudo, até o pouco de bom senso que me resta para avaliar clássicas situações de risco. Fico apenas com o penico de esmalte para queimar incenso e alguma roupa de vestir para quando sair à rua. Deixo-lhes tudo, pronto! Vou começar a guardar coisas, novamente. Entretanto, enquanto não chega o Maio dourado, vou esperar para ver a Lua de azeite que vagueia indolente por cima da cabeça virada a sul, a árvore do mel que tenho lá ao fundo no terraço suspenso e o vasto laranjal de muitas cores que há-de aparecer mais tarde ou mais cedo quando o tempo virar bom. Aguardo, também, a chegada de um outro vento para que na sua companhia possa alegre beber vinho e ouvir novas cantigas dos mortos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

58


Alguém estava a morrer muito lentamente naquele dia de prédios altos. Foi atrás desta ideia simples que o passo me levou a percorrer a longa avenida. Passei por cães e árvores, por pedras levantadas do chão que as nuvens escondiam do sol, pelo vento de brisa de mar que me acompanhou quase sempre pelas costas, pelo calor dos pontos iluminados, pelos muitos carros sem condutores estacionados, pelas pessoas estranhas que nunca conhecera e que, certamente, teriam nome e voz e sorriso para quem as conhecesse. Fui passando por tudo sem alterar a minha forma de andar enquanto esperava calmo o fim desse dia de prédios altos. Ao fundo daquela viagem havia uma espécie de rotunda, e mais carros e cães e árvores, ou talvez fossem apenas semáforos de muitas cores diferentes que confundiam o trânsito, não me lembro muito bem, e parei como que rematando a ideia que trazia na língua. Naquela altura eu tinha uma forma diferente de andar o que me levava a encarar a vida não com menos optimismo, mas usando de outras qualidades que hoje já não tenho. Não era um junkie, nem usava qualquer tipo de substância que me alterasse o sentido da realidade, mas sentia-me um junkie, um tipo híbrido e distante de toda a gente. Mas, devo dizer, a realidade que me era servida sem filtros eu usava-a a meu bel-prazer sem hesitações, sem receios, por isso pensava onde muito bem queria pensar.
O dia estava baralhado com tanta informação disponível em sacos de plástico pendurados nos ramos mais baixos das árvores que ladeavam a estrada principal. Mas era o fim da extensa via, ali onde a rotunda se fazia. Tomei o sentido inverso por ali a baixo pelo mesmo caminho por onde tinha subido, na direcção de um rio que espelhava o mundo. De um lado e do outro moviam-se com grande ruído os prédios por cima das pessoas. Chegavam uns e partiam outros, eram enormes barcos de partir e chegar. Gosto daqueles edifícios e de os imaginar como se fossem gigantescos barcos de pedra. Cada rectângulo de janela era um compartimento de navio que levava alguém para um outro lado qualquer. Senti, subitamente, não existir nem perto nem longe, nem distância a percorrer. Pensei que tudo era possível do ponto de vista do viajante. A morte era um estado transitório entre quem vê partir e vê chegar prédios altos numa rua qualquer de uma cidade de porto. Quando finalmente parei estava cansado de ver prédios altos em movimento, por isso entrei num sítio onde se serviam refeições quentes. Pedi, então, que me servissem o meu frugal almoço que comi sem grande prazer. A comida que sobrou enterrei-a num vaso que havia perto da minha mesa. Limpei a boca ao guardanapo de papel depois de beber toda a água do copo. Saí utilizando o mesmo ritmo de passeio pensante. E fiquei com a sensação que o dia tinha, finalmente, acabado.

Pedi um lápis e um papel a diferentes pessoas na rua. Deram-mos e escrevi loucamente até ser madrugada. Dormi num banco de jardim, é só do que me lembro. Depois deste episódio já era hoje e outras coisas.