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Mensagens

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Hoje estou dado a uma sonolenta tarde de modorra que me despertou o intelecto para outras aragens. Por isso, sem mais delongas, aproveito para declarar guerra à arte-gadget. Sim, eu disse que declarei guerra à arte-gadget. Sorvetes, berloques, lavadeiras de Caneças, antigas profissões de Lisboa: padeiros e coleccionadores de arte, por exemplo. Não, obrigado. Prefiro viagens à Pérsia, mesmo que pela mão distante e desconhecida da senhora Schwarzenbach. Prefiro descobrir a palavra da enfermidade que agrava o mundo sem lhe encobrir o padecimento. Decididamente, viagens à Pérsia, mesmo que ela não exista. Gadgets, não, porra! Assim, sempre que me cruzar com um objecto arte-gadget não vou olhar. E se olhar não hei-de pensar no que aquilo possa ser, hei-de reflectir para dentro, sumariamente, olha uma coisa-gadget, voilá. Provavelmente nem será nada de especial. Modorro-me, por hoje, como um gato distraído das responsabilidades do mundo.

65

Sou por um fio um homem preso aos meus braços. É dali que faço o gesto com que faço a minha vida toda quando me sento a pensar nas imagens, nas coisas que quero ver, nas que não vejo, naquilo tudo que não sei nomear. Prefiro sentir-me, mesmo vermelho e inchado de coisas para dizer, prefiro dizer-me que sou por um fio aquilo que sou preso aos meus braços quando me agito a fazer o que faço. Brotam sem nome outras coisas. Sabem do que escrevo.

64

O céu da boca do mundo estragou-se. Andava avariado por causa de um qualquer seu assunto interno que verdadeiramente desconheço. E recusava-se a entrar nos eixos, o céu da boca do mundo. Cendrou-se contra tudo o que era coisa infinita de se ver e mais além tomou conta dos espíritos da água, dos porcos-espinhos, dos pássaros de todas as espécies, das montanhas e dos vales outrora floridos, das nuvens perdidas, dos ventos iguais, do desejo de querer, do desejo de não querer.
Levantei-me vagaroso e peguei numa caneta afiada enquanto a luz se fazia sentir. Resolvi talhar o horizonte. Arei com longos traços em volta de uma mancha desigual o sentido do meu desenho. A realidade desengana-me sempre que me sinto dentro de mim. Voltei ao papel, voltei ao papel e espero as flores que hão-de nascer destes prados que invento a risco.

63

Era um dia vermelho aquele dia que chegou sem aviso prévio. Manchou tudo em volta da cor das cerejas. Todas as coisas ficaram vermelhas e os olhos inundados da luz vermelha viam tudo vermelho. Era um dia vermelho aquele dia assim.

62

Eu tinha um pescoço longo e esguio e quando caminhava pelas ruas da minha cidade ia nele pendurado para a frente. Um dia o meu pescoço partiu-se. Fracturou-se em mil pedaços de luz e dor.
Eu tinha umas mãos alongadas que pareciam umas patas delicadas de obreiro sem dono. Eram como perfeitos pêndulos, fosse o meu corpo um relógio de precisão. Um dia uma das mãos não quis responder aos pedidos do papel porque chovia e deixou de falar como estava habituado a que falasse.
Eu tinha umas pernas que aguentavam marchas de muitos quilómetros e andava nelas pelas distâncias do mundo sem me cansar muito. De tanto correr nas pernas gastei o músculo, perdi a voz e a razão. Ah! Aqui as pedras falam como se fossem deuses.

61 do botão do casaco

Espero-te aqui na casa do casaco do botão partido. Quando voltares ainda cá estarei, prometo. Se não estiver aqui onde agora me encontro repara por mim mais abaixo. Ali mesmo, antes do virar da esquina, perto da casa dos alizares castanhos. Apontava para uma espécie de inferno divertido enquanto cerzia um fio de conversa sem resposta na ponta de um dedo: ainda cá estarei quando voltares, (gritava), talvez não saia daqui encostada ao muro de cal. Aquela que ali estiver hei-de ser eu. Daqui não saio nem vou a lado nenhum que o tempo não me chega a tanto, fico a olhar o céu, está bem? Seguiam-se considerações meteorológicas que ponteavam a conversa e a devolviam à realidade para lá da razão. E eu todo ouvidos. E logo eu capaz de a entender no mínimo detalhe sobre o que me era proposto. Eu cheio de atenção. É capaz de chover lá mais para a tarde, lá mais para o fim do dia. Vamos, despacha-te!Continuava a desfiar palavras suas que me prendiam. O afecto que lhe tinha manifestava-se nos meus…

60 e chove

Sabem que mais? Estou cheio de pressa. É isso mesmo, cheio de pressa. Nem tenho tempo para comer e só vesti meia manga do casaco e vou já sair daqui. (Ando a ver se encontro as chaves, a carteira e o boné para correr a voar daqui de um salto). Pois hoje é o dia em que vou voltar ao labirinto. Isso mesmo, ao labirinto. A bicharada espera-me lá ansiosa pelo meu regresso. Deixei-os apenas por alguns dias e parece que já andam a comer a cal das paredes. É tempo de regressar. Confesso que levei o espírito a vaguear a outras paragens, mas a borrasca é de tal ordem que me vejo aflito para andar enxuto, e por isso decidi regressar. Estou cheio de saudades dos meus clamorosos seres e terão eles minhas, certamente, que os trato bem. Quando lá chegar vou direito ao grande vermelho e faço-lhe uma daquelas festas no lombo que o gajo até revira os olhos de contente. Depois enrolado nas coisas que sempre têm para me dizer finto a realidade e faço um pão para o jantar. Hei-de senta-los à minha volta…