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Mensagens

60 e chove

Sabem que mais? Estou cheio de pressa. É isso mesmo, cheio de pressa. Nem tenho tempo para comer e só vesti meia manga do casaco e vou já sair daqui. (Ando a ver se encontro as chaves, a carteira e o boné para correr a voar daqui de um salto). Pois hoje é o dia em que vou voltar ao labirinto. Isso mesmo, ao labirinto. A bicharada espera-me lá ansiosa pelo meu regresso. Deixei-os apenas por alguns dias e parece que já andam a comer a cal das paredes. É tempo de regressar. Confesso que levei o espírito a vaguear a outras paragens, mas a borrasca é de tal ordem que me vejo aflito para andar enxuto, e por isso decidi regressar. Estou cheio de saudades dos meus clamorosos seres e terão eles minhas, certamente, que os trato bem. Quando lá chegar vou direito ao grande vermelho e faço-lhe uma daquelas festas no lombo que o gajo até revira os olhos de contente. Depois enrolado nas coisas que sempre têm para me dizer finto a realidade e faço um pão para o jantar. Hei-de senta-los à minha volta…

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Ah! Vou hoje deixar aos pássaros todos os meus pertences e haveres. Tudo quanto tenho será deles pois temo que se perca o encanto de possuir. Os retalhos de papel onde desenhei as receitas da vida incerta, as fotografias de família que mostram aquelas pessoas de quem perdi o nome da memória, os colares de missangas vindos das aldeias mágicas de certas regiões da África, as penas das aves muito raras e as bolas de naftalina que herdei da minha mãe, tudo, mas tudo mesmo, será deles, dos pássaros. Também lhes darei os meus frascos de cheiros onde guardei anos a fio os aromas das minhas romãs de jardim. Outras coisas. Hei-de dar-lhes outras coisas que são tudo o que tenho. Assim, aos pardais da cidade, por exemplo, quero deixar-lhes um especial bolor azul-esverdeado que guardo do pão velho que não comi. Aos melros o assobio das manhãs pela rua fora até ao sítio dos pastéis de natas. Aos noitibós, aquela hora especial da madrugada que o sono não chega a tocar. Deixo aos milhafres, em…

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Alguém estava a morrer muito lentamente naquele dia de prédios altos. Foi atrás desta ideia simples que o passo me levou a percorrer a longa avenida. Passei por cães e árvores, por pedras levantadas do chão que as nuvens escondiam do sol, pelo vento de brisa de mar que me acompanhou quase sempre pelas costas, pelo calor dos pontos iluminados, pelos muitos carros sem condutores estacionados, pelas pessoas estranhas que nunca conhecera e que, certamente, teriam nome e voz e sorriso para quem as conhecesse. Fui passando por tudo sem alterar a minha forma de andar enquanto esperava calmo o fim desse dia de prédios altos. Ao fundo daquela viagem havia uma espécie de rotunda, e mais carros e cães e árvores, ou talvez fossem apenas semáforos de muitas cores diferentes que confundiam o trânsito, não me lembro muito bem, e parei como que rematando a ideia que trazia na língua. Naquela altura eu tinha uma forma diferente de andar o que me levava a encarar a vida não com menos optimismo, mas …

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Dou imensos peidos de felicidade, pois dou. E dou saltos tamanhos que nem me lembro de alguma vez ter saltado. Até parece que já nasci no céu dado o tempo que lá passo a cair de lá. Um dia, num desses saltos aterrei num decote de uma mulher muito carnuda, toda cheia de calor e cheia de si. Era uma enorme vagina em forma de mulher vagem-da-ervilha com pelinhos à volta. Envaginei-me todo e deliciei a líbido até à ponta do marsapo feliz com os seus ais e uis. Gritava que era uma beleza de se ouvir e amou-me de todas as maneira que um prato de leite pode servir para debelar quenturas a quem nele se senta. Pois se os olhos também comem, neste caso muito concreto eu fui com muito gosto comido, chupado, lambido, envaginado, etc., ela pedia-me que a olhasse enquanto se refrescava no pratinho de leite. O leite pede leite, dizia-me, e eu saltava-lhe à boca guloso da vida.

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Hoje estive lá onde estive pela última vez quando tinha quinze anos. A fotografia desse dia não diz que nadei entre os coscorões que viviam num grande alguidar de barro. A casa era escura de campo e tinha gente na porta aberta. Hoje estive lá para rever ninguém acabando por me encontrar dentro de uma visão de um poema de Baudelaire.
A casa está a dormir. Está ligeiramente deitada de lado para o lado onde dormem as ervas daninhas e um caminho que tem merda de cão. Estavam todos a dormir e eu entrei por uma racha na alvenaria aberta ao tempo. Uma ferida que ali ficou, certamente. Estavam todos a dormir e eu entrei. Os meus mortos queridos vieram abraçar-me e eu fiquei à espera de coscorões repletos de açúcar e mel. Sentei-me à mesa e comi enquanto os ouvia infinitos.

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Depois, da boca de um cão vermelho, ouvi tudo aquilo que me contou. Este cão era um velho exegeta que há muito havia subsumido à acção em virtude de qualquer coisa que não sei bem o quê ao certo. Pensava em voz alta na minha direcção e ouvi tudo o que me disse com esmerado sentido. Talvez estivesse apenas a pensar em voz alta. Era contudo maravilhoso e orgiástico aquilo que dizia. Posso acrescentar que o que me contou me disse ter sido dito por um cão que fumava, uma coisa assim:
- Um outro cão meu conhecido que vivia entre os humanos acompanhou dois homens que estavam sentados numa mesa no interior de um tal café. Parece que terão decidido sair para respirar o ar fresco da noite. Um dos homens tinha calçados uns sapatos vermelhos pelos quais o cão parecia estar apaixonado, lambia-os sem parar, e parecia sorrir ao fazê-lo. Ao grupo, ter-se-ia juntado uma mulher muito velha que transportava um saco de ossos, enquanto que, lá dentro no café, circulavam os empregados com um ar muito bran…

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O homem das borboletas bateu-me à porta de casa. Abri sem saber quem me procurava porque era dia de me sentir Sheeler's green. Apareceu para me dizer que estava a chover e eu agradeci com um sorriso cego. Os meus olhos como se pertencessem a um deus persa ficam encovados e deixam de ver nos dias assim. Convidei-o a entrar, como sempre faço. Bebemos chá e trocámos emoções de especiarias, comemos bolachas de manteiga. Em silêncio vi que se formavam sobre aquilo que pensei ser o lugar da sua cabeça nuvens de asas de muitas cores que depois desapareciam ao ponto de ficar apenas uma ou duas voltando logo a seguir à forma de multidão. Borboletas, era um mar de borboletas por cima do que pensei ser a sua cabeça.
Como não tinha olhos de ver sonhei com o Sol de Verão a bater nos telhados das casas, pássaros e melancias frescas, o céu rasgado por fios de nuvens tocadas pelo vento. Acreditem que fiquei inundado pelo perene desejo de atingir o limite físico de sentir, como se sentisse uma dor …