domingo, 28 de fevereiro de 2010

60 e chove



Sabem que mais? Estou cheio de pressa. É isso mesmo, cheio de pressa. Nem tenho tempo para comer e só vesti meia manga do casaco e vou já sair daqui. (Ando a ver se encontro as chaves, a carteira e o boné para correr a voar daqui de um salto). Pois hoje é o dia em que vou voltar ao labirinto. Isso mesmo, ao labirinto. A bicharada espera-me lá ansiosa pelo meu regresso. Deixei-os apenas por alguns dias e parece que já andam a comer a cal das paredes. É tempo de regressar. Confesso que levei o espírito a vaguear a outras paragens, mas a borrasca é de tal ordem que me vejo aflito para andar enxuto, e por isso decidi regressar. Estou cheio de saudades dos meus clamorosos seres e terão eles minhas, certamente, que os trato bem. Quando lá chegar vou direito ao grande vermelho e faço-lhe uma daquelas festas no lombo que o gajo até revira os olhos de contente. Depois enrolado nas coisas que sempre têm para me dizer finto a realidade e faço um pão para o jantar. Hei-de senta-los à minha volta e com as mãos até que nos passe a fome haveremos de comer. Dão saltos de alegria, os meus bichos, quando me vêem chegar ao portão dos sonhos. Levo-lhes na sacola farelo doce e flores de jasmim, uma finíssima tinta de cor azul e um frasco de carbonato de chumbo que lhe dá aquele brilho mágico que o branco pode ter. E como brilham eles vistosos no escuro. Hoje vou voltar a mergulhar nas ruas delirantes do labirinto e talvez regresse de lá com um tapete tecido de histórias novas. Levo para mim café, gafanhotos de chocolate e mel da chuva. Fico uma semana, depois logo se vê.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

59



Ah! Vou hoje deixar aos pássaros todos os meus pertences e haveres. Tudo quanto tenho será deles pois temo que se perca o encanto de possuir. Os retalhos de papel onde desenhei as receitas da vida incerta, as fotografias de família que mostram aquelas pessoas de quem perdi o nome da memória, os colares de missangas vindos das aldeias mágicas de certas regiões da África, as penas das aves muito raras e as bolas de naftalina que herdei da minha mãe, tudo, mas tudo mesmo, será deles, dos pássaros. Também lhes darei os meus frascos de cheiros onde guardei anos a fio os aromas das minhas romãs de jardim. Outras coisas. Hei-de dar-lhes outras coisas que são tudo o que tenho. Assim, aos pardais da cidade,
por exemplo, quero deixar-lhes um especial bolor azul-esverdeado que guardo do pão velho que não comi. Aos melros o assobio das manhãs pela rua fora até ao sítio dos pastéis de natas. Aos noitibós, aquela hora especial da madrugada que o sono não chega a tocar. Deixo aos milhafres, em troca de cores para fundos brancos de linhos crus, quase todas as imagens do infinito. Aos outros deixo-lhes o que sobrar do meu espólio pessoal de inventos sem pretensão, de inutilidades, as máquinas que construí para as guerras que não cheguei a travar. Já decidi, vai tudo para os pássaros. E não é de agora esta decisão. Já a tomei há muito tempo. Faltou-me mais cedo a coragem. Deixo-lhes tudo, até o pouco de bom senso que me resta para avaliar clássicas situações de risco. Fico apenas com o penico de esmalte para queimar incenso e alguma roupa de vestir para quando sair à rua. Deixo-lhes tudo, pronto! Vou começar a guardar coisas, novamente. Entretanto, enquanto não chega o Maio dourado, vou esperar para ver a Lua de azeite que vagueia indolente por cima da cabeça virada a sul, a árvore do mel que tenho lá ao fundo no terraço suspenso e o vasto laranjal de muitas cores que há-de aparecer mais tarde ou mais cedo quando o tempo virar bom. Aguardo, também, a chegada de um outro vento para que na sua companhia possa alegre beber vinho e ouvir novas cantigas dos mortos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

58


Alguém estava a morrer muito lentamente naquele dia de prédios altos. Foi atrás desta ideia simples que o passo me levou a percorrer a longa avenida. Passei por cães e árvores, por pedras levantadas do chão que as nuvens escondiam do sol, pelo vento de brisa de mar que me acompanhou quase sempre pelas costas, pelo calor dos pontos iluminados, pelos muitos carros sem condutores estacionados, pelas pessoas estranhas que nunca conhecera e que, certamente, teriam nome e voz e sorriso para quem as conhecesse. Fui passando por tudo sem alterar a minha forma de andar enquanto esperava calmo o fim desse dia de prédios altos. Ao fundo daquela viagem havia uma espécie de rotunda, e mais carros e cães e árvores, ou talvez fossem apenas semáforos de muitas cores diferentes que confundiam o trânsito, não me lembro muito bem, e parei como que rematando a ideia que trazia na língua. Naquela altura eu tinha uma forma diferente de andar o que me levava a encarar a vida não com menos optimismo, mas usando de outras qualidades que hoje já não tenho. Não era um junkie, nem usava qualquer tipo de substância que me alterasse o sentido da realidade, mas sentia-me um junkie, um tipo híbrido e distante de toda a gente. Mas, devo dizer, a realidade que me era servida sem filtros eu usava-a a meu bel-prazer sem hesitações, sem receios, por isso pensava onde muito bem queria pensar.
O dia estava baralhado com tanta informação disponível em sacos de plástico pendurados nos ramos mais baixos das árvores que ladeavam a estrada principal. Mas era o fim da extensa via, ali onde a rotunda se fazia. Tomei o sentido inverso por ali a baixo pelo mesmo caminho por onde tinha subido, na direcção de um rio que espelhava o mundo. De um lado e do outro moviam-se com grande ruído os prédios por cima das pessoas. Chegavam uns e partiam outros, eram enormes barcos de partir e chegar. Gosto daqueles edifícios e de os imaginar como se fossem gigantescos barcos de pedra. Cada rectângulo de janela era um compartimento de navio que levava alguém para um outro lado qualquer. Senti, subitamente, não existir nem perto nem longe, nem distância a percorrer. Pensei que tudo era possível do ponto de vista do viajante. A morte era um estado transitório entre quem vê partir e vê chegar prédios altos numa rua qualquer de uma cidade de porto. Quando finalmente parei estava cansado de ver prédios altos em movimento, por isso entrei num sítio onde se serviam refeições quentes. Pedi, então, que me servissem o meu frugal almoço que comi sem grande prazer. A comida que sobrou enterrei-a num vaso que havia perto da minha mesa. Limpei a boca ao guardanapo de papel depois de beber toda a água do copo. Saí utilizando o mesmo ritmo de passeio pensante. E fiquei com a sensação que o dia tinha, finalmente, acabado.

Pedi um lápis e um papel a diferentes pessoas na rua. Deram-mos e escrevi loucamente até ser madrugada. Dormi num banco de jardim, é só do que me lembro. Depois deste episódio já era hoje e outras coisas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

57


Dou imensos peidos de felicidade, pois dou. E dou saltos tamanhos que nem me lembro de alguma vez ter saltado. Até parece que já nasci no céu dado o tempo que lá passo a cair de lá. Um dia, num desses saltos aterrei num decote de uma mulher muito carnuda, toda cheia de calor e cheia de si. Era uma enorme vagina em forma de mulher vagem-da-ervilha com pelinhos à volta. Envaginei-me todo e deliciei a líbido até à ponta do marsapo feliz com os seus ais e uis. Gritava que era uma beleza de se ouvir e amou-me de todas as maneira que um prato de leite pode servir para debelar quenturas a quem nele se senta. Pois se os olhos também comem, neste caso muito concreto eu fui com muito gosto comido, chupado, lambido, envaginado, etc., ela pedia-me que a olhasse enquanto se refrescava no pratinho de leite. O leite pede leite, dizia-me, e eu saltava-lhe à boca guloso da vida.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

56



Hoje estive lá onde estive pela última vez quando tinha quinze anos. A fotografia desse dia não diz que nadei entre os coscorões que viviam num grande alguidar de barro. A casa era escura de campo e tinha gente na porta aberta. Hoje estive lá para rever ninguém acabando por me encontrar dentro de uma visão de um poema de Baudelaire.
A casa está a dormir. Está ligeiramente deitada de lado para o lado onde dormem as ervas daninhas e um caminho que tem merda de cão. Estavam todos a dormir e eu entrei por uma racha na alvenaria aberta ao tempo. Uma ferida que ali ficou, certamente. Estavam todos a dormir e eu entrei. Os meus mortos queridos vieram abraçar-me e eu fiquei à espera de coscorões repletos de açúcar e mel. Sentei-me à mesa e comi enquanto os ouvia infinitos.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

55


Depois, da boca de um cão vermelho, ouvi tudo aquilo que me contou. Este cão era um velho exegeta que há muito havia subsumido à acção em virtude de qualquer coisa que não sei bem o quê ao certo. Pensava em voz alta na minha direcção e ouvi tudo o que me disse com esmerado sentido. Talvez estivesse apenas a pensar em voz alta. Era contudo maravilhoso e orgiástico aquilo que dizia. Posso acrescentar que o que me contou me disse ter sido dito por um cão que fumava, uma coisa assim:
- Um outro cão meu conhecido que vivia entre os humanos acompanhou dois homens que estavam sentados numa mesa no interior de um tal café. Parece que terão decidido sair para respirar o ar fresco da noite. Um dos homens tinha calçados uns sapatos vermelhos pelos quais o cão parecia estar apaixonado, lambia-os sem parar, e parecia sorrir ao fazê-lo. Ao grupo, ter-se-ia juntado uma mulher muito velha que transportava um saco de ossos, enquanto que, lá dentro no café, circulavam os empregados com um ar muito branco e sem expressão facial, satisfazendo os pedidos dos clientes. Um outro homem que palitava os dentes levantou-se, e do interior do fumo, dirigiu-se ao grupo de que falava à pouco. À porta todos fumavam. Um dos homens, a propósito do cão, diz aos outros do grupo que o animal fora um filósofo que se perdera nos meandros de um labirinto metafísico e que um deus menor o transformou em cão. É cão para sempre, terá dito com ar entendido. Entretanto, do fundo do café irrompeu o cortejo fúnebre do patrão. Os empregados levavam o caixão aos ombros e deram umas voltas entre as cadeiras e as mesas. Gemia o clube de músicos de salão nos instrumentos um acompanhamento especial. À passagem do caixão as pessoas tiravam os chapéus das cabeças pelo defunto. Os que choravam não bebiam e bebiam os outros que não choravam, voavam vistosas flores amarelas e brancas. A viúva-cabeça transportava-se nos braços de um amante dentro de uma bola de vidro. Perdera o corpo num estranho jogo de sociedade vindo do oriente, etc., etc.. Ia triste e inconsolável aquela que ainda era a mulher mais desejada do café. Exotismos de raro gosto, nada mais que isso. Os de fora entraram e juntaram-se ao grupo que circulava lento e sombrio no interior. Uma mancha de gente acompanhava com passos curtos o percurso. Subitamente, a música deixou de se ouvir e todos pararam. Foram ditas umas palavras de circunstância que fizeram a viúva chorar com simplicidade. O caixão, por fim, desceu à sepultura aberta, mesmo junto ao piano em silêncio. Sentiu-se aquela coisa que a morte tem. Um frio e silencioso uivo que fez soluçar os presentes.
O cão olhou-me sem terminar a sua história. Fez uma longa pausa de cão e perguntou-me: e de moléculas, gostas de moléculas? Pois eu cá gosto de moles de moléculas. Parecem-se com doces gomas de vinho, sabes? Aquelas bolinhas todas esmagadas umas nas outras, gomas doces?
O cão disse-me isto tudo e foi-se embora. Fiquei ali quase sozinho.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

54



O homem das borboletas bateu-me à porta de casa. Abri sem saber quem me procurava porque era dia de me sentir Sheeler's green. Apareceu para me dizer que estava a chover e eu agradeci com um sorriso cego. Os meus olhos como se pertencessem a um deus persa ficam encovados e deixam de ver nos dias assim. Convidei-o a entrar, como sempre faço. Bebemos chá e trocámos emoções de especiarias, comemos bolachas de manteiga. Em silêncio vi que se formavam sobre aquilo que pensei ser o lugar da sua cabeça nuvens de asas de muitas cores que depois desapareciam ao ponto de ficar apenas uma ou duas voltando logo a seguir à forma de multidão. Borboletas, era um mar de borboletas por cima do que pensei ser a sua cabeça.
Como não tinha olhos de ver sonhei com o Sol de Verão a bater nos telhados das casas, pássaros e melancias frescas, o céu rasgado por fios de nuvens tocadas pelo vento. Acreditem que fiquei inundado pelo perene desejo de atingir o limite físico de sentir, como se sentisse uma dor distante e confusa. Era quase música, mas não era música. O dia de hoje não arrancou da memória outro dia como este. (Ainda de olhos fechados) Sobre a roliça aragem como imagino ser o bafo do demo nada me impede de ser indiferente ao anelo, à judiaria que os putos da rua fazem ao cão dócil, ao abandono dos segredos que existem no calor longínquo onde o pasto é uma espécie de azeite em forma de fruto, correrias e cantigas mortas pelo catolicismo de dar aos santos os nomes dos homens aforados ao trabalho. Aqui, neste preciso momento, sou a origem de tudo, sendo eu aquilo que sou, sou o verbo e nada mais.
O homem das borboletas estava a fazer a dança do costume. Fui atrás dele pela casa, enquanto as portas se abriam à sua passagem e de lá de dentro saíam os casacos e as meias e a roupa toda. Fiz estalar os meus ossos magrebinos em silêncio e na boca apavorada levava o desejo de comer laranjas. Imaginei, por isso, outros dias de olhos pregados ao céu da cidade. Segui-o por toda à parte até que desapareceu e voltei a ver como toda a gente.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

53


Amanhã já hei-de ter coisa nova para dizer, hoje não. Enquanto isso, vou levar a trela do cão a passear à rua. E se lá fora me perguntarem pelo cão, hei-de responder ao estilo de quem passeia à noite na rua, debaixo da plena chuva, que não tenho cão. Que faço o que me apetece, pois. E que hoje por não ter nada para dizer que vim à rua passear a trela do cão. Sou assim, como uma bela nêspera. Podia dizer-se cor-de-nêspera, não verdade? Responderei como que ajustando a latitude da reposta ao desagrado da pergunta. E se me responderem que se não se diz cor-de-nêspera, faço aquele ar de quem está a olhar para uma nuvem que só a mim me pertence e desapareço oblíquo da chuva.
Voltem amanhã, por favor, que já tenho mais para vos dizer, hoje não. Aliás, até já saí para ir passear a trela do cão lá fora numa aberta entre o que chove na noite.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

É o 52.


Eu falo muito, lamento. Não posso ficar sem palavras para dizer.
Ficar sem palavras para dizer é muito, lamento. Eu isso não posso.

E foi por esta razão que me dediquei ao vício de construir casas. E fi-lo, desunhando-me, para todas as pessoas que na ilha conheci. As casas construídas apresentavam-se empilhadas sem grande precisão umas por cima das outras, avolumando-se o gigantesco objecto na falta de um sentido estético puro para além do que a visão poderia, na verdade, abarcar. Paredes, telhados e janelas, muitas cores pintavam todas as sombras e jogos de luz. O olhar perdia-se.
A minha construção cresceu até muito alto, atingindo uma descomunal dimensão. Penso que seriam precisos três dias de viagem e muito alimento para atingir o seu topo caminhando entre escadas que levavam a lado nenhum e passagens estreitas. Mas disso não estou certo, dado que nunca ousei lá chegar. Limitei-me, nesse tempo, a observar de baixo e a imaginar como seria a ilha vista de lá de cima. Eu era ainda um pequeno homem e por isso não necessitava de dormir.
Um dia parei diante da obra com as mãos postas na cintura, como faziam todos os grande artistas do meu tempo, como se fosse, eu mesmo, o grande arquitecto do universo e descansei por uns momentos contemplando. Fechei os olhos, acho que foi isso. Fiquei assim naquele estado com o corpo dormente, com os olhos fechados e a experimentar todas as coisas do mundo. Devo ter dormido um longo período de tempo após aquele gesto de cansativa observação. Posso mesmo ter tomado notas para alterar uma coisa aqui e outra ali, antes de adormecer profundamente. Mas não me lembro de mais nada. Um fio de luz branca é do que me lembro bem.
É vento isso que assim assobia aí em baixo? Ninguém respondia. Eu estava muito longe.

51


Sujo-me todo para chegar onde quero. É uma porcaria de se ver. Acontece-me o mesmo quando como e sou obrigado a fazê-lo enquanto penso alto os números da vida. E penso-os e cantos-os e levo-os a todos os recantos do meu bairro dentro da barriga e do bolso. Tenho um bolso sem fundo para que me caibam todos ali muito juntos. Se dali me salta um número e depois outro fico a vê-los e depois sujo-me todo, claro. Mas para compensar estes factos delirantes ando sempre com passo ligeiro e, ultimamente, desenvolvi uma estranha facilidade para ouvir coisas ao longe que, de resto, existem. Por exemplo, ventiladores de casas-de-banho, acidentes de automóvel e gritos de crianças em ruas distantes do meu sítio, golos marcados no estádio Azteca do outro lado do Oceano, perturbações meteorológicas, bandeiras desfiladas nos altos paus de fileira, coisas sem nome.
Passo por sítios onde a chuva é abundante nas horas de maior tráfego. Há lama, há lama por todo o lado. A lama é uma coisa natural neste pequeno país. É por isso que fico todo sujo pelos sítios por onde passo. É por isso que tenho uma lista das minha obrigações visuais para o dia que antecede aquele onde estou, para evitar que me suje no lamaçal dos outros. Por exemplo, para o dia de hoje foi esta a lista de coisas a ver:
a) As folhas verdes de árvores onde elas existam antes de cair;
b) Um burro de ferro fervente;
c) A lama do chá de folha verde;
d) As nuvens da sinceridade presas ao céu voando para o lado de Espanha;
e) Os materiais compósitos à espera do seu fim;
f) As pessoas vestidas de folha de chá verde (procurando o sentido poético da alínea c));
g) Um bolo de arroz sentado numa esquina de Lisboa;
h) O vento azul do teu cabelo de pó de livros.

E hoje vi tudo isto sem esforço.