Ah! Vou hoje deixar aos pássaros todos os meus pertences e haveres. Tudo quanto tenho será deles pois temo que se perca o encanto de possuir. Os retalhos de papel onde desenhei as receitas da vida incerta, as fotografias de família que mostram aquelas pessoas de quem perdi o nome da memória, os colares de missangas vindos das aldeias mágicas de certas regiões da África, as penas das aves muito raras e as bolas de naftalina que herdei da minha mãe, tudo, mas tudo mesmo, será deles, dos pássaros. Também lhes darei os meus frascos de cheiros onde guardei anos a fio os aromas das minhas romãs de jardim. Outras coisas. Hei-de dar-lhes outras coisas que são tudo o que tenho. Assim, aos pardais da cidade, por exemplo, quero deixar-lhes um especial bolor azul-esverdeado que guardo do pão velho que não comi. Aos melros o assobio das manhãs pela rua fora até ao sítio dos pastéis de natas. Aos noitibós, aquela hora especial da madrugada que o sono não chega a tocar. Deixo aos milhafres, em…
Considerando o melhor dos mundos possíveis, onde tudo vai pelo melhor.