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Mensagens

56

Hoje estive lá onde estive pela última vez quando tinha quinze anos. A fotografia desse dia não diz que nadei entre os coscorões que viviam num grande alguidar de barro. A casa era escura de campo e tinha gente na porta aberta. Hoje estive lá para rever ninguém acabando por me encontrar dentro de uma visão de um poema de Baudelaire.
A casa está a dormir. Está ligeiramente deitada de lado para o lado onde dormem as ervas daninhas e um caminho que tem merda de cão. Estavam todos a dormir e eu entrei por uma racha na alvenaria aberta ao tempo. Uma ferida que ali ficou, certamente. Estavam todos a dormir e eu entrei. Os meus mortos queridos vieram abraçar-me e eu fiquei à espera de coscorões repletos de açúcar e mel. Sentei-me à mesa e comi enquanto os ouvia infinitos.

55

Depois, da boca de um cão vermelho, ouvi tudo aquilo que me contou. Este cão era um velho exegeta que há muito havia subsumido à acção em virtude de qualquer coisa que não sei bem o quê ao certo. Pensava em voz alta na minha direcção e ouvi tudo o que me disse com esmerado sentido. Talvez estivesse apenas a pensar em voz alta. Era contudo maravilhoso e orgiástico aquilo que dizia. Posso acrescentar que o que me contou me disse ter sido dito por um cão que fumava, uma coisa assim:
- Um outro cão meu conhecido que vivia entre os humanos acompanhou dois homens que estavam sentados numa mesa no interior de um tal café. Parece que terão decidido sair para respirar o ar fresco da noite. Um dos homens tinha calçados uns sapatos vermelhos pelos quais o cão parecia estar apaixonado, lambia-os sem parar, e parecia sorrir ao fazê-lo. Ao grupo, ter-se-ia juntado uma mulher muito velha que transportava um saco de ossos, enquanto que, lá dentro no café, circulavam os empregados com um ar muito bran…

54

O homem das borboletas bateu-me à porta de casa. Abri sem saber quem me procurava porque era dia de me sentir Sheeler's green. Apareceu para me dizer que estava a chover e eu agradeci com um sorriso cego. Os meus olhos como se pertencessem a um deus persa ficam encovados e deixam de ver nos dias assim. Convidei-o a entrar, como sempre faço. Bebemos chá e trocámos emoções de especiarias, comemos bolachas de manteiga. Em silêncio vi que se formavam sobre aquilo que pensei ser o lugar da sua cabeça nuvens de asas de muitas cores que depois desapareciam ao ponto de ficar apenas uma ou duas voltando logo a seguir à forma de multidão. Borboletas, era um mar de borboletas por cima do que pensei ser a sua cabeça.
Como não tinha olhos de ver sonhei com o Sol de Verão a bater nos telhados das casas, pássaros e melancias frescas, o céu rasgado por fios de nuvens tocadas pelo vento. Acreditem que fiquei inundado pelo perene desejo de atingir o limite físico de sentir, como se sentisse uma dor …

53

Amanhã já hei-de ter coisa nova para dizer, hoje não. Enquanto isso, vou levar a trela do cão a passear à rua. E se lá fora me perguntarem pelo cão, hei-de responder ao estilo de quem passeia à noite na rua, debaixo da plena chuva, que não tenho cão. Que faço o que me apetece, pois. E que hoje por não ter nada para dizer que vim à rua passear a trela do cão. Sou assim, como uma bela nêspera. Podia dizer-se cor-de-nêspera, não verdade? Responderei como que ajustando a latitude da reposta ao desagrado da pergunta. E se me responderem que se não se diz cor-de-nêspera, faço aquele ar de quem está a olhar para uma nuvem que só a mim me pertence e desapareço oblíquo da chuva.
Voltem amanhã, por favor, que já tenho mais para vos dizer, hoje não. Aliás, até já saí para ir passear a trela do cão lá fora numa aberta entre o que chove na noite.

É o 52.

Eu falo muito, lamento. Não posso ficar sem palavras para dizer.
Ficar sem palavras para dizer é muito, lamento. Eu isso não posso.

E foi por esta razão que me dediquei ao vício de construir casas. E fi-lo, desunhando-me, para todas as pessoas que na ilha conheci. As casas construídas apresentavam-se empilhadas sem grande precisão umas por cima das outras, avolumando-se o gigantesco objecto na falta de um sentido estético puro para além do que a visão poderia, na verdade, abarcar. Paredes, telhados e janelas, muitas cores pintavam todas as sombras e jogos de luz. O olhar perdia-se.
A minha construção cresceu até muito alto, atingindo uma descomunal dimensão. Penso que seriam precisos três dias de viagem e muito alimento para atingir o seu topo caminhando entre escadas que levavam a lado nenhum e passagens estreitas. Mas disso não estou certo, dado que nunca ousei lá chegar. Limitei-me, nesse tempo, a observar de baixo e a imaginar como seria a ilha vista de lá de cima. Eu era ainda um …

51

Sujo-me todo para chegar onde quero. É uma porcaria de se ver. Acontece-me o mesmo quando como e sou obrigado a fazê-lo enquanto penso alto os números da vida. E penso-os e cantos-os e levo-os a todos os recantos do meu bairro dentro da barriga e do bolso. Tenho um bolso sem fundo para que me caibam todos ali muito juntos. Se dali me salta um número e depois outro fico a vê-los e depois sujo-me todo, claro. Mas para compensar estes factos delirantes ando sempre com passo ligeiro e, ultimamente, desenvolvi uma estranha facilidade para ouvir coisas ao longe que, de resto, existem. Por exemplo, ventiladores de casas-de-banho, acidentes de automóvel e gritos de crianças em ruas distantes do meu sítio, golos marcados no estádio Azteca do outro lado do Oceano, perturbações meteorológicas, bandeiras desfiladas nos altos paus de fileira, coisas sem nome.
Passo por sítios onde a chuva é abundante nas horas de maior tráfego. Há lama, há lama por todo o lado. A lama é uma coisa natural neste pequ…

50 (cinquenta)

Apanhei um susto naquele dia diferente, estou a contar-vos em primeira mão. Acreditem que fui surpreendido e que só não dei um salto maior para trás porque a cara se me fez torcida de espanto enquanto plantava as mão em sinal de defesa. Aquilo que era grande e que se encontrava no mesmo sítio há muitos anos e que fora o meu regalo desaparecera do meu universo emocional. Subitamente, apenas um vazio onde já reinara aquilo que ali estava. Ah!, Disse, depois de saltar para trás com as mãos a defender-me de qualquer coisa que só podia ter sido um fedorento traque do destino. De agora em diante um vazio amarelecido e desconfortante, uma espécie de mau-estar a roer-me a vista mesmo que a projectasse para outras distâncias, traidores, os olhos, levavam-me em tristeza para ali para onde já não estava aquilo que era o que era. Creiam-me que fiz ais de suspiro em forma de merengue branco e com caramilo na ponta. Creiam-me que dei voltas e voltas para botar no sítio outra coisa, mas em vão. Acei…