terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

54



O homem das borboletas bateu-me à porta de casa. Abri sem saber quem me procurava porque era dia de me sentir Sheeler's green. Apareceu para me dizer que estava a chover e eu agradeci com um sorriso cego. Os meus olhos como se pertencessem a um deus persa ficam encovados e deixam de ver nos dias assim. Convidei-o a entrar, como sempre faço. Bebemos chá e trocámos emoções de especiarias, comemos bolachas de manteiga. Em silêncio vi que se formavam sobre aquilo que pensei ser o lugar da sua cabeça nuvens de asas de muitas cores que depois desapareciam ao ponto de ficar apenas uma ou duas voltando logo a seguir à forma de multidão. Borboletas, era um mar de borboletas por cima do que pensei ser a sua cabeça.
Como não tinha olhos de ver sonhei com o Sol de Verão a bater nos telhados das casas, pássaros e melancias frescas, o céu rasgado por fios de nuvens tocadas pelo vento. Acreditem que fiquei inundado pelo perene desejo de atingir o limite físico de sentir, como se sentisse uma dor distante e confusa. Era quase música, mas não era música. O dia de hoje não arrancou da memória outro dia como este. (Ainda de olhos fechados) Sobre a roliça aragem como imagino ser o bafo do demo nada me impede de ser indiferente ao anelo, à judiaria que os putos da rua fazem ao cão dócil, ao abandono dos segredos que existem no calor longínquo onde o pasto é uma espécie de azeite em forma de fruto, correrias e cantigas mortas pelo catolicismo de dar aos santos os nomes dos homens aforados ao trabalho. Aqui, neste preciso momento, sou a origem de tudo, sendo eu aquilo que sou, sou o verbo e nada mais.
O homem das borboletas estava a fazer a dança do costume. Fui atrás dele pela casa, enquanto as portas se abriam à sua passagem e de lá de dentro saíam os casacos e as meias e a roupa toda. Fiz estalar os meus ossos magrebinos em silêncio e na boca apavorada levava o desejo de comer laranjas. Imaginei, por isso, outros dias de olhos pregados ao céu da cidade. Segui-o por toda à parte até que desapareceu e voltei a ver como toda a gente.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

53


Amanhã já hei-de ter coisa nova para dizer, hoje não. Enquanto isso, vou levar a trela do cão a passear à rua. E se lá fora me perguntarem pelo cão, hei-de responder ao estilo de quem passeia à noite na rua, debaixo da plena chuva, que não tenho cão. Que faço o que me apetece, pois. E que hoje por não ter nada para dizer que vim à rua passear a trela do cão. Sou assim, como uma bela nêspera. Podia dizer-se cor-de-nêspera, não verdade? Responderei como que ajustando a latitude da reposta ao desagrado da pergunta. E se me responderem que se não se diz cor-de-nêspera, faço aquele ar de quem está a olhar para uma nuvem que só a mim me pertence e desapareço oblíquo da chuva.
Voltem amanhã, por favor, que já tenho mais para vos dizer, hoje não. Aliás, até já saí para ir passear a trela do cão lá fora numa aberta entre o que chove na noite.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

É o 52.


Eu falo muito, lamento. Não posso ficar sem palavras para dizer.
Ficar sem palavras para dizer é muito, lamento. Eu isso não posso.

E foi por esta razão que me dediquei ao vício de construir casas. E fi-lo, desunhando-me, para todas as pessoas que na ilha conheci. As casas construídas apresentavam-se empilhadas sem grande precisão umas por cima das outras, avolumando-se o gigantesco objecto na falta de um sentido estético puro para além do que a visão poderia, na verdade, abarcar. Paredes, telhados e janelas, muitas cores pintavam todas as sombras e jogos de luz. O olhar perdia-se.
A minha construção cresceu até muito alto, atingindo uma descomunal dimensão. Penso que seriam precisos três dias de viagem e muito alimento para atingir o seu topo caminhando entre escadas que levavam a lado nenhum e passagens estreitas. Mas disso não estou certo, dado que nunca ousei lá chegar. Limitei-me, nesse tempo, a observar de baixo e a imaginar como seria a ilha vista de lá de cima. Eu era ainda um pequeno homem e por isso não necessitava de dormir.
Um dia parei diante da obra com as mãos postas na cintura, como faziam todos os grande artistas do meu tempo, como se fosse, eu mesmo, o grande arquitecto do universo e descansei por uns momentos contemplando. Fechei os olhos, acho que foi isso. Fiquei assim naquele estado com o corpo dormente, com os olhos fechados e a experimentar todas as coisas do mundo. Devo ter dormido um longo período de tempo após aquele gesto de cansativa observação. Posso mesmo ter tomado notas para alterar uma coisa aqui e outra ali, antes de adormecer profundamente. Mas não me lembro de mais nada. Um fio de luz branca é do que me lembro bem.
É vento isso que assim assobia aí em baixo? Ninguém respondia. Eu estava muito longe.

51


Sujo-me todo para chegar onde quero. É uma porcaria de se ver. Acontece-me o mesmo quando como e sou obrigado a fazê-lo enquanto penso alto os números da vida. E penso-os e cantos-os e levo-os a todos os recantos do meu bairro dentro da barriga e do bolso. Tenho um bolso sem fundo para que me caibam todos ali muito juntos. Se dali me salta um número e depois outro fico a vê-los e depois sujo-me todo, claro. Mas para compensar estes factos delirantes ando sempre com passo ligeiro e, ultimamente, desenvolvi uma estranha facilidade para ouvir coisas ao longe que, de resto, existem. Por exemplo, ventiladores de casas-de-banho, acidentes de automóvel e gritos de crianças em ruas distantes do meu sítio, golos marcados no estádio Azteca do outro lado do Oceano, perturbações meteorológicas, bandeiras desfiladas nos altos paus de fileira, coisas sem nome.
Passo por sítios onde a chuva é abundante nas horas de maior tráfego. Há lama, há lama por todo o lado. A lama é uma coisa natural neste pequeno país. É por isso que fico todo sujo pelos sítios por onde passo. É por isso que tenho uma lista das minha obrigações visuais para o dia que antecede aquele onde estou, para evitar que me suje no lamaçal dos outros. Por exemplo, para o dia de hoje foi esta a lista de coisas a ver:
a) As folhas verdes de árvores onde elas existam antes de cair;
b) Um burro de ferro fervente;
c) A lama do chá de folha verde;
d) As nuvens da sinceridade presas ao céu voando para o lado de Espanha;
e) Os materiais compósitos à espera do seu fim;
f) As pessoas vestidas de folha de chá verde (procurando o sentido poético da alínea c));
g) Um bolo de arroz sentado numa esquina de Lisboa;
h) O vento azul do teu cabelo de pó de livros.

E hoje vi tudo isto sem esforço.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

50 (cinquenta)


Apanhei um susto naquele dia diferente, estou a contar-vos em primeira mão. Acreditem que fui surpreendido e que só não dei um salto maior para trás porque a cara se me fez torcida de espanto enquanto plantava as mão em sinal de defesa. Aquilo que era grande e que se encontrava no mesmo sítio há muitos anos e que fora o meu regalo desaparecera do meu universo emocional. Subitamente, apenas um vazio onde já reinara aquilo que ali estava. Ah!, Disse, depois de saltar para trás com as mãos a defender-me de qualquer coisa que só podia ter sido um fedorento traque do destino. De agora em diante um vazio amarelecido e desconfortante, uma espécie de mau-estar a roer-me a vista mesmo que a projectasse para outras distâncias, traidores, os olhos, levavam-me em tristeza para ali para onde já não estava aquilo que era o que era. Creiam-me que fiz ais de suspiro em forma de merengue branco e com caramilo na ponta. Creiam-me que dei voltas e voltas para botar no sítio outra coisa, mas em vão. Aceitem que vos diga que perdi o sono a pensar que não podia pensar mais naquilo. Mas sempre que entrava em casa olhava distraído para o tecto para não ver o nada que nem sequer se assemelhava ao que ali esteve por tantos e tantos anos, e nada. E o pior é que até o gato se despediu e saiu de casa. Fiquei apavorado, perdi peso e mergulhei no aquário do peixe para lá viver o resto da minha vida. O peixe tinha sido comido pelo gato deixando-me um oceano de vidro só para mim. Faço bolinhas de saliva que se desfazem na água rapidamente.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Tweet Ride



A propósito de bicicletas. Há por aí alguém que tenha uma pasteleira, ou coisa semelhante? Ando a pensar num Tweed Ride pelos caminhos e estradas rurais, pelas belíssimas paisagens de Montemor-o-Novo. Quando? Por ali pelo tempo em que se acabam as agruras do Inverno e o campo se enche da doce Primavera. Passem a palavra, por favor. Vamos fazer um encontro de quem usa diariamente a bicicleta com direito a pic-nic... Um Tweed Ride.

Uma bicicleta e um casaco estilo Oxford, um farnel de pic-nic et voilá, o resto é prazer absoluto. O ar por aqui é de todos.


Aceito inscrições
para o meu e-mail: jmgervasio@gmail.com

Até breve

sábado, 16 de janeiro de 2010

fourty nine (49)


Eu tinha aqui um dedo que era meu, juro. Mas já não sei dele. Caíu-me de uma orelha, perdi-o. Paciência.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Quarenta e oito (48)


Vou-me embora vestido com o mesmo fato com que me apresentei o ano inteiro. Umas nódoas que não saem, nem escovando com força, ganharam evidência nos últimos dias e tornaram-se mais visíveis à altura do peito. É do mau hábito de comer com as mãos e de me limpar à barriga enquanto escrevo e desenho o meu alimento. Tenho tudo pronto para partir desde a manhã de ontem. Até o burro já zurra para se pôr a caminho. Está excitado, o animal de um raio. Pressente alteração. Encilhei-o sem grande preceito, mas que se lixe, a jornada não será longa e sempre posso parar aqui ou ali para lhe apertar os arreios e verificar a tralha que lhe coloquei no garrote. Levo sobretudo água da chuva que caiu aqui para regar onde faltar mais à frente. Levo-a na boca e por isso não posso falar. Vou por certo parar muitas vezes com o peso que levo. Além do mais, a viagem não será muito longa, como já fiz ver. Assim, o animal também descansa e eu levo mais tempo a chegar. Não sei se quero achegar a algum lado e já coloquei a questão de querer mesmo partir. Enfim, vou-me embora, pronto. Vou-me daqui, do sítio de onde mesmo quando chove o dia é bom e ameno, para o inferno das lantejoulas, das bolinhas de chocolate e do caldo de pescoço de galinha com miudezas da mesma. Espero não vomitar. Espero este ano aguentar o refluxo gástrico à entrada do estômago. Nisto, vou passando os olhos pelas linhas das minhas mãos. E vou pensando que estou mudado. Nas mãos li a mesma história de sempre que começa com uma espécie de perfil seráfico onde pranteiam azáleas do Índico, pimentas de caiena e do reino, pimentões das Américas exóticas e distantes, ervas de perfumes gustativos, tapetes dos desertos que se dão às noivas berberes, tractores de plantar girassóis, tinta-da-china e papel delicado, porras várias, sei lá, é tudo uma distracção. Pois... vou-me embora, espero que o burro se aguente e que beba muita água pelo caminho.

domingo, 20 de dezembro de 2009

fourty seven (47)


Era o dia da véspera da noite de natal e tinha a alma num ir e num vir constantes. Era assim quase como que um tormento dulcíssimo, como quem tem um fio de coisa doce na boca. Seria mesmo capaz de saborear aquilo que a nada sabe e de tocar o nevoeiro com a língua hirta, se a tal me predispusesse nesse instante. Foi nesta espécie de lugar que antecede o sangue a ferver no corpo que me encontrei. Ali onde não morava outro nome que mereça lembrar, sentado a olhar as pernas cruzadas. Penso que levitaria se houvesse menos ruído em volta, não tenho bem a certeza, mas acho que o faria sem hesitação fosse o espaço menos ruidoso. E fiz até um desenho disso, a traço grosso cheio de expressão grossa. Enquanto que naquilo a que ainda hoje chamo mente se adensava uma espécie de poema que revisitava o teu magnífico cu. O teu cu, o teu cu, o teu honroso bom cu. E pensei três vezes sem perder o tino, o teu soberbo cu é uma coisa do outro mundo. Cheguei mesmo a decifrar todas as letras do meu poema, tal era a visão, antevendo o desenrolar da história. Sim, o poema cresceu e era véspera de natal. Debaixo das saias dos sinos, nas igrejas do mundo inteiro, lá fora, zurziam poderosos badalos, martelos e rimas de erecção. Era natal, com um raio, e o teu cu era um encanto com luzes e bolinhas, bolachas de gengibre e os coros de anjos vociferantes cantando nas alturas. E eu não indiferente a tamanha alegria, só tinha olhos para o teu cu de vinho doce, canela e outras especiarias.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

46

Escultura habitável #1, José Miguel Gervásio + Auzprojekt


AVISO À NAVEGAÇÃO

PROCURA-SE, INVESTIDOR/A VISIONÁRIO/A, AMANTE DA ARTE, MILIONÁRIO/A EXTRAVAGANTE COM GOSTO PELA ARTE, QUE TENHA, PREFERENCIALMENTE, UM AMPLO JARDIM À VOLTA DE SUA CASA, PARA ADQUIRIR ESTE PROJECTO E INICIAR A SUA CONSTRUÇÃO. PARA QUE OS SEUS DIAS SEJAM FRANCAMENTE POÉTICOS AO ABRIR AS JANELAS DA SUA OUTRA CASA, NÓS TEMOS A SOLUÇÃO.

Também ficamos contentes se o projecto for aproveitado para a próxima edição da Bienal de Veneza, ou coisinha similar, pelas entidades do governo responsáveis pela área. Não nos levem a mal o pedido, mas andamos roídos pela miséria.