terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

50 (cinquenta)


Apanhei um susto naquele dia diferente, estou a contar-vos em primeira mão. Acreditem que fui surpreendido e que só não dei um salto maior para trás porque a cara se me fez torcida de espanto enquanto plantava as mão em sinal de defesa. Aquilo que era grande e que se encontrava no mesmo sítio há muitos anos e que fora o meu regalo desaparecera do meu universo emocional. Subitamente, apenas um vazio onde já reinara aquilo que ali estava. Ah!, Disse, depois de saltar para trás com as mãos a defender-me de qualquer coisa que só podia ter sido um fedorento traque do destino. De agora em diante um vazio amarelecido e desconfortante, uma espécie de mau-estar a roer-me a vista mesmo que a projectasse para outras distâncias, traidores, os olhos, levavam-me em tristeza para ali para onde já não estava aquilo que era o que era. Creiam-me que fiz ais de suspiro em forma de merengue branco e com caramilo na ponta. Creiam-me que dei voltas e voltas para botar no sítio outra coisa, mas em vão. Aceitem que vos diga que perdi o sono a pensar que não podia pensar mais naquilo. Mas sempre que entrava em casa olhava distraído para o tecto para não ver o nada que nem sequer se assemelhava ao que ali esteve por tantos e tantos anos, e nada. E o pior é que até o gato se despediu e saiu de casa. Fiquei apavorado, perdi peso e mergulhei no aquário do peixe para lá viver o resto da minha vida. O peixe tinha sido comido pelo gato deixando-me um oceano de vidro só para mim. Faço bolinhas de saliva que se desfazem na água rapidamente.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Tweet Ride



A propósito de bicicletas. Há por aí alguém que tenha uma pasteleira, ou coisa semelhante? Ando a pensar num Tweed Ride pelos caminhos e estradas rurais, pelas belíssimas paisagens de Montemor-o-Novo. Quando? Por ali pelo tempo em que se acabam as agruras do Inverno e o campo se enche da doce Primavera. Passem a palavra, por favor. Vamos fazer um encontro de quem usa diariamente a bicicleta com direito a pic-nic... Um Tweed Ride.

Uma bicicleta e um casaco estilo Oxford, um farnel de pic-nic et voilá, o resto é prazer absoluto. O ar por aqui é de todos.


Aceito inscrições
para o meu e-mail: jmgervasio@gmail.com

Até breve

sábado, 16 de janeiro de 2010

fourty nine (49)


Eu tinha aqui um dedo que era meu, juro. Mas já não sei dele. Caíu-me de uma orelha, perdi-o. Paciência.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Quarenta e oito (48)


Vou-me embora vestido com o mesmo fato com que me apresentei o ano inteiro. Umas nódoas que não saem, nem escovando com força, ganharam evidência nos últimos dias e tornaram-se mais visíveis à altura do peito. É do mau hábito de comer com as mãos e de me limpar à barriga enquanto escrevo e desenho o meu alimento. Tenho tudo pronto para partir desde a manhã de ontem. Até o burro já zurra para se pôr a caminho. Está excitado, o animal de um raio. Pressente alteração. Encilhei-o sem grande preceito, mas que se lixe, a jornada não será longa e sempre posso parar aqui ou ali para lhe apertar os arreios e verificar a tralha que lhe coloquei no garrote. Levo sobretudo água da chuva que caiu aqui para regar onde faltar mais à frente. Levo-a na boca e por isso não posso falar. Vou por certo parar muitas vezes com o peso que levo. Além do mais, a viagem não será muito longa, como já fiz ver. Assim, o animal também descansa e eu levo mais tempo a chegar. Não sei se quero achegar a algum lado e já coloquei a questão de querer mesmo partir. Enfim, vou-me embora, pronto. Vou-me daqui, do sítio de onde mesmo quando chove o dia é bom e ameno, para o inferno das lantejoulas, das bolinhas de chocolate e do caldo de pescoço de galinha com miudezas da mesma. Espero não vomitar. Espero este ano aguentar o refluxo gástrico à entrada do estômago. Nisto, vou passando os olhos pelas linhas das minhas mãos. E vou pensando que estou mudado. Nas mãos li a mesma história de sempre que começa com uma espécie de perfil seráfico onde pranteiam azáleas do Índico, pimentas de caiena e do reino, pimentões das Américas exóticas e distantes, ervas de perfumes gustativos, tapetes dos desertos que se dão às noivas berberes, tractores de plantar girassóis, tinta-da-china e papel delicado, porras várias, sei lá, é tudo uma distracção. Pois... vou-me embora, espero que o burro se aguente e que beba muita água pelo caminho.

domingo, 20 de dezembro de 2009

fourty seven (47)


Era o dia da véspera da noite de natal e tinha a alma num ir e num vir constantes. Era assim quase como que um tormento dulcíssimo, como quem tem um fio de coisa doce na boca. Seria mesmo capaz de saborear aquilo que a nada sabe e de tocar o nevoeiro com a língua hirta, se a tal me predispusesse nesse instante. Foi nesta espécie de lugar que antecede o sangue a ferver no corpo que me encontrei. Ali onde não morava outro nome que mereça lembrar, sentado a olhar as pernas cruzadas. Penso que levitaria se houvesse menos ruído em volta, não tenho bem a certeza, mas acho que o faria sem hesitação fosse o espaço menos ruidoso. E fiz até um desenho disso, a traço grosso cheio de expressão grossa. Enquanto que naquilo a que ainda hoje chamo mente se adensava uma espécie de poema que revisitava o teu magnífico cu. O teu cu, o teu cu, o teu honroso bom cu. E pensei três vezes sem perder o tino, o teu soberbo cu é uma coisa do outro mundo. Cheguei mesmo a decifrar todas as letras do meu poema, tal era a visão, antevendo o desenrolar da história. Sim, o poema cresceu e era véspera de natal. Debaixo das saias dos sinos, nas igrejas do mundo inteiro, lá fora, zurziam poderosos badalos, martelos e rimas de erecção. Era natal, com um raio, e o teu cu era um encanto com luzes e bolinhas, bolachas de gengibre e os coros de anjos vociferantes cantando nas alturas. E eu não indiferente a tamanha alegria, só tinha olhos para o teu cu de vinho doce, canela e outras especiarias.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

46

Escultura habitável #1, José Miguel Gervásio + Auzprojekt


AVISO À NAVEGAÇÃO

PROCURA-SE, INVESTIDOR/A VISIONÁRIO/A, AMANTE DA ARTE, MILIONÁRIO/A EXTRAVAGANTE COM GOSTO PELA ARTE, QUE TENHA, PREFERENCIALMENTE, UM AMPLO JARDIM À VOLTA DE SUA CASA, PARA ADQUIRIR ESTE PROJECTO E INICIAR A SUA CONSTRUÇÃO. PARA QUE OS SEUS DIAS SEJAM FRANCAMENTE POÉTICOS AO ABRIR AS JANELAS DA SUA OUTRA CASA, NÓS TEMOS A SOLUÇÃO.

Também ficamos contentes se o projecto for aproveitado para a próxima edição da Bienal de Veneza, ou coisinha similar, pelas entidades do governo responsáveis pela área. Não nos levem a mal o pedido, mas andamos roídos pela miséria.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

45


A edição daquele dia fez estalar a vida com uma novidade absoluta. Foi um ar que se lhe deu, pronto. Uma espécie de lugar de perfeição fez abalar o mundo. Foi uma coisa repentina, disseram-me os vizinhos. Estava ali sentado e deu-lhe aquilo, logo ali. Virou-se de pés pelas mãos. Um acontecimento que deixa sempre pregado à clausula do espanto quem o vê. Vomitou uma versão integral de um sutra muito antigo como se fosse um sortilégio e, com aquela lâmpada verde acesa por cima da sua cabeça dando-lhe um aspecto demoníaco, saltava sem parar de um lado para o outro, a dizer coisas de louco. Fugiram todos antes da história acabar. Quando lá cheguei apenas senti o perfumado clarão da madrugada que acabava de aparecer para dar continuidade à sensação de novidade que se instalara naquele sítio.
Ao local começaram outros a chegar: ursos pardos, cinzentos e brancos, todos sem cuecas, atiravam ao ar coristas romenas e apanhavam-nas como se fossem bolas de cristal, logo de perto eram seguidos por um conjunto de sopradores de fagotes, batedores de tambores e bebedores de água da fonte, mijadores públicos, homens que tocavam colheres nas costas de outros homens - vestidos de vermelho e branco -, iguanas malucas, igualmente, despidas, acariciavam com as línguas os plantadores de cravos que carregando com alfaias e sementes, faziam caras feias às línguas meladas de babas de lagartos; havia mulheres de muitas raças dançando com os seios nus e cantando aos gritos, umas tocavam flautas, outras aplaudiam as primeiras. Ah, logo ali, bem colados a si, uns caralhos de cerâmica, enormes a roçar o céu da alegria, e as luvas, e os sapatos dos mortos de outros tempos, encontrados nos cemitérios das redondezas, acariciavam-lhes os tomates hirtos pelo frio da noite. Havia pulgas a puxar carroças carregadas de olhos de lagartos, nêsperas azedas e pelos de macacos. Comedores de uvas em cachos penduradas noutros cachos, mamas assopradas, como instrumentos de músicas, por quem as usava e uma orquestra sinfónica fardada seguia a pé, muito direitinha e com todos os elementos vestidos de igual. Um grande faquir russo transportava, à frente deste cortejo, uma bandeira dourada com letras bordadas. Atrás de si seguiam os anões disfarçados de ministros que atiravam favores políticos a quem os via passar. As caixas de músicas infantis que faziam dançar dançarinas coxas marchavam sem perder o ritmo ao passo de um hino muito usado no tempo deste relato. Os homens de respeito estavam vestidos de preto a olhar de lado para o mundo e seguiam atrás de tudo isto sem pinga de vergonha. E acenavam as famílias de bem que os via passar. Subitamente pararam. E fizeram todos silêncio. Deus, lá de onde costuma estar, alçou uma mão gorda e guardou-os numa grande caixa de fósforos que trazia sempre no bolso. Levou-os, a todos, para a sua casa na Lua que fica depois do céu da aparência. Sabe-se que comeram bolos e que beberam vinho, nada mais, nada mais.
Cá em baixo, a rapaziada, continuou a jogar às fisgas, a fingir que nada se passou. É da metafísica, ao que parece é da metafísica. Ah!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Fourty four (44)


Cedo acordei cheio de fome e, por isso, saí à rua onde procurei saciar o meu desejo. Sentei-me num largo onde o Sol batia ameno e esperei. Esperei horas a fio e vi passar marechais, e as suas senhoras, os seus cães de guarda. Passaram outros fardados mas que não consegui identificar. A este propósito posso dizer que gosto mais dos verdes, ainda que, à minha frente, tivessem passado uns quantos vestidos de fardas vermelhas. Passou aquilo que penso ter sido a sombra de um autocarro carregado de batatas doces. Devorei-o com o olhar a começar pelas rodas de borracha, segurando-o com firmeza entre as mãos, roendo-o, mirando-o, de uma ponta à outra, como se de uma massaroca de milho se tratasse. Terminei a chupar os assentos de napa, um por um, quase satisfeito. A seguir, uma enorme máquina de trabalhos pesados com grua e tudo. Deliciei-me a comer-lhe o opíparo das entranhas, e a trincar os metais crocantes entre os dentes. Mais uma vez engoli as borrachas com enorme prazer e satisfação. E permaneci sentado remoendo a tralha no estômago. É tudo política? Não faltará um pouco de imaginação à banda que insiste em tocar a mesma música? Ah, lá vêm as moscas pousar na minha sesta. Vou ficar a ver se passa mais alguma coisa a que possa deitar o dente.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

43


O meu cinema é aquele que tem personagens que habitam a minha memória e que, estranhamente, se deixam contagiar pelo personagem que sou. Não quero com isto dizer que viva num filme, ainda que, por vezes, retire dos filmes o perfumado sentido das suas histórias para corromper os meus dias iguais. Sempre que isso acontece sonho melhor, em ecrã panorâmico e com som digital. Chego mesmo a tomar café no Bar do cinema Royal com os actores e as actrizes no intervalos das sessões. Poderia, por exemplo, contar a cor que têm os pessegueiros floridos num belo conto filmado por Kurosawa e a maneira como isso sempre me inspirou, ou outras coisas repletas de monstros e beijos intermináveis. A vida dos meus filmes é feita dos rebuçados que os acompanham. Partilhem-se, acontecimentos e chocolates, as histórias e os personagens. Adocemos a nossa vida de imagens, de música e de palavras a gosto. Às vezes fico nostálgico, mas passa-me depressa!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

42 (forty two)




Estou claramente em pé. Sobre os meus dois pés aguento-me sem cair. Os pés enfiados nos sapatos, meias, calças, cuecas, camisa e lenço de assoar. Estou de pé com isto tudo no corpo. Relógio que dá horas devagar e a respiração profunda e longa de quem se prepara para saltar sobre um precipício. Dou um passo em frente e outro passo atrás. Preparo-me para saltar, mas não salto já. Fico onde estou, de pé, aguento-me sem cair, sobre os meus dois pés. Os pés enfiados nos sapatos, meias, calças, cuecas, camisa e lenço de assoar e, também, um chapéu de feltro no topo da cabeça com uma pena de passarão. E no fim de tudo o meu nariz que como uma bússola aponta para ali, na direcção certa, à espera de saltar. É agora. Vou saltar. Mas não salto porque tenho muita roupa no corpo e os pés enfiados nos sapatos, meias, calças, cuecas, camisa e lenço de assoar.
Acabei por não saltar. Afinal não era um precipício, mas sim uma pequena vala coisa sem importância. Resolvi deitar-me a ver passar por mim um conjunto de turistas que se tinham deslocado propositadamente até ao fim do mundo para que me vissem deitar fora a vida dentro de uma vala sem grande dignidade. Ficaram chocados comigo e eu com eles. A vida, disse-lhes, é uma grande agência de viagens com roteiros estranhos e pensão completa. Sisudos, desapareceram, acho que alguém os enganou.