quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Quarenta e oito (48)


Vou-me embora vestido com o mesmo fato com que me apresentei o ano inteiro. Umas nódoas que não saem, nem escovando com força, ganharam evidência nos últimos dias e tornaram-se mais visíveis à altura do peito. É do mau hábito de comer com as mãos e de me limpar à barriga enquanto escrevo e desenho o meu alimento. Tenho tudo pronto para partir desde a manhã de ontem. Até o burro já zurra para se pôr a caminho. Está excitado, o animal de um raio. Pressente alteração. Encilhei-o sem grande preceito, mas que se lixe, a jornada não será longa e sempre posso parar aqui ou ali para lhe apertar os arreios e verificar a tralha que lhe coloquei no garrote. Levo sobretudo água da chuva que caiu aqui para regar onde faltar mais à frente. Levo-a na boca e por isso não posso falar. Vou por certo parar muitas vezes com o peso que levo. Além do mais, a viagem não será muito longa, como já fiz ver. Assim, o animal também descansa e eu levo mais tempo a chegar. Não sei se quero achegar a algum lado e já coloquei a questão de querer mesmo partir. Enfim, vou-me embora, pronto. Vou-me daqui, do sítio de onde mesmo quando chove o dia é bom e ameno, para o inferno das lantejoulas, das bolinhas de chocolate e do caldo de pescoço de galinha com miudezas da mesma. Espero não vomitar. Espero este ano aguentar o refluxo gástrico à entrada do estômago. Nisto, vou passando os olhos pelas linhas das minhas mãos. E vou pensando que estou mudado. Nas mãos li a mesma história de sempre que começa com uma espécie de perfil seráfico onde pranteiam azáleas do Índico, pimentas de caiena e do reino, pimentões das Américas exóticas e distantes, ervas de perfumes gustativos, tapetes dos desertos que se dão às noivas berberes, tractores de plantar girassóis, tinta-da-china e papel delicado, porras várias, sei lá, é tudo uma distracção. Pois... vou-me embora, espero que o burro se aguente e que beba muita água pelo caminho.

domingo, 20 de dezembro de 2009

fourty seven (47)


Era o dia da véspera da noite de natal e tinha a alma num ir e num vir constantes. Era assim quase como que um tormento dulcíssimo, como quem tem um fio de coisa doce na boca. Seria mesmo capaz de saborear aquilo que a nada sabe e de tocar o nevoeiro com a língua hirta, se a tal me predispusesse nesse instante. Foi nesta espécie de lugar que antecede o sangue a ferver no corpo que me encontrei. Ali onde não morava outro nome que mereça lembrar, sentado a olhar as pernas cruzadas. Penso que levitaria se houvesse menos ruído em volta, não tenho bem a certeza, mas acho que o faria sem hesitação fosse o espaço menos ruidoso. E fiz até um desenho disso, a traço grosso cheio de expressão grossa. Enquanto que naquilo a que ainda hoje chamo mente se adensava uma espécie de poema que revisitava o teu magnífico cu. O teu cu, o teu cu, o teu honroso bom cu. E pensei três vezes sem perder o tino, o teu soberbo cu é uma coisa do outro mundo. Cheguei mesmo a decifrar todas as letras do meu poema, tal era a visão, antevendo o desenrolar da história. Sim, o poema cresceu e era véspera de natal. Debaixo das saias dos sinos, nas igrejas do mundo inteiro, lá fora, zurziam poderosos badalos, martelos e rimas de erecção. Era natal, com um raio, e o teu cu era um encanto com luzes e bolinhas, bolachas de gengibre e os coros de anjos vociferantes cantando nas alturas. E eu não indiferente a tamanha alegria, só tinha olhos para o teu cu de vinho doce, canela e outras especiarias.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

46

Escultura habitável #1, José Miguel Gervásio + Auzprojekt


AVISO À NAVEGAÇÃO

PROCURA-SE, INVESTIDOR/A VISIONÁRIO/A, AMANTE DA ARTE, MILIONÁRIO/A EXTRAVAGANTE COM GOSTO PELA ARTE, QUE TENHA, PREFERENCIALMENTE, UM AMPLO JARDIM À VOLTA DE SUA CASA, PARA ADQUIRIR ESTE PROJECTO E INICIAR A SUA CONSTRUÇÃO. PARA QUE OS SEUS DIAS SEJAM FRANCAMENTE POÉTICOS AO ABRIR AS JANELAS DA SUA OUTRA CASA, NÓS TEMOS A SOLUÇÃO.

Também ficamos contentes se o projecto for aproveitado para a próxima edição da Bienal de Veneza, ou coisinha similar, pelas entidades do governo responsáveis pela área. Não nos levem a mal o pedido, mas andamos roídos pela miséria.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

45


A edição daquele dia fez estalar a vida com uma novidade absoluta. Foi um ar que se lhe deu, pronto. Uma espécie de lugar de perfeição fez abalar o mundo. Foi uma coisa repentina, disseram-me os vizinhos. Estava ali sentado e deu-lhe aquilo, logo ali. Virou-se de pés pelas mãos. Um acontecimento que deixa sempre pregado à clausula do espanto quem o vê. Vomitou uma versão integral de um sutra muito antigo como se fosse um sortilégio e, com aquela lâmpada verde acesa por cima da sua cabeça dando-lhe um aspecto demoníaco, saltava sem parar de um lado para o outro, a dizer coisas de louco. Fugiram todos antes da história acabar. Quando lá cheguei apenas senti o perfumado clarão da madrugada que acabava de aparecer para dar continuidade à sensação de novidade que se instalara naquele sítio.
Ao local começaram outros a chegar: ursos pardos, cinzentos e brancos, todos sem cuecas, atiravam ao ar coristas romenas e apanhavam-nas como se fossem bolas de cristal, logo de perto eram seguidos por um conjunto de sopradores de fagotes, batedores de tambores e bebedores de água da fonte, mijadores públicos, homens que tocavam colheres nas costas de outros homens - vestidos de vermelho e branco -, iguanas malucas, igualmente, despidas, acariciavam com as línguas os plantadores de cravos que carregando com alfaias e sementes, faziam caras feias às línguas meladas de babas de lagartos; havia mulheres de muitas raças dançando com os seios nus e cantando aos gritos, umas tocavam flautas, outras aplaudiam as primeiras. Ah, logo ali, bem colados a si, uns caralhos de cerâmica, enormes a roçar o céu da alegria, e as luvas, e os sapatos dos mortos de outros tempos, encontrados nos cemitérios das redondezas, acariciavam-lhes os tomates hirtos pelo frio da noite. Havia pulgas a puxar carroças carregadas de olhos de lagartos, nêsperas azedas e pelos de macacos. Comedores de uvas em cachos penduradas noutros cachos, mamas assopradas, como instrumentos de músicas, por quem as usava e uma orquestra sinfónica fardada seguia a pé, muito direitinha e com todos os elementos vestidos de igual. Um grande faquir russo transportava, à frente deste cortejo, uma bandeira dourada com letras bordadas. Atrás de si seguiam os anões disfarçados de ministros que atiravam favores políticos a quem os via passar. As caixas de músicas infantis que faziam dançar dançarinas coxas marchavam sem perder o ritmo ao passo de um hino muito usado no tempo deste relato. Os homens de respeito estavam vestidos de preto a olhar de lado para o mundo e seguiam atrás de tudo isto sem pinga de vergonha. E acenavam as famílias de bem que os via passar. Subitamente pararam. E fizeram todos silêncio. Deus, lá de onde costuma estar, alçou uma mão gorda e guardou-os numa grande caixa de fósforos que trazia sempre no bolso. Levou-os, a todos, para a sua casa na Lua que fica depois do céu da aparência. Sabe-se que comeram bolos e que beberam vinho, nada mais, nada mais.
Cá em baixo, a rapaziada, continuou a jogar às fisgas, a fingir que nada se passou. É da metafísica, ao que parece é da metafísica. Ah!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Fourty four (44)


Cedo acordei cheio de fome e, por isso, saí à rua onde procurei saciar o meu desejo. Sentei-me num largo onde o Sol batia ameno e esperei. Esperei horas a fio e vi passar marechais, e as suas senhoras, os seus cães de guarda. Passaram outros fardados mas que não consegui identificar. A este propósito posso dizer que gosto mais dos verdes, ainda que, à minha frente, tivessem passado uns quantos vestidos de fardas vermelhas. Passou aquilo que penso ter sido a sombra de um autocarro carregado de batatas doces. Devorei-o com o olhar a começar pelas rodas de borracha, segurando-o com firmeza entre as mãos, roendo-o, mirando-o, de uma ponta à outra, como se de uma massaroca de milho se tratasse. Terminei a chupar os assentos de napa, um por um, quase satisfeito. A seguir, uma enorme máquina de trabalhos pesados com grua e tudo. Deliciei-me a comer-lhe o opíparo das entranhas, e a trincar os metais crocantes entre os dentes. Mais uma vez engoli as borrachas com enorme prazer e satisfação. E permaneci sentado remoendo a tralha no estômago. É tudo política? Não faltará um pouco de imaginação à banda que insiste em tocar a mesma música? Ah, lá vêm as moscas pousar na minha sesta. Vou ficar a ver se passa mais alguma coisa a que possa deitar o dente.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

43


O meu cinema é aquele que tem personagens que habitam a minha memória e que, estranhamente, se deixam contagiar pelo personagem que sou. Não quero com isto dizer que viva num filme, ainda que, por vezes, retire dos filmes o perfumado sentido das suas histórias para corromper os meus dias iguais. Sempre que isso acontece sonho melhor, em ecrã panorâmico e com som digital. Chego mesmo a tomar café no Bar do cinema Royal com os actores e as actrizes no intervalos das sessões. Poderia, por exemplo, contar a cor que têm os pessegueiros floridos num belo conto filmado por Kurosawa e a maneira como isso sempre me inspirou, ou outras coisas repletas de monstros e beijos intermináveis. A vida dos meus filmes é feita dos rebuçados que os acompanham. Partilhem-se, acontecimentos e chocolates, as histórias e os personagens. Adocemos a nossa vida de imagens, de música e de palavras a gosto. Às vezes fico nostálgico, mas passa-me depressa!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

42 (forty two)




Estou claramente em pé. Sobre os meus dois pés aguento-me sem cair. Os pés enfiados nos sapatos, meias, calças, cuecas, camisa e lenço de assoar. Estou de pé com isto tudo no corpo. Relógio que dá horas devagar e a respiração profunda e longa de quem se prepara para saltar sobre um precipício. Dou um passo em frente e outro passo atrás. Preparo-me para saltar, mas não salto já. Fico onde estou, de pé, aguento-me sem cair, sobre os meus dois pés. Os pés enfiados nos sapatos, meias, calças, cuecas, camisa e lenço de assoar e, também, um chapéu de feltro no topo da cabeça com uma pena de passarão. E no fim de tudo o meu nariz que como uma bússola aponta para ali, na direcção certa, à espera de saltar. É agora. Vou saltar. Mas não salto porque tenho muita roupa no corpo e os pés enfiados nos sapatos, meias, calças, cuecas, camisa e lenço de assoar.
Acabei por não saltar. Afinal não era um precipício, mas sim uma pequena vala coisa sem importância. Resolvi deitar-me a ver passar por mim um conjunto de turistas que se tinham deslocado propositadamente até ao fim do mundo para que me vissem deitar fora a vida dentro de uma vala sem grande dignidade. Ficaram chocados comigo e eu com eles. A vida, disse-lhes, é uma grande agência de viagens com roteiros estranhos e pensão completa. Sisudos, desapareceram, acho que alguém os enganou.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

41




41 anos entre vós! E quase nada. A não ser um par de caracóis num vaso de jardim e um apito no ouvido. Uns sapatos velhos, uma bola de futebol, um saco de ir às compras muito colorido, um vencimento de merda, um bolo que fiz para mim mesmo e que vou comer amanhã quando me cantarem a velha canção. Tenho dois grilos muito velhos que trouxe da infância feliz, uma casa de baratas, alguns livros bestiais onde volto sempre que posso. Uns filmes a preto e branco e refresco de hortelã pimenta para os ver enquanto bebo. O meu vicking preferido a desancar no jantar, a apagar incêndios infernais. Tenho uma livraria perto de mim com o melhor sofá do mundo. Às vezes, quando lá entro, sem querer imagino que as palavras que penso me saltam da boca sem proferir esforço de as dizer, e digo, e penso: porque razão tem cravos e outras flores o teu sorriso? Tenho um cansaço enorme que me impele outra vez à luta. Perco, quase sempre, porque se me desvia o olhar para outras coisas. Tenho o resto aqui na mão esquerda, que é a minha mão com dois sentidos.
Volto para o ano, vou zarpar!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Forty (quarenta)



Há-de vir outro tempo em que me encontre mais colorido. Mas hoje não! Há-se de vir outro tempo parecido com este, (vou esperar pelo outro que virá semelhante). Mas hoje, ah! Não quero mexer-me mais. Caiu-me a noite repentina em cima e uma espécie de sonolência parece encontrar caminho através do meu corpo tomando conta de tudo. Não faço nada, disse sem bravura, aos retratos dos antepassados que me forram as paredes de casa logo depois de ter aberto a porta da entrada e de ter dado com a fotografia de um avô distante no tempo. Não faço mais nada hoje, disse-lhe, lamento. Logo dois deles saltaram das molduras onde repousavam há muito e do chão desataram a dizer impropérios que me eram dirigidos, coisas de quem só tem cabeça de retrato a preto e branco retocada a aguarela. Ignorei-os, mesmo quando me perseguiram pelo corredor enquanto tirava o chapéu e o casaco, e a pesada mochila do meu ofício. Parei num repente e coloquei o indicador direito no ar, com o cotovelo ligeiramente dobrado. Atenção, disse, enquanto eles pararam dentro da minha sombra atrás do meu passo, hoje não faço mais nada. E foi assim que me
transformei num confortável sofá, quando estalei os dedos e desapareci para um nível de existência diferente.

domingo, 25 de outubro de 2009

39, ou lá que é!


Aaaaah! As moscas! Outras vez as moscas! Estou farto de moscas. E foi por isso que nem cheguei a ligar a televisão e desatei a olhar para mim. Sem cabelos no crânio e com rugas na pele. Estás velho, pá! Sentei-me e chupei um caramelo da tosse. Deixei chover o resto do dia em solidão.