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Mensagens

fourty seven (47)

Era o dia da véspera da noite de natal e tinha a alma num ir e num vir constantes. Era assim quase como que um tormento dulcíssimo, como quem tem um fio de coisa doce na boca. Seria mesmo capaz de saborear aquilo que a nada sabe e de tocar o nevoeiro com a língua hirta, se a tal me predispusesse nesse instante. Foi nesta espécie de lugar que antecede o sangue a ferver no corpo que me encontrei. Ali onde não morava outro nome que mereça lembrar, sentado a olhar as pernas cruzadas. Penso que levitaria se houvesse menos ruído em volta, não tenho bem a certeza, mas acho que o faria sem hesitação fosse o espaço menos ruidoso. E fiz até um desenho disso, a traço grosso cheio de expressão grossa. Enquanto que naquilo a que ainda hoje chamo mente se adensava uma espécie de poema que revisitava o teu magnífico cu. O teu cu, o teu cu, o teu honroso bom cu. E pensei três vezes sem perder o tino, o teu soberbo cu é uma coisa do outro mundo. Cheguei mesmo a decifrar todas as letras do meu poema, …

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Escultura habitável #1, José Miguel Gervásio + Auzprojekt


AVISO À NAVEGAÇÃO

PROCURA-SE, INVESTIDOR/A VISIONÁRIO/A, AMANTE DA ARTE, MILIONÁRIO/A EXTRAVAGANTE COM GOSTO PELA ARTE, QUE TENHA, PREFERENCIALMENTE, UM AMPLO JARDIM À VOLTA DE SUA CASA, PARA ADQUIRIR ESTE PROJECTO E INICIAR A SUA CONSTRUÇÃO. PARA QUE OS SEUS DIAS SEJAM FRANCAMENTE POÉTICOS AO ABRIR AS JANELAS DA SUA OUTRA CASA, NÓS TEMOS A SOLUÇÃO.

Também ficamos contentes se o projecto for aproveitado para a próxima edição da Bienal de Veneza, ou coisinha similar, pelas entidades do governo responsáveis pela área. Não nos levem a mal o pedido, mas andamos roídos pela miséria.

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A edição daquele dia fez estalar a vida com uma novidade absoluta. Foi um ar que se lhe deu, pronto. Uma espécie de lugar de perfeição fez abalar o mundo. Foi uma coisa repentina, disseram-me os vizinhos. Estava ali sentado e deu-lhe aquilo, logo ali. Virou-se de pés pelas mãos. Um acontecimento que deixa sempre pregado à clausula do espanto quem o vê. Vomitou uma versão integral de um sutra muito antigo como se fosse um sortilégio e, com aquela lâmpada verde acesa por cima da sua cabeça dando-lhe um aspecto demoníaco, saltava sem parar de um lado para o outro, a dizer coisas de louco. Fugiram todos antes da história acabar. Quando lá cheguei apenas senti o perfumado clarão da madrugada que acabava de aparecer para dar continuidade à sensação de novidade que se instalara naquele sítio.
Ao local começaram outros a chegar: ursos pardos, cinzentos e brancos, todos sem cuecas, atiravam ao ar coristas romenas e apanhavam-nas como se fossem bolas de cristal, logo de perto eram seguidos por …

Fourty four (44)

Cedo acordei cheio de fome e, por isso, saí à rua onde procurei saciar o meu desejo. Sentei-me num largo onde o Sol batia ameno e esperei. Esperei horas a fio e vi passar marechais, e as suas senhoras, os seus cães de guarda. Passaram outros fardados mas que não consegui identificar. A este propósito posso dizer que gosto mais dos verdes, ainda que, à minha frente, tivessem passado uns quantos vestidos de fardas vermelhas. Passou aquilo que penso ter sido a sombra de um autocarro carregado de batatas doces. Devorei-o com o olhar a começar pelas rodas de borracha, segurando-o com firmeza entre as mãos, roendo-o, mirando-o, de uma ponta à outra, como se de uma massaroca de milho se tratasse. Terminei a chupar os assentos de napa, um por um, quase satisfeito. A seguir, uma enorme máquina de trabalhos pesados com grua e tudo. Deliciei-me a comer-lhe o opíparo das entranhas, e a trincar os metais crocantes entre os dentes. Mais uma vez engoli as borrachas com enorme prazer e satisfação. …

43

O meu cinema é aquele que tem personagens que habitam a minha memória e que, estranhamente, se deixam contagiar pelo personagem que sou. Não quero com isto dizer que viva num filme, ainda que, por vezes, retire dos filmes o perfumado sentido das suas histórias para corromper os meus dias iguais. Sempre que isso acontece sonho melhor, em ecrã panorâmico e com som digital. Chego mesmo a tomar café no Bar do cinema Royal com os actores e as actrizes no intervalos das sessões. Poderia, por exemplo, contar a cor que têm os pessegueiros floridos num belo conto filmado por Kurosawa e a maneira como isso sempre me inspirou, ou outras coisas repletas de monstros e beijos intermináveis. A vida dos meus filmes é feita dos rebuçados que os acompanham. Partilhem-se, acontecimentos e chocolates, as histórias e os personagens. Adocemos a nossa vida de imagens, de música e de palavras a gosto.Às vezes fico nostálgico, mas passa-me depressa!

42 (forty two)

Estou claramente em pé. Sobre os meus dois pés aguento-me sem cair. Os pés enfiados nos sapatos, meias, calças, cuecas, camisa e lenço de assoar. Estou de pé com isto tudo no corpo. Relógio que dá horas devagar e a respiração profunda e longa de quem se prepara para saltar sobre um precipício. Dou um passo em frente e outro passo atrás. Preparo-me para saltar, mas não salto já. Fico onde estou, de pé, aguento-me sem cair, sobre os meus dois pés. Os pés enfiados nos sapatos, meias, calças, cuecas, camisa e lenço de assoar e, também, um chapéu de feltro no topo da cabeça com uma pena de passarão. E no fim de tudo o meu nariz que como uma bússola aponta para ali, na direcção certa, à espera de saltar. É agora. Vou saltar. Mas não salto porque tenho muita roupa no corpo e os pés enfiados nos sapatos, meias, calças, cuecas, camisa e lenço de assoar.
Acabei por não saltar. Afinal não era um precipício, mas sim uma pequena vala coisa sem importância. Resolvi deitar-me a ver passar por mim um …

41

41 anos entre vós! E quase nada. A não ser um par de caracóis num vaso de jardim e um apito no ouvido. Uns sapatos velhos, uma bola de futebol, um saco de ir às compras muito colorido, um vencimento de merda, um bolo que fiz para mim mesmo e que vou comer amanhã quando me cantarem a velha canção. Tenho dois grilos muito velhos que trouxe da infância feliz, uma casa de baratas, alguns livros bestiais onde volto sempre que posso. Uns filmes a preto e branco e refresco de hortelã pimenta para os ver enquanto bebo. O meu vicking preferido a desancar no jantar, a apagar incêndios infernais. Tenho uma livraria perto de mim com o melhor sofá do mundo. Às vezes, quando lá entro, sem querer imagino que as palavras que penso me saltam da boca sem proferir esforço de as dizer, e digo, e penso: porque razão tem cravos e outras flores o teu sorriso? Tenho um cansaço enorme que me impele outra vez à luta. Perco, quase sempre, porque se me desvia o olhar para outras coisas. Tenho o resto aqui na mã…