segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Forty (quarenta)



Há-de vir outro tempo em que me encontre mais colorido. Mas hoje não! Há-se de vir outro tempo parecido com este, (vou esperar pelo outro que virá semelhante). Mas hoje, ah! Não quero mexer-me mais. Caiu-me a noite repentina em cima e uma espécie de sonolência parece encontrar caminho através do meu corpo tomando conta de tudo. Não faço nada, disse sem bravura, aos retratos dos antepassados que me forram as paredes de casa logo depois de ter aberto a porta da entrada e de ter dado com a fotografia de um avô distante no tempo. Não faço mais nada hoje, disse-lhe, lamento. Logo dois deles saltaram das molduras onde repousavam há muito e do chão desataram a dizer impropérios que me eram dirigidos, coisas de quem só tem cabeça de retrato a preto e branco retocada a aguarela. Ignorei-os, mesmo quando me perseguiram pelo corredor enquanto tirava o chapéu e o casaco, e a pesada mochila do meu ofício. Parei num repente e coloquei o indicador direito no ar, com o cotovelo ligeiramente dobrado. Atenção, disse, enquanto eles pararam dentro da minha sombra atrás do meu passo, hoje não faço mais nada. E foi assim que me
transformei num confortável sofá, quando estalei os dedos e desapareci para um nível de existência diferente.

domingo, 25 de outubro de 2009

39, ou lá que é!


Aaaaah! As moscas! Outras vez as moscas! Estou farto de moscas. E foi por isso que nem cheguei a ligar a televisão e desatei a olhar para mim. Sem cabelos no crânio e com rugas na pele. Estás velho, pá! Sentei-me e chupei um caramelo da tosse. Deixei chover o resto do dia em solidão.

sábado, 24 de outubro de 2009

38 (trinta e oito)



Foi-se o dia. Fiquei no mesmo sítio a vê-lo cair. Foi-se o dia de hoje. Caiu para lá do mundo e quase que é outro dia (o dia de ontem). Vou ter saudades do dia de hoje, carregado de anões de jardim e homens vestidos de fraque que mondavam as ervas que crescem sem ordem nos canteiros. Vou ver se o vejo, ao dia de hoje, no outro lado da casa, nas janelas que dão para Norte. Talvez aí ainda seja hoje. Com um pouco de sorte ainda o apanho a fugir para este lado de ontem. Ah! Foi-se daqui.

37 coisas destas

Anthony and The Johnsons, Nessum Dorma Lavazza

36 (trinta e seis)


Hoje não me consigo decidir sobre o que fazer com o dia assim. Sento-me numa cadeira de deck como se estivesse em pleno Atlântico, como se fosse um incógnito passageiro. Sou surpreendido por uma esfera amarela que se sobrepôs entre os meus olhos e o resto do mundo impedindo-me de ver mais longe. Bom, penso, o resto é mar e longe de tudo nada mais há para ver que aquilo que vejo. Descanso o peso do corpo noutra posição sentado. É um bloqueio poético, parece-me. Mas não estou muito preocupado com categorizações em volta da esfera amarela, sendo uma coisa mística, pode ser o que eu quiser. Limito-me a considerá-la e é tudo. Uma esfera é uma esfera e esta é amarela. Como não tenho caminhos urgentes a seguir não me incomoda nada a mancha amarela. Vou deixa-la estar onde está. Parece que lhe vejo uns homenzinhos atarefados a fazer qualquer coisa que não consigo identificar. A esfera amarela emite uma luz estranhamente fria e é por isso que os homenzinhos lá estão. Mas não é por tudo isto que não consigo tomar decisões. Não pretendo querer nada hoje, é tudo. Vou ficar exactamente onde estou a ver se vejo correr a poesia. Fico-me pelos detalhes, se não se importam. Alcançar pouca coisa ou quase nada é o objectivo do dia.
Acho que me vou sentar a comer gelatina e ficar a olhar para o que há-de aparecer a seguir à esfera amarela.
Sou uma paisagem. É isso sou uma paisagem e movo-me lentamente entre o arvoredo da minha cabeça.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

35 (thirty five)



Alfabeto

Estava eu no frio da morte a aproximar-me, quando pela derradeira vez me pus a fitar os seres, profundamente.
Ante o contacto mortal deste olhar de gelo, tudo o que não era essencial desapareceu.
Entretanto eu ia-os perscrutando, querendo reter deles algo que nem o Morto pudesse largar. Eles adelgaçaram-se e acabaram por ficar reduzidos a uma espécie de alfabeto, mas capaz de servir no outro mundo, em qualquer mundo.
Aliviei-me assim do medo de me subtraírem o universo inteiro onde eu tinha vivido.
Fortalecido com tal pressa, contemplava-o invencido, e regressando o sangue e veias, lentamente voltei a subir a vertente aberta da existência.

In Antologia poética de Henry Michaux, "O retiro pelo risco", Edições Fenda - 1999. Tradução Júlio Henriques.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

34



A filatelia irrita-me. Pronto, já disse. E todos aqueles que têm ar de filatelistas, coleccionadores e, supostamente, aqueloutros que sem ar de nada andam como se andassem pelo andar dos que se lhes vale a pena respirar o passo. Detesto o espírito do rato-de-sacristia, alfaiates ainda vá, mas papa-óstias, nem vê-los. Prefiro passear descalço sobre brasas acesas. Ah, se tivesse tempo e valesse a pena, fazia-vos uma careta de língua de fórmica.

Diga 33 + 1 (thirty four)



Ah, sei lá. Deram-me um e eu nem tenho a certeza de ter comprado o outro que tenho lá dentro em cima de uma mesa esquecido. A sério, não sei ao certo a origem do segundo. Mas o primeiro estou seguro, foi-me dado. Acho que sei quem mo deu e onde. O sítio era cheio de luz e as pessoas circulavam pelas avenidas montadas em grandes escovas de dentes que venciam a gravidade. Deslizavam sem ruído e de maneira graciosa. Acho que na altura trabalhava como adido cultural na embaixada do meu país naquele país e terei descido num apeadeiro a caminho de casa, apeei-me de uma espécie de transporte público que tinha a forma de uma gigantesca escova de piaçaba articulada e com dois andares. E foi aí que uma senhora se acercou de mim e me ofereceu o primeiro enquanto esperávamos uma aberta na chuva copiosa. Ficámos amantes, nessa noite, eu e ela, quando chegamos ao meu apartamento e atirámos a nossa roupa molhada ao chão. E durou a eternidade de dois longos e chuvosos Invernos. Mas o objecto que me foi dado ficou sempre ali onde está. O segundo apareceu cá em casa, agora sim lembro-me disso, claramente, entrou pela janela e foi sentar-se numa mesa que tenho noutro compartimento para que me esquecesse do tempo.

domingo, 18 de outubro de 2009

Thirty three (33)

Etc., etc., Retrato de um cão feliz.

A convite da organização da 7ª Edição do Prémio Amadeo de Sousa-Cardozo daqui enviei o meu cão mais feliz e como gosto de saber que tempo vai fazer no dia seguinte consultei com afinco todos os detalhes de previsão meteorológica que consegui encontrar. Qualquer fonte serviu, diga-se, em abono da verdade. Não tanto por causa da minha pessoa que por ser frágil à chuva faz com que não possa sair nesses dias dado que sou feito de papel de arroz, (em pequeno comia à fartazana bolos de arroz e fiquei assim alterado na qualidade do papel, rasgo-me, pois, com facilidade); mas, sobretudo, por causa do cão. A felicidade só por si encaracola-lhe o pêlo todo e se apanha água logo muda de cor e uiva de forma irritante e descontrolada. Não o posso levar a lado nenhum onde se preveja mau tempo de chuva. Por vezes alça a perna e lá mostra o que tem, como daquela vez que o apanhei a fazer a corte a um par de romãs de jardim tal e qual está estampado na imagem acima que dele fiz e é tão exacta quanto possível.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Trinta e dois (32)




Em Outubro fico sempre mais velho, invariavelmente. Acontece todos os anos em Outubro, queixo-me disso à brava, mas depois passa, levemente. Por aqui nada de novo, (suspiro longo e suave a fingir que fumo, suspiro longo). Estou como que a acordar para este Outubro de ficar outra vez e, oficialmente, mais velho como quem madruga antes do despertar da bela aurora do mesmo lado em que supostamente se adormeceu sob as estrelas. Quantas estrelas no céu de Outubro haverá? Não sei. Mas sei que ainda é Verão pelo tempo quente que faz. Amanhã choverá. É tudo igual ao dia de ontem, e eu aqui a olhar a mesma coisa que já vi.
Está tudo como ontem, o fumo que sai da chaminé do vizinho que mora no rés-do-chão e, sem tirar nem pôr, o comportamento obstinado da vizinha louca que costura à porta de casa um tecido vermelho como se fosse uma rainha distraída, a mulher da frente que algazarra ao ar a questão política em que se envolveu acesa na discussão que teve com o homem do café do lado. Há carros por aqui como já os havia. Carros que passam de muitas cores a voar pelo tecto do mundo. De resto, a vida passa e eu que a vejo fugir dou por ela mais à frente no que já vivi. Iguais são a pé ou de bicicletas os sorrisos dos desconhecidos embaraçados quando apanhados com as calças nas mãos e as andorinhas que se já foram embora e que deixaram o seu espaço aéreo por inteiro à disposição dos morcegos ceguinhos. É tudo semelhante ao que sempre foi. Não há muito de interessante para ver por aqui. E o Sol por mais que se queira não brilha com a mesma força para todos como diz a canção vermelha. É por certo a explicação da não existência de Deus. Quando o mundo morrer Ele também morrerá, enfim, uma tragédia, uma tragédia à escala universal. Ah, apetece dizer, cheio de melancolia, que grande merda é a felicidade!