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Mensagens

36 (trinta e seis)

Hoje não me consigo decidir sobre o que fazer com o dia assim. Sento-me numa cadeira de deck como se estivesse em pleno Atlântico, como se fosse um incógnito passageiro. Sou surpreendido por uma esfera amarela que se sobrepôs entre os meus olhos e o resto do mundo impedindo-me de ver mais longe. Bom, penso, o resto é mar e longe de tudo nada mais há para ver que aquilo que vejo. Descanso o peso do corpo noutra posição sentado. É um bloqueio poético, parece-me. Mas não estou muito preocupado com categorizações em volta da esfera amarela, sendo uma coisa mística, pode ser o que eu quiser. Limito-me a considerá-la e é tudo. Uma esfera é uma esfera e esta é amarela. Como não tenho caminhos urgentes a seguir não me incomoda nada a mancha amarela. Vou deixa-la estar onde está. Parece que lhe vejo uns homenzinhos atarefados a fazer qualquer coisa que não consigo identificar. A esfera amarela emite uma luz estranhamente fria e é por isso que os homenzinhos lá estão. Mas não é por tudo isto q…

35 (thirty five)

Alfabeto

Estava eu no frio da morte a aproximar-me, quando pela derradeira vez me pus a fitar os seres, profundamente.
Ante o contacto mortal deste olhar de gelo, tudo o que não era essencial desapareceu.
Entretanto eu ia-os perscrutando, querendo reter deles algo que nem o Morto pudesse largar.Eles adelgaçaram-se e acabaram por ficar reduzidos a uma espécie de alfabeto, mas capaz de servir no outro mundo, em qualquer mundo.
Aliviei-me assim do medo de me subtraírem o universo inteiro onde eu tinha vivido.
Fortalecido com tal pressa, contemplava-o invencido, e regressando o sangue e veias, lentamente voltei a subir a vertente aberta da existência.

In Antologia poética de Henry Michaux, "O retiro pelo risco", Edições Fenda - 1999. Tradução Júlio Henriques.

34

A filatelia irrita-me. Pronto, já disse. E todos aqueles que têm ar de filatelistas, coleccionadores e, supostamente, aqueloutros que sem ar de nada andam como se andassem pelo andar dos que se lhes vale a pena respirar o passo. Detesto o espírito do rato-de-sacristia, alfaiates ainda vá, mas papa-óstias, nem vê-los. Prefiro passear descalço sobre brasas acesas. Ah, se tivesse tempo e valesse a pena, fazia-vos uma careta de língua de fórmica.

Diga 33 + 1 (thirty four)

Ah, sei lá. Deram-me um e eu nem tenho a certeza de ter comprado o outro que tenho lá dentro em cima de uma mesa esquecido. A sério, não sei ao certo a origem do segundo. Mas o primeiro estou seguro, foi-me dado. Acho que sei quem mo deu e onde. O sítio era cheio de luz e as pessoas circulavam pelas avenidas montadas em grandes escovas de dentes que venciam a gravidade. Deslizavam sem ruído e de maneira graciosa. Acho que na altura trabalhava como adido cultural na embaixada do meu país naquele país e terei descido num apeadeiro a caminho de casa, apeei-me de uma espécie de transporte público que tinha a forma de uma gigantesca escova de piaçaba articulada e com dois andares. E foi aí que uma senhora se acercou de mim e me ofereceu o primeiro enquanto esperávamos uma aberta na chuva copiosa. Ficámos amantes, nessa noite, eu e ela, quando chegamos ao meu apartamento e atirámos a nossa roupa molhada ao chão. E durou a eternidade de dois longos e chuvosos Invernos. Mas o objecto que me …

Thirty three (33)

Etc., etc., Retrato de um cão feliz.

A convite da organização da 7ª Edição do Prémio Amadeo de Sousa-Cardozo daqui enviei o meu cão mais feliz e como gosto de saber que tempo vai fazer no dia seguinte consultei com afinco todos os detalhes de previsão meteorológica que consegui encontrar. Qualquer fonte serviu, diga-se, em abono da verdade. Não tanto por causa da minha pessoa que por ser frágil à chuva faz com que não possa sair nesses dias dado que sou feito de papel de arroz, (em pequeno comia à fartazana bolos de arroz e fiquei assim alterado na qualidade do papel, rasgo-me, pois, com facilidade); mas, sobretudo, por causa do cão. A felicidade só por si encaracola-lhe o pêlo todo e se apanha água logo muda de cor e uiva de forma irritante e descontrolada. Não o posso levar a lado nenhum onde se preveja mau tempo de chuva. Por vezes alça a perna e lá mostra o que tem, como daquela vez que o apanhei a fazer a corte a um par de romãs de jardim tal e qual está estampado na imagem acima…

Trinta e dois (32)

Em Outubro fico sempre mais velho, invariavelmente. Acontece todos os anos em Outubro, queixo-me disso à brava, mas depois passa, levemente. Por aqui nada de novo, (suspiro longo e suave a fingir que fumo, suspiro longo). Estou como que a acordar para este Outubro de ficar outra vez e, oficialmente, mais velho como quem madruga antes do despertar da bela aurora do mesmo lado em que supostamente se adormeceu sob as estrelas. Quantas estrelas no céu de Outubro haverá? Não sei. Mas sei que ainda é Verão pelo tempo quente que faz. Amanhã choverá. É tudo igual ao dia de ontem, e eu aqui a olhar a mesma coisa que já vi.
Está tudo como ontem, o fumo que sai da chaminé do vizinho que mora no rés-do-chão e, sem tirar nem pôr, o comportamento obstinado da vizinha louca que costura à porta de casa um tecido vermelho como se fosse uma rainha distraída, a mulher da frente que algazarra ao ar a questão política em que se envolveu acesa na discussão que teve com o homem do café do lado. Há carro…

30 e um (trinta e um)

Quero ser livre, quero viver a minha vida, disse-me um dia o meu dedo mínimo olhando-me muito sério. Então vive, sê livre, disse-lhe, enquanto conduzia as minhas pernas ao topo de um monte. E foi assim que perdi o meu dedo mínimo. Fez-se à vida nessa mesma tarde. Não me preocupei com o facto, dado que já havia perdido alguns dentes da boca para fora, por causa de discussões sem sentido. Mas um dedo era um dedo ainda que fosse mínimo. Nada lhe disse, contando que voltaria depois da primeira curva na estrada. Também um homem muito alto que vivia na esperança de ser um gigante um dia caiu e nunca mais se levantou. O meu dedo vive em Nova York e é corretor da bolsa. Paciência.