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Mensagens

Trinta e dois (32)

Em Outubro fico sempre mais velho, invariavelmente. Acontece todos os anos em Outubro, queixo-me disso à brava, mas depois passa, levemente. Por aqui nada de novo, (suspiro longo e suave a fingir que fumo, suspiro longo). Estou como que a acordar para este Outubro de ficar outra vez e, oficialmente, mais velho como quem madruga antes do despertar da bela aurora do mesmo lado em que supostamente se adormeceu sob as estrelas. Quantas estrelas no céu de Outubro haverá? Não sei. Mas sei que ainda é Verão pelo tempo quente que faz. Amanhã choverá. É tudo igual ao dia de ontem, e eu aqui a olhar a mesma coisa que já vi.
Está tudo como ontem, o fumo que sai da chaminé do vizinho que mora no rés-do-chão e, sem tirar nem pôr, o comportamento obstinado da vizinha louca que costura à porta de casa um tecido vermelho como se fosse uma rainha distraída, a mulher da frente que algazarra ao ar a questão política em que se envolveu acesa na discussão que teve com o homem do café do lado. Há carro…

30 e um (trinta e um)

Quero ser livre, quero viver a minha vida, disse-me um dia o meu dedo mínimo olhando-me muito sério. Então vive, sê livre, disse-lhe, enquanto conduzia as minhas pernas ao topo de um monte. E foi assim que perdi o meu dedo mínimo. Fez-se à vida nessa mesma tarde. Não me preocupei com o facto, dado que já havia perdido alguns dentes da boca para fora, por causa de discussões sem sentido. Mas um dedo era um dedo ainda que fosse mínimo. Nada lhe disse, contando que voltaria depois da primeira curva na estrada. Também um homem muito alto que vivia na esperança de ser um gigante um dia caiu e nunca mais se levantou. O meu dedo vive em Nova York e é corretor da bolsa. Paciência.

30 (trinta)

Sinto-me um cão vadio. Fiquei assim logo a seguir ao almoço. Foi, certamente, da melancia que comi.

Vinte e nove (29)

Foi por causa do nevoeiro que regressei a casa. Até já estava sentado lá em baixo à espera que chegasse o meu transporte para me levar para Lisboa, mas como o nevoeiro era denso voltei para casa. Não que não goste do nevoeiro, até gosto. Mas pensei que o motorista se tivesse perdido nas estradas. Foi por isso que voltei para casa. amanhã volto a esperar por ele, logo se vê!

vinte e oito (twenty eight)

Eu durmo numa cama qualquer desde que tire as botas que uso durante o dia. Tiro e calço as botas onde quer que durma porque durmo em qualquer sítio. Tiro-as à noite não só por uma questão de conforto, mas para que não me fiquem agarradas aos pés e, logo que posso, calço-as pela manhã. À noite descalço-as e limpo a lama que vem agarrada à borracha da sola de andar pelos sítios por onde ando. A sola de borracha atrai a sujidade toda, é o que penso pelo menos quando a olho depois de descalçar as botas. Limpo as botas de ponta à bota e coloco-as aos pés da cama com um ar quase novo. Pela manhã enfio-as nos pés e sigo-as porque os passos são das botas e não dos pés. Fico sempre com a sensação de que tenho um belo par de botas. De resto durmo em qualquer sítio desde que as descalce, não vá ficarem agarradas aos pés.

Vinte e sete (27)

Não tenho estado por aqui. Para falar verdade tenho estado em lado nenhum, mas posso dizer que ontem vi o mar a bater verde maravilhado em cheio e quente numa praia de porto. Mergulhei e vi um forte com sabor diferente que têm os fortes do meu país. Acordei aváro do outro lado da espuma. Ontem vi o sal nos meus braços que se formava enquanto a água se evaporava. Comi peixe frito e vou regressar em breve. Vi torres de olhar para o horizonte distante como se a terra não nos pertencesse. Não estou em férias, estava farto de aí estar.

26 (twenty six)

XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
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Górgias nasceu nas águas do lago e é filho do ar seminal que se respira no jardim dos Lázaros, da terra vermelha de Luneta e dos outros elementos. Como a Lua é a sua mãe, ele pertence ao meio sol do zodíaco que se situa na casa que simboliza a água que é o lugar destinado às metamorfoses do corpo e da alma. É a noite e o dia. A vida e a morte. É como Tirésias, mas sem nunca ter vestido uma pele de cobra. Não sendo nem homem, nem mulher, é um ser que se modifica de acordo com as horas dos dias, com os humores da natureza. Quando Górgias nasceu as doze mulheres e a Madressilva que por ali andavam levaram-no num embrulho de fetos até ao sítio onde habitavam. Chegadas à "Pensão Vigo no Porto", ninho de amor da cidade de Luneta, onde o desejo morria a crédito, lavaram-no e deitaram-no para que dormisse. E assim ficou durante dez dias repousando.