segunda-feira, 28 de setembro de 2009

30 e um (trinta e um)



Quero ser livre, quero viver a minha vida, disse-me um dia o meu dedo mínimo olhando-me muito sério. Então vive, sê livre, disse-lhe, enquanto conduzia as minhas pernas ao topo de um monte. E foi assim que perdi o meu dedo mínimo. Fez-se à vida nessa mesma tarde. Não me preocupei com o facto, dado que já havia perdido alguns dentes da boca para fora, por causa de discussões sem sentido. Mas um dedo era um dedo ainda que fosse mínimo. Nada lhe disse, contando que voltaria depois da primeira curva na estrada. Também um homem muito alto que vivia na esperança de ser um gigante um dia caiu e nunca mais se levantou. O meu dedo vive em Nova York e é corretor da bolsa. Paciência.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Vinte e nove (29)


Foi por causa do nevoeiro que regressei a casa. Até já estava sentado lá em baixo à espera que chegasse o meu transporte para me levar para Lisboa, mas como o nevoeiro era denso voltei para casa. Não que não goste do nevoeiro, até gosto. Mas pensei que o motorista se tivesse perdido nas estradas. Foi por isso que voltei para casa. amanhã volto a esperar por ele, logo se vê!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

vinte e oito (twenty eight)


Eu durmo numa cama qualquer desde que tire as botas que uso durante o dia. Tiro e calço as botas onde quer que durma porque durmo em qualquer sítio. Tiro-as à noite não só por uma questão de conforto, mas para que não me fiquem agarradas aos pés e, logo que posso, calço-as pela manhã. À noite descalço-as e limpo a lama que vem agarrada à borracha da sola de andar pelos sítios por onde ando. A sola de borracha atrai a sujidade toda, é o que penso pelo menos quando a olho depois de descalçar as botas. Limpo as botas de ponta à bota e coloco-as aos pés da cama com um ar quase novo. Pela manhã enfio-as nos pés e sigo-as porque os passos são das botas e não dos pés. Fico sempre com a sensação de que tenho um belo par de botas. De resto durmo em qualquer sítio desde que as descalce, não vá ficarem agarradas aos pés.

sábado, 1 de agosto de 2009

Vinte e sete (27)



Não tenho estado por aqui. Para falar verdade tenho estado em lado nenhum, mas posso dizer que ontem vi o mar a bater verde maravilhado em cheio e quente numa praia de porto. Mergulhei e vi um forte com sabor diferente que têm os fortes do meu país. Acordei aváro do outro lado da espuma. Ontem vi o sal nos meus braços que se formava enquanto a água se evaporava. Comi peixe frito e vou regressar em breve. Vi torres de olhar para o horizonte distante como se a terra não nos pertencesse. Não estou em férias, estava farto de aí estar.

sábado, 27 de junho de 2009

26 (twenty six)


XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
4

Górgias nasceu nas águas do lago e é filho do ar seminal que se respira no jardim dos Lázaros, da terra vermelha de Luneta e dos outros elementos. Como a Lua é a sua mãe, ele pertence ao meio sol do zodíaco que se situa na casa que simboliza a água que é o lugar destinado às metamorfoses do corpo e da alma. É a noite e o dia. A vida e a morte. É como Tirésias, mas sem nunca ter vestido uma pele de cobra. Não sendo nem homem, nem mulher, é um ser que se modifica de acordo com as horas dos dias, com os humores da natureza. Quando Górgias nasceu as doze mulheres e a Madressilva que por ali andavam levaram-no num embrulho de fetos até ao sítio onde habitavam. Chegadas à "Pensão Vigo no Porto", ninho de amor da cidade de Luneta, onde o desejo morria a crédito, lavaram-no e deitaram-no para que dormisse. E assim ficou durante dez dias repousando.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Vinte e cinco (25)


XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
3

Quando Górgias se elevou do centro do lago viu as doze mulheres e a Madressilva em primeiro lugar, depois a cidade inteira de Luneta que envolvia o Jardim dos Lázaros e que se estendia numa direcção qualquer. Sentiu os dois rios subterrâneos que correm pela garganta da Terra para lá das casas dos homens e que se juntam quase à superfície para formar o pequeno lago onde nasceu Górgias. Cavado na densa floresta a que os habitantes de Luneta chamavam o Jardim dos Lázaros laboravam os operários fiadores trabalhando no alto das árvores com as suas lagartas de fiar presas entre os dedos. Os homens das Ordens Nocturnas encarregados dos contactos com o plano celestial, Hipófenes e os Deuses Menores, os três loucos que guardavam o jardim, etc. etc..
(Continua)

domingo, 14 de junho de 2009

24 (twenty four)


XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
2


Destas ávores muito altas que existiam no Jardim dos Lázaros, na cidade de Luneta, penduravam-se as lagartas de fiar que cerziam fios de seda que os operários fiadores controlavam com rigoroso zelo. Górgias olhando para cima contemplou-os e viu brilhar a seda sob as copas das aurocárias. Depois viu as ordens nocturnas que eram compostas por homens que usavam chapéu alto e que vestiam fraque azul escuro, e que estavam encarregues de fazer cumprir as directrizes provenientes do plano celestial, eram sérios de feições como que feitos de ceras. Górgias viu Hipófenes e os Deuses Menores através de um buraco que existia no céu, viu os três loucos sentados à porta do jardim, um velho que brigava com um insecto gigante parecido com um gafanhoto, o café "Le Chien qui Fume". Saiu do lago limpando com gestos lentos as marcas do seu nascimento. O seu corpo secou quase de imediato, sendo possível observar as escamas que o cobriam e as cores que cintalavam à luz do dia. A sua capacidade de ver alargou-se até a uma praça central e pode registar tudo o resto a partir desse ponto de vista. Sentiu-se bem, respirou fundo e baixou a cabeça enquanto limpava do seu corpo nu as algas do lago de onde nascera. Pairando no ar dirigiu-se ao limite norte do jardim e previu o momento exacto do fim dos tempos. Deteve-se dentro de si observando o percurso da sua vida. Teve, assim, acesso ao conhecimento de todos os elementos que produzem a vida e a morte. (continua)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Vinte e três (23)



XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
1
Quando Górgias se elevou do centro das águas do lago trazia o corpo nu coberto de algas. Viu as doze mulheres e a Madressilva, a cidade de Luneta e o mundo inteiro através das árvores do jardim. A cidade de Luneta pertencia ao ciclo lunar e, por isso, todos os quartos da Lua eram saudados com festejos nocturnos que incluíam o fogo e a música, ao som da qual dançavam jovens virgens. Havia um rio que se formava numa pequena depressão geológica que corria manso e doce até morrer numa gruta onde também funcionava o oráculo dos Sais da Terra. Górgias, sentindo a caverna, soube que parte dos mistérios do seu destino eram dali originários. A natureza de Luneta que se renovava todos os seis meses bebia naquele sítio a sua energia e o seu esplendor místico aspergindo contra o ar as sementes de cada novo momento. Era certo que a vida se renovava constantemente em Luneta e, por isso, Górgias fechou os olhou e abriu os braços para receber o ar seminal da sua cidade e ao fazê-lo viu ao longe os mineiros e os operários fiadores que trabalhavam ora nas entranhas da terra, ora no alto das árvores.
(continua)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

22 (twenty two)


XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA

OU

GÓRGIAS O MORTO.

Os nocturnos habitantes da cidade de Luneta são: Górgias (o morto), os três loucos (como um só), os mineiros, as mulheres dos mineiros, a Madressilva e as doze mulheres da pensão "Vigo no Porto", o carteiro, o fumo espesso do café "Le chien qui fume", a Barca dos Mortos, o seu comandante e os imediatos, Hípias Menor, Heródias Paixão, o oleiro, e os representantes das Ordens Nocturnas da Cidade de Luneta (RONCL).

Os habitantes diurnos são: os três homens do café "Le chien qui fume" e um cão vermelho, uma mulher muito velha com um saco de ossos às costas, o patrão, a mulher do patrão, os empregados do café, o filho mais novo do patrão, um viajante, uma estação de combóios e os seus pássaros, um grupo de ecologistas, uma mulher com pele de tigre pertencente a esse grupo. A rosa, a mãe da Rosa.

(continua)