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Mensagens

30 (trinta)

Sinto-me um cão vadio. Fiquei assim logo a seguir ao almoço. Foi, certamente, da melancia que comi.

Vinte e nove (29)

Foi por causa do nevoeiro que regressei a casa. Até já estava sentado lá em baixo à espera que chegasse o meu transporte para me levar para Lisboa, mas como o nevoeiro era denso voltei para casa. Não que não goste do nevoeiro, até gosto. Mas pensei que o motorista se tivesse perdido nas estradas. Foi por isso que voltei para casa. amanhã volto a esperar por ele, logo se vê!

vinte e oito (twenty eight)

Eu durmo numa cama qualquer desde que tire as botas que uso durante o dia. Tiro e calço as botas onde quer que durma porque durmo em qualquer sítio. Tiro-as à noite não só por uma questão de conforto, mas para que não me fiquem agarradas aos pés e, logo que posso, calço-as pela manhã. À noite descalço-as e limpo a lama que vem agarrada à borracha da sola de andar pelos sítios por onde ando. A sola de borracha atrai a sujidade toda, é o que penso pelo menos quando a olho depois de descalçar as botas. Limpo as botas de ponta à bota e coloco-as aos pés da cama com um ar quase novo. Pela manhã enfio-as nos pés e sigo-as porque os passos são das botas e não dos pés. Fico sempre com a sensação de que tenho um belo par de botas. De resto durmo em qualquer sítio desde que as descalce, não vá ficarem agarradas aos pés.

Vinte e sete (27)

Não tenho estado por aqui. Para falar verdade tenho estado em lado nenhum, mas posso dizer que ontem vi o mar a bater verde maravilhado em cheio e quente numa praia de porto. Mergulhei e vi um forte com sabor diferente que têm os fortes do meu país. Acordei aváro do outro lado da espuma. Ontem vi o sal nos meus braços que se formava enquanto a água se evaporava. Comi peixe frito e vou regressar em breve. Vi torres de olhar para o horizonte distante como se a terra não nos pertencesse. Não estou em férias, estava farto de aí estar.

26 (twenty six)

XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
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Górgias nasceu nas águas do lago e é filho do ar seminal que se respira no jardim dos Lázaros, da terra vermelha de Luneta e dos outros elementos. Como a Lua é a sua mãe, ele pertence ao meio sol do zodíaco que se situa na casa que simboliza a água que é o lugar destinado às metamorfoses do corpo e da alma. É a noite e o dia. A vida e a morte. É como Tirésias, mas sem nunca ter vestido uma pele de cobra. Não sendo nem homem, nem mulher, é um ser que se modifica de acordo com as horas dos dias, com os humores da natureza. Quando Górgias nasceu as doze mulheres e a Madressilva que por ali andavam levaram-no num embrulho de fetos até ao sítio onde habitavam. Chegadas à "Pensão Vigo no Porto", ninho de amor da cidade de Luneta, onde o desejo morria a crédito, lavaram-no e deitaram-no para que dormisse. E assim ficou durante dez dias repousando.

Vinte e cinco (25)

XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
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Quando Górgias se elevou do centro do lago viu as doze mulheres e a Madressilva em primeiro lugar, depois a cidade inteira de Luneta que envolvia o Jardim dos Lázaros e que se estendia numa direcção qualquer. Sentiu os dois rios subterrâneos que correm pela garganta da Terra para lá das casas dos homens e que se juntam quase à superfície para formar o pequeno lago onde nasceu Górgias. Cavado na densa floresta a que os habitantes de Luneta chamavam o Jardim dos Lázaros laboravam os operários fiadores trabalhando no alto das árvores com as suas lagartas de fiar presas entre os dedos. Os homens das Ordens Nocturnas encarregados dos contactos com o plano celestial, Hipófenes e os Deuses Menores, os três loucos que guardavam o jardim, etc. etc..
(Continua)

24 (twenty four)

XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
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Destas ávores muito altas que existiam no Jardim dos Lázaros, na cidade de Luneta, penduravam-se as lagartas de fiar que cerziam fios de seda que os operários fiadores controlavam com rigoroso zelo. Górgias olhando para cima contemplou-os e viu brilhar a seda sob as copas das aurocárias. Depois viu as ordens nocturnas que eram compostas por homens que usavam chapéu alto e que vestiam fraque azul escuro, e que estavam encarregues de fazer cumprir as directrizes provenientes do plano celestial, eram sérios de feições como que feitos de ceras. Górgias viu Hipófenes e os Deuses Menores através de um buraco que existia no céu, viu os três loucos sentados à porta do jardim, um velho que brigava com um insecto gigante parecido com um gafanhoto, o café "Le Chien qui Fume". Saiu do lago limpando com gestos lentos as marcas do seu nascimento. O seu corpo secou quase de imediato, sendo possível observar as escamas que o cobriam…