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Vinte e cinco (25)

XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
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Quando Górgias se elevou do centro do lago viu as doze mulheres e a Madressilva em primeiro lugar, depois a cidade inteira de Luneta que envolvia o Jardim dos Lázaros e que se estendia numa direcção qualquer. Sentiu os dois rios subterrâneos que correm pela garganta da Terra para lá das casas dos homens e que se juntam quase à superfície para formar o pequeno lago onde nasceu Górgias. Cavado na densa floresta a que os habitantes de Luneta chamavam o Jardim dos Lázaros laboravam os operários fiadores trabalhando no alto das árvores com as suas lagartas de fiar presas entre os dedos. Os homens das Ordens Nocturnas encarregados dos contactos com o plano celestial, Hipófenes e os Deuses Menores, os três loucos que guardavam o jardim, etc. etc..
(Continua)

24 (twenty four)

XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO.
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Destas ávores muito altas que existiam no Jardim dos Lázaros, na cidade de Luneta, penduravam-se as lagartas de fiar que cerziam fios de seda que os operários fiadores controlavam com rigoroso zelo. Górgias olhando para cima contemplou-os e viu brilhar a seda sob as copas das aurocárias. Depois viu as ordens nocturnas que eram compostas por homens que usavam chapéu alto e que vestiam fraque azul escuro, e que estavam encarregues de fazer cumprir as directrizes provenientes do plano celestial, eram sérios de feições como que feitos de ceras. Górgias viu Hipófenes e os Deuses Menores através de um buraco que existia no céu, viu os três loucos sentados à porta do jardim, um velho que brigava com um insecto gigante parecido com um gafanhoto, o café "Le Chien qui Fume". Saiu do lago limpando com gestos lentos as marcas do seu nascimento. O seu corpo secou quase de imediato, sendo possível observar as escamas que o cobriam…

Vinte e três (23)

XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA, OU GÓRGIAS O MORTO. 1 Quando Górgias se elevou do centro das águas do lago trazia o corpo nu coberto de algas. Viu as doze mulheres e a Madressilva, a cidade de Luneta e o mundo inteiro através das árvores do jardim. A cidade de Luneta pertencia ao ciclo lunar e, por isso, todos os quartos da Lua eram saudados com festejos nocturnos que incluíam o fogo e a música, ao som da qual dançavam jovens virgens. Havia um rio que se formava numa pequena depressão geológica que corria manso e doce até morrer numa gruta onde também funcionava o oráculo dos Sais da Terra. Górgias, sentindo a caverna, soube que parte dos mistérios do seu destino eram dali originários. A natureza de Luneta que se renovava todos os seis meses bebia naquele sítio a sua energia e o seu esplendor místico aspergindo contra o ar as sementes de cada novo momento. Era certo que a vida se renovava constantemente em Luneta e, por isso, Górgias fechou os olhou e abriu os braços para receber…

22 (twenty two)

XAGRAIM, HISTÓRIA DA CIDADE DE LUNETA

OU

GÓRGIAS O MORTO.

Os nocturnos habitantes da cidade de Luneta são: Górgias (o morto), os três loucos (como um só), os mineiros, as mulheres dos mineiros, a Madressilva e as doze mulheres da pensão "Vigo no Porto", o carteiro, o fumo espesso do café "Le chien qui fume", a Barca dos Mortos, o seu comandante e os imediatos, Hípias Menor, Heródias Paixão, o oleiro, e os representantes das Ordens Nocturnas da Cidade de Luneta (RONCL).

Os habitantes diurnos são: os três homens do café "Le chien qui fume" e um cão vermelho, uma mulher muito velha com um saco de ossos às costas, o patrão, a mulher do patrão, os empregados do café, o filho mais novo do patrão, um viajante, uma estação de combóios e os seus pássaros, um grupo de ecologistas, uma mulher com pele de tigre pertencente a esse grupo. A rosa, a mãe da Rosa.

(continua)

Vinte e um (Twenty one)

Olhem, tive uns sapatos que se estragaram. Um cão que morreu na casa de outro homem a olhar para mim. Um pássaro que deixou de cantar assim de repente. Uma coisa de trazer na mão que não me lembro para que servia e que por isso a guardei em lugar fresco e seco e que não sei exactamente onde. Tive uma mão direita e outra esquerda. Ainda as tenho. Tive menos idade e já fui menos chato. Uso as mesmas calças de sempre para evitar confusões entre as outras que não visto. Às vezes olho pela janela e pergunto-me o que estou aqui a fazer. Nesses dias faço um desenho e acho que sou, talvez, uma pessoa inteira. Vivo na esperança de poder comprar um novo par de sapatos, mas não gosto de sapatarias por não haver pastéis de nata, nem café. Ah, o sono chega-me quando menos me dou por sonolento.Não sei o que faça. Apetecia-me um rebuçadinho da Régua.

vinte (twenty)

Já cá não estarás quando eu me voltar a sentar nos montes de Urano para ver passar os cometas. Espero que partas bem, assim como quero que saibas que estaremos aqui prontos para te voltar a receber na nossa memória, como gostamos de receber todos os outros que nos visitam na memória. E é por isso que sei que sabes que também caminhamos para o infinito. O meu maior receio está vencido, pois também eu dei profundidade ao teu infinito. Já cá não estarás um dia que será um dia breve. Estarás lá onde o infinito tem relação com tudo o que desconheço. Talvez seja um absoluto muito parecido com o negrume do céu de Urano onde me sento para ver passar as estrelas esvoaçantes. Um dia estaremos todos juntos no quintal da tua casa e será um fim de dia de Verão. Talvez nos encontremos na memória de outros que como nós vieram do infinito para se misturarem no pó dos dias. Ah, é verdade, se quando chegares encontrares a minha mãe por lá, diz-lhe que o pequeno marinheiro tem um ar do seu sorriso. Até …

19

Estou um cão vadio. Sinto-me assim desde o dia de ontem. Subitamente, fiquei com aquela sensação de cão sem trela, sem dono. Cão como aqueles que não faz graças nem dá a pata a ninguém. Foi depois do almoço, acho que foi aquela generosa talhada de melancia com que finalizei a refeição. Sim, foi a partir da melancia que tudo se precipitou. A situação, contudo, é agradável. Estou repleto, estou alegre e coço-me com prazer em qualquer lugar. Podia até caminhar no sentido da leveza do ar. É, sinto-me cheio, quase repleto de coisas boas. Sou uma espécie de cão de rua, desses que se sentam em qualquer sítio e que farejam quase tudo. Acho que vou encontrar o Kerouak por aí.Querem que lhe digam alguma coisa da vossa parte?