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Mensagens

Vinte e um (Twenty one)

Olhem, tive uns sapatos que se estragaram. Um cão que morreu na casa de outro homem a olhar para mim. Um pássaro que deixou de cantar assim de repente. Uma coisa de trazer na mão que não me lembro para que servia e que por isso a guardei em lugar fresco e seco e que não sei exactamente onde. Tive uma mão direita e outra esquerda. Ainda as tenho. Tive menos idade e já fui menos chato. Uso as mesmas calças de sempre para evitar confusões entre as outras que não visto. Às vezes olho pela janela e pergunto-me o que estou aqui a fazer. Nesses dias faço um desenho e acho que sou, talvez, uma pessoa inteira. Vivo na esperança de poder comprar um novo par de sapatos, mas não gosto de sapatarias por não haver pastéis de nata, nem café. Ah, o sono chega-me quando menos me dou por sonolento.Não sei o que faça. Apetecia-me um rebuçadinho da Régua.

vinte (twenty)

Já cá não estarás quando eu me voltar a sentar nos montes de Urano para ver passar os cometas. Espero que partas bem, assim como quero que saibas que estaremos aqui prontos para te voltar a receber na nossa memória, como gostamos de receber todos os outros que nos visitam na memória. E é por isso que sei que sabes que também caminhamos para o infinito. O meu maior receio está vencido, pois também eu dei profundidade ao teu infinito. Já cá não estarás um dia que será um dia breve. Estarás lá onde o infinito tem relação com tudo o que desconheço. Talvez seja um absoluto muito parecido com o negrume do céu de Urano onde me sento para ver passar as estrelas esvoaçantes. Um dia estaremos todos juntos no quintal da tua casa e será um fim de dia de Verão. Talvez nos encontremos na memória de outros que como nós vieram do infinito para se misturarem no pó dos dias. Ah, é verdade, se quando chegares encontrares a minha mãe por lá, diz-lhe que o pequeno marinheiro tem um ar do seu sorriso. Até …

19

Estou um cão vadio. Sinto-me assim desde o dia de ontem. Subitamente, fiquei com aquela sensação de cão sem trela, sem dono. Cão como aqueles que não faz graças nem dá a pata a ninguém. Foi depois do almoço, acho que foi aquela generosa talhada de melancia com que finalizei a refeição. Sim, foi a partir da melancia que tudo se precipitou. A situação, contudo, é agradável. Estou repleto, estou alegre e coço-me com prazer em qualquer lugar. Podia até caminhar no sentido da leveza do ar. É, sinto-me cheio, quase repleto de coisas boas. Sou uma espécie de cão de rua, desses que se sentam em qualquer sítio e que farejam quase tudo. Acho que vou encontrar o Kerouak por aí.Querem que lhe digam alguma coisa da vossa parte?

Eighteen (18)

VERMELHOS DE MARÇO, 2009
(Coleccionar II)

Um deles apresta-se a saltar para o colo do público. Sem aviso, sem alarme, salta. Amanhã há mais. As senhoras riem ao vê-lo passar, treme-se-lhes, guloso, o frémito. Upa, upa, vais saltar outra vez. Espero é que não chova. A chuva dá cabo das cerimónias importantes!


Seventeen (17)

VERMELHOS DE MARÇO É O QUE EU LÁ VOU MOSTRAR, VERMELHOS DE MARÇO.

(Lisboa é a mais bela cidade do mundo. Conheço-a há muito tempo. Quase que sou daqui).

Sixteen (16)

Eu não disse nada, sabem? Eu cá não disse, absolutamente, nada. Mas estou um bocado cansado dos pregos, dos parafusos, das agulhetas, das escadas em caracol, das poses dos outros na televisão, dos discursos de papel, dos democratas de aviário, das pequenas estações do ano em que não chove, das gomas doces, dos meus sapatos que são os mesmo há bastante tempo. Mas eu não disse nada. Nadinha. A culpa é dos outros!

Fifteen (quinze, 15)

(Pavilhão Blá-Blé. Vista da Aurora da Liberdade um pouco depois das 3 da tarde)

É preciso fazer uma festa maior, ouviram! Todos os anos uma grande festa, cheia de tudo o que as festas devem ter. É necessário que se suspendam as leis que imperam sobre a liberdade e as outras coisas todas, para que neste dia apenas valha fazer a liberdade porque é dia de festa. É necessário que aquela bela avenida por onde desce a festa tenha mais vozes de festa a juntar às vozes que já lá estão. É imprescindível que os cravos nos nasçam nas mãos, na língua, nos olhos, nas orelhas, da cabeça dos cabelos aos pés e nas pernas também, e que se nos brotem do cu como flores que são. Gostava que esta festa fosse um orgasmo, uma esporradela certeira, um acto seminal.
Este ano fui na corrente da festa, entre as canções celebrei a liberdade.