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Seventeen (17)

VERMELHOS DE MARÇO É O QUE EU LÁ VOU MOSTRAR, VERMELHOS DE MARÇO.

(Lisboa é a mais bela cidade do mundo. Conheço-a há muito tempo. Quase que sou daqui).

Sixteen (16)

Eu não disse nada, sabem? Eu cá não disse, absolutamente, nada. Mas estou um bocado cansado dos pregos, dos parafusos, das agulhetas, das escadas em caracol, das poses dos outros na televisão, dos discursos de papel, dos democratas de aviário, das pequenas estações do ano em que não chove, das gomas doces, dos meus sapatos que são os mesmo há bastante tempo. Mas eu não disse nada. Nadinha. A culpa é dos outros!

Fifteen (quinze, 15)

(Pavilhão Blá-Blé. Vista da Aurora da Liberdade um pouco depois das 3 da tarde)

É preciso fazer uma festa maior, ouviram! Todos os anos uma grande festa, cheia de tudo o que as festas devem ter. É necessário que se suspendam as leis que imperam sobre a liberdade e as outras coisas todas, para que neste dia apenas valha fazer a liberdade porque é dia de festa. É necessário que aquela bela avenida por onde desce a festa tenha mais vozes de festa a juntar às vozes que já lá estão. É imprescindível que os cravos nos nasçam nas mãos, na língua, nos olhos, nas orelhas, da cabeça dos cabelos aos pés e nas pernas também, e que se nos brotem do cu como flores que são. Gostava que esta festa fosse um orgasmo, uma esporradela certeira, um acto seminal.
Este ano fui na corrente da festa, entre as canções celebrei a liberdade.

14 (fourteen)

Obrigado ao Jorge e ao Zé, agradeço ao Pedro, também, para ficar bonito na fotografia! Agradeço-lhes porque me fizeram um credível e habitável PAVILHÃO BLÁ-BLÉ a partir de um desenho sem escala que lhes entreguei. Vamos a rasgar caminho para outro lado... acho que se adivinha a Aurora da Liberdade.

Treze (13 - thirteen)

Lembro-me da terra molhada e da erva verde que crescia e do cheiro que exalavam nas horas quentes do fim da manhã. Era quase amarela a cor desses dias. Lembro-me das elevadas temperaturas que o Verão fazia crer nos corpos e das ruas enfeitadas de pescadores coloridos a comer tiras de bacalhau seco, a beber copos de vinho e a falar com a boca sem dentes. Eram azuis esses dias assim. Lembro-me de ver rebentar no céu o fogo mágico dos fogueteiros e das suscessivas vozes de espanto que ecoavam sobre o rio. A noite que era sempre parda tinha o sentido de um azul muito escuro quase sem cor a bater à porta do cinzento. Lembro-me de ver os olhos pregados à banda que acompanhava o santo a caminho da curva onde morriam os carros velozes de cores fugazes. Sem cor, o tom fúnebre e indolente da marcha, fazia tremer a alma de tédio. Hoje lembro-me de quase tudo, até do que ainda não vivi, porque me vejo nesse sítio onde já não estou e em que gosto de me sentar quando não quero que saibam de mim. …

12 (Twelve)

Gosto de sentir nos olhos o peso do sono e de cheirar a lanolina nas mãos. Gosto de pastéis de nata, de café e de chocolate. Gosto de desenhos feitos a pincel com tinta preta, das longas tardes de verão passadas no terraço da casa dos Mil-Sóis. Gosto de gostar de ti que vendes livros e és uma fada azul. Gosto de livros especiais que me revelam coisas que não conheço. Gosto de não fazer nada e de encher os olhos com a paisagem até atingir a linha do horizonte. Gosto do pequeno marinheiro desengonçado e das corridas que ele faz. Gosto do mar, esteja ele onde estiver. Gosto de tempestades de alma, dos rebuçados de infância que só trago na memória. Não gosto muito de espelhos, não sei porquê. Gosto de beber leite e de comer as bolachas dos outros.

11 (eleven)

Era a véspera de tudo, um dia infinito. Quando os outros chegaram já lá estávamos há algum tempo debaixo da árvore que fazia sombra e um de nós recebeu-os em silêncio. Exprimimos nos nossos gestos a inquietação da boca seca e o olhar vago virado para dentro, de quem comera figos à bruta, denunciava o momento. Não tenho bem a certeza, talvez caminhássemos de um lado para o outro e sem falar muito. Éramos tantos do pouco que sentíamos. Foi assim até que chegaram os outros. Sentimos estar perto do fim do mundo. Soprava uma brisa vinda de um lugar sem nome que todos sabíamos existir. As folhas da árvore que nos abrigava fugiam da sombra que projectavam no chão. Por fim, em silêncio, chegaram. Eram muitos, e poucas palavras depois o negócio tinha decorrido como combinado. Trocámos os nossos sonhos pelos deles, os deles pelos nossos. Ainda olhámos para trás para os ver partir. Tomámos de imediato a posição de sonhar com a novidade na mão. Engoli o meu pedaço logo ali e acho que os outros ta…