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Mensagens

Treze (13 - thirteen)

Lembro-me da terra molhada e da erva verde que crescia e do cheiro que exalavam nas horas quentes do fim da manhã. Era quase amarela a cor desses dias. Lembro-me das elevadas temperaturas que o Verão fazia crer nos corpos e das ruas enfeitadas de pescadores coloridos a comer tiras de bacalhau seco, a beber copos de vinho e a falar com a boca sem dentes. Eram azuis esses dias assim. Lembro-me de ver rebentar no céu o fogo mágico dos fogueteiros e das suscessivas vozes de espanto que ecoavam sobre o rio. A noite que era sempre parda tinha o sentido de um azul muito escuro quase sem cor a bater à porta do cinzento. Lembro-me de ver os olhos pregados à banda que acompanhava o santo a caminho da curva onde morriam os carros velozes de cores fugazes. Sem cor, o tom fúnebre e indolente da marcha, fazia tremer a alma de tédio. Hoje lembro-me de quase tudo, até do que ainda não vivi, porque me vejo nesse sítio onde já não estou e em que gosto de me sentar quando não quero que saibam de mim. …

12 (Twelve)

Gosto de sentir nos olhos o peso do sono e de cheirar a lanolina nas mãos. Gosto de pastéis de nata, de café e de chocolate. Gosto de desenhos feitos a pincel com tinta preta, das longas tardes de verão passadas no terraço da casa dos Mil-Sóis. Gosto de gostar de ti que vendes livros e és uma fada azul. Gosto de livros especiais que me revelam coisas que não conheço. Gosto de não fazer nada e de encher os olhos com a paisagem até atingir a linha do horizonte. Gosto do pequeno marinheiro desengonçado e das corridas que ele faz. Gosto do mar, esteja ele onde estiver. Gosto de tempestades de alma, dos rebuçados de infância que só trago na memória. Não gosto muito de espelhos, não sei porquê. Gosto de beber leite e de comer as bolachas dos outros.

11 (eleven)

Era a véspera de tudo, um dia infinito. Quando os outros chegaram já lá estávamos há algum tempo debaixo da árvore que fazia sombra e um de nós recebeu-os em silêncio. Exprimimos nos nossos gestos a inquietação da boca seca e o olhar vago virado para dentro, de quem comera figos à bruta, denunciava o momento. Não tenho bem a certeza, talvez caminhássemos de um lado para o outro e sem falar muito. Éramos tantos do pouco que sentíamos. Foi assim até que chegaram os outros. Sentimos estar perto do fim do mundo. Soprava uma brisa vinda de um lugar sem nome que todos sabíamos existir. As folhas da árvore que nos abrigava fugiam da sombra que projectavam no chão. Por fim, em silêncio, chegaram. Eram muitos, e poucas palavras depois o negócio tinha decorrido como combinado. Trocámos os nossos sonhos pelos deles, os deles pelos nossos. Ainda olhámos para trás para os ver partir. Tomámos de imediato a posição de sonhar com a novidade na mão. Engoli o meu pedaço logo ali e acho que os outros ta…

Dez (ten)

Eras um pássaro, não eras um pássaro? Não eras? Eras o quê então se não eras um pássaro? Eras enorme, eu bem te vi. Enorme de pés e mãos. Eu bem te vi como eras. Eras um pássaro gigante. Que espécie de pássaro gigante eras tu?

9

("Djin-Djin. Quando roubaram o coração ao Cabeça de Ovo caíu do céu uma chuva dourada". Da série Ararararax. Acrílico sobre tela, 2005)

Como sabia que vinhas preparei o teu lugar junto dos outros. Comprei duas buchas para a broca número oito, nivelei os traços e furei. Apertei dois parafusos enquanto mordia a língua no lugar dos buracos e esperei que chegasses. Por fim, já em casa, depois de todos os salamaleques e sorrisos de quem vê chegar quem esteve longe durante muito tempo, pendurei o "Cabeça de Ovo" mesmo ao lado da "Tintoretta". Aqui estás, novamente, cansado e exausto de estar escondido, mas penso que feliz. Não te preocupes com mais nada, deixa rolar o fio do mundo pelo teu corpo. Olha, a Lima ainda dá frutos amarelos, e no terraço existem novidades sem conta de que amanhã te porei a par.

Oito e meio (Eight and half)

Às seis da tarde o dia parecia primaveril. O solarengo momento esticou-se para lá das seis e quase bateu nas sete. Como roçou não chegou a tocar, acabou-se ali o instante, paciência. Amanhã haverá mais daquilo e mais longo, é verdade. Mas não me dei por vencido. Fechei os olhos e o dia continuou cá dentro como o vi lá fora. É tudo uma questão de pensar azul e brilhante, azul e brilhante, azul e brilhante, com ritmo sincopado como se fosse uma máquina de zurzir lenta. Os dias assim deixam-me sempre o olhar perplexo, tão preso a tudo que mal ouvi o que me perguntaram, "para que lado fica o Areeiro?". Lamento, respondi, estou a ver o Sol, agora não posso. Mesmo que soubesse a direcção a tomar não poderia ter respondido, não poderia dar uma resposta precisa, estava cheio, de boca cheia, com os olhos presos a tudo.

Oito (Eight)

("O Jardim dos Loucos" - Coisa pintada em 1994 e remontada hoje com um desenho de 2008)

One (in hungarian)

Másnap, meglehetősen betegen, gyomrom tartalmát egy nejlonzacskóba öklendeztem. Rosszindulatúan néztek rám, az együttérzés legkisebb jelét sem mutatták. Hogy lehetséges az, hogy egy másodosztályú utas kihányja az első osztályon bekebelezett ízes lakomát? Először egy szót sem szóltak, majd suttogni kezdtek. A rosszindulatú megjegyzések hallgatása helyett inkább eltakarítottam a zacskót, és integettem a tengernek, üres gyomorral.

(Thank you!)