Lembro-me da terra molhada e da erva verde que crescia e do cheiro que exalavam nas horas quentes do fim da manhã. Era quase amarela a cor desses dias. Lembro-me das elevadas temperaturas que o Verão fazia crer nos corpos e das ruas enfeitadas de pescadores coloridos a comer tiras de bacalhau seco, a beber copos de vinho e a falar com a boca sem dentes. Eram azuis esses dias assim. Lembro-me de ver rebentar no céu o fogo mágico dos fogueteiros e das suscessivas vozes de espanto que ecoavam sobre o rio. A noite que era sempre parda tinha o sentido de um azul muito escuro quase sem cor a bater à porta do cinzento. Lembro-me de ver os olhos pregados à banda que acompanhava o santo a caminho da curva onde morriam os carros velozes de cores fugazes. Sem cor, o tom fúnebre e indolente da marcha, fazia tremer a alma de tédio. Hoje lembro-me de quase tudo, até do que ainda não vivi, porque me vejo nesse sítio onde já não estou e em que gosto de me sentar quando não quero que saibam de mim. …
Considerando o melhor dos mundos possíveis, onde tudo vai pelo melhor.